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Carrinhas vs. autocarros

Andam muitas vozes blogosféricas em polvorosa por causa de uma reportagem do Observador sobre carrinhas que foram usadas para recolher militantes nas eleições locais do PSD (aguardo semelhante dedicação jornalística em eleições locais do PS). É revelador que as mesmas vozes, blogosféricas e jornalísticas, se silenciem perante cortejos de autocarros fretados pelos sindicatos por ocasião de certas manifestações.

A nódoa que cai no pano assim-assim

O Observador, por norma um dos poucos locais de jornalismo ainda razoavelmente asseados, titula: “Ativista que pediu demissão de Passos Coelho vai mesmo pagar 1.440 euros de multa”. Logo a seguir, o mesmo jornal subtitula em repetição: “Ana Nicolau vai ter mesmo de pagar a multa de 1.440 euros por ter pedido a demissão de Passos Coelho”. Todo o texto que se segue é um tempo de antena da condenada, muito orgulhosa do que fez (e não tenho nada contra isso, cada um é como é).

 

Acontece que Rita Porto, a jornalista responsável pela “notícia”, devia ter feito alguma pesquisa prévia antes de asnear. Por outras palavras, fazer jornalismo. Se o tivesse feito, por exemplo lendo esta outra notícia linkada no seu texto, saberia que a activista foi condenada por “perturbação de funcionamento de órgão constitucional”, não por ter pedido a demissão de Passos Coelho. Ou seja, foi julgada pelo LOCAL onde fez o seu protesto – não pelo teor do seu protesto. Como disse o juiz que leu a sentença original, “o que a sociedade não pode permitir é que essa atuação se faça dentro da Assembleia da República”.

 

Mas isto seria pedir demasiado ao jornalismo que temos.

Uma evolução?

O Público titula que “Ambiente falhou medição de enxofre no ar em Setúbal” a propósito do incêndio na Sapec Agro que libertou vastas quantidades de dióxido de enxofre. Fosse há um par de anos e o título seria algo do género “Cortes orçamentais deixam viatura avariada incapaz de medir enxofre no ar em Setúbal”. Mas talvez seja cinismo meu. Talvez isto não seja mais do que seriedade na linha editorial agora que David Diniz está ao leme.

Há que ler sempre as letras pequeninas

público de 18/08/2016

Faz hoje uma semana, o Público bradou, com voz grossa e indignada, que PSD e CDS pagaram, entre os dois, 475 mil euros a um especialista em comunicação política para a campanha das últimas legislativas. Logo a seguir, o Público surrurrou timidamente, decerto para não acordar o menino que dormia, que o PS pagou 751 mil euros (58% mais) a um militante para lhe decorar as salas de campanha.

 

Pergunto hoje o que já perguntei mil vezes antes: para que sustenta a Sonae esta triste sombra de jornalismo?

Falta de tudo

Arons de Carvalho, constante socialista e vice-presidente da ERC (nomeado, já agora, durante o anterior governo PSD), conversa com Sócrates, em privado, sobre o processo deste contra o Correio da Manhã e chega a fornecer-lhe elementos da defesa do jornal. Ninguém se demite, ninguém é demitido, ninguém é processado, ninguém sequer leva uma palmatoada na mão? Onde estão os jornalistas sempre tão pressurosos pela pureza da sua classe – quando o interveniente é da direita?