1º de Maio, venha cá!

Ontem foi um dia histórico. As lojas Pingo Doce conseguiram congregar um número muitíssimo mais elevado de pessoas do que todos os sindicatos e respectivas agremiações juntos. Para lá da análise papalva à promoção levada a cabo por esta cadeia de lojas, interessa entender o alcance político e sociológico desta acção do grupo Jerónimo Martins.

 

O 1º de Maio é um dos feriados mais queridos da esquerda mundial. Cá no burgo sucede o mesmo. Ao celebrá-lo com um autêntico hino ao capitalismo e ao consumismo furioso, afastando as pessoas das habituais manifestações de rua e colocando-as nas suas lojas, contribuindo para os lucros de um dos maiores grupos empresariais portugueses, Soares dos Santos envia um sinal claro e fere de morte os ideais da esquerda radical em Portugal, mostrando que o povo os troca, com um rasgado sorriso no rosto, por umas quantas baguetes e meia dúzia de pacotes de leite em promoção.

 

Bravo!

Ultrapassar os limites

Nunca nutri particular simpatia por Marinho Pinto, que sempre considerei um rufia. Vaidoso e boçal, unicamente interessado na promoção da sua agenda particular, usa e abusa da sua visibilidade para defender causas (Sócrates vem-me à memória) que aborda enquanto representante de uma classe profissional – quando as devia assumir apenas como cidadão-político.

Concordo, portanto, com José Miguel Júdice quando ele diz, entre outras coisas, que Marinho Pinto “ultrapassou todos os limites da boa educação” e que o objectivo do actual bastonário é a visibilidade pessoal.

 

E se eu já não gostava de Marinho Pinto, colocar-me de acordo com José Miguel Júdice (uma das eminências escorregadias que tem engordado os cofres à conta da sua promiscuidade com o poder político) só fez aumentar a minha antipatia pela figurinha bastonária.

Retrato a cores e em alta resolução

Maria Filomena Mónica, em entrevista ao jornal I, quando questionada sobre o desempenho da oposição que vamos tendo, responde certeira e lapidar:

 

A oposição desapareceu. O PS não existe, nem sei o que é aquilo. O líder não tem carisma, não sabe o que há-de fazer, está condicionado pelo acordo com a troika. E sucede a um delinquente político chamado Sócrates, o pior exemplo que jamais, na História de Portugal, foi dado ao país: ir para Paris tirar um curso de “sciences po”, depois daquela malograda licenciatura – à qual não dou a menor importância, pois há muitos excelentes políticos que não são licenciados. O engenheiro Sócrates foi o pior que a política pode produzir. Depois de tantos processos em que mentiu, aldrabou, não depôs, ninguém percebeu o que se passou com o Freeport, os portugueses perguntam-se onde foi ele buscar dinheiro para estar em Paris. Quem é que lhe paga as despesas e o curso? A esquerda socialista tem ali este belo exemplar a viver no 16ème, e um sucessor que não inspira ninguém. O PCP vive num mundo antes da queda do Muro de Berlim, e o Bloco de Esquerda habita em Marte.

 

Só discordo em parte minúscula da formulação: Sócrates foi um delinquente político – mas também foi um político delinquente.

Envelhecer com dignidade

Quando se é jovem e ainda se acredita nos dias, têm-se visões de grandeza: Amor, Glória, Fortuna. Mas o Tempo é um bom professor. Hoje, limito-me a ambicionar que o envelhecimento me seja mais digno do que foi o de Soares e Alegre.

 

Egomaníacos, ainda os veremos a fazer ski-aquático para captar umas páginas de jornal. Por agora, basta-lhes solidarizarem-se com os “militares de Abril” que se recusam a participar nas sessões solenes de amanhã porque

 

“O poder político que a(c)tualmente governa Portugal configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores.”

 

Pelo que se infere dos seus discursos recentes, “os ideais e os valores” que guiaram gente como Otelo e Vasco Lourenço a fazer o 25 de Abril prefiguram um conceito algo maleável de Democracia. É irónico que estes senhores, que derrubaram o Estado Novo para – supostamente – vivermos em democracia, parecem incapazes de aceitar uma das suas consequências: que sejam outros, com posições ideológicas diferentes, a conquistar mais votos em eleições livres. Eleições livres, para Otelo e Lourenço, parecem só ter como resultado possível aquele que lhes convém.

 

Do nefelibata Alegre, tudo é expectável – portanto nada pode surpreender. De Soares, e do seu ego com gravidade jupiteriana, também não se pode esperar nada. Há muito que se tornou óbvia a verdadeira motivação para que se opusesse a uma putativa ditadura comunista no pós-25 de Abril: maior palco de influência para a sua augusta pessoa e o seu grupo. Que tal fosse menos maligno para o país – tal foi um simples acaso menos infeliz.

 

Já de Sampaio, confesso, esperava melhor. Por muito inútil que sempre o tenha achado, pensava-o com alguma genuinidade. Mas fazer depender a presença da “sua agenda internacional” parece mostrar que, também para ele, este dia tem um simbolismo muito relativizável.

 

E assim temos que aqueles que se preparam para celebrar o 25 de Abril na Assembleia da República, são precisamente aqueles que estão “contra os seus ideais e valores” – nas palavras dos que o fizeram, supostamente em nome desses “ideais e valores”, mas se recusam agora celebrá-los na “casa da democracia”.