Arquivo da Categoria: jornalismo

O Público tornou-se o Luta Popular

O editorial de hoje do Público mostra um jornal que já foi de referência a estatelar-se no chão – e continuar a escavar. Escrito num linguajar que não destoaria na página web do Bloco de Esquerda (ou num blogue de João Galamba), afirma que Bruxelas tem uma “agenda autista” e que os credores, membros da troika, “escrevem uma coisa e fazem outra, como inimputáveis em permanente risco de surto psicótico”. Mas o auge do delírio é o magnífico parágrafo final:

É fundamental que Bruxelas perceba que a vontade dos portugueses conta e que há um antes e um depois de 4 de Outubro de 2015. Um Governo que não faça valer a sua legitimação nas urnas não está só a defraudar os eleitores, mas a contribuir também para a criação de uma caricatura da própria democracia. Mas quem se quer fazer respeitar e ouvir não pode enviar sinais errados. As 35 horas e a reintrodução dos feriados são mesmo prioridades?

O Público quer que “Bruxelas perceba que a vontade dos portugueses conta” – quando o próprio governo que temos resulta de a vontade dos portugueses não ter sido levada em conta. O Público afirma que “Um governo que não faça valer a sua legitimação nas urnas” (está, suponho, a falar do governo de Costa cuja legitimidade resulta de ter sido derrotado nas urnas) “não está só a defraudar os eleitores” (está, suponho, a falar do governo de Costa cuja existência defrauda os eleitores) “mas a contribuir também para a criação de uma caricatura da própria democracia.” (está, suponho, a falar do governo de Costa cuja criação, depois de pesadamente derrotado nas urnas, resulta de uma visão caricatural da democracia).

 

Eu continuo a não compreender a relação que Belmiro de Azevedo tem para com o Público. 

Oh senhora acidentada, desapareça!

A história conta-se de uma penada: na tarde de quinta-feira, o carro (pago com os nossos impostos) onde seguia o velho Soares abalroou, ao mudar de faixa, a viatura de uma senhora (jurista na Câmara Municipal de Lisboa). Perante o nervosismo da senhora, o motorista (pago com os nossos impostos), acatando as manifestações de pressa de Sua Alteza Soárica El-Rei D. Soares, atirou displicentemente pela janela um papel com o número de telemóvel (desligado) e largou a toda a brida.

Alguém ouviu alguma coisa de especial sobre o assunto? Com excepção do Correio da Manhã que fez jornalismo sobre ele, alguns outros (poucos) meios de comunicação social limitaram-se a retransmitir cobardemente a notícia como uma pequena nota de rodapé que esqueceram imediatamente. Parece que o JQT (jornalismo que temos) não acha de interesse público que o geronte Soares, que se faz transportar diariamente num automóvel pago por todos nós, incite o seu motorista pago por todos nós a abandonar o local de um acidente que provocou, deixando como única forma de contacto um número de telefone que está sempre desligado. O JQT também não acha relevante que, quando questionada sobre o assunto, a assessora paga por todos nós do Imperador Soares “não tenha nada para dizer”.

O JQT também não acha digno de interesse que a senhora jurista da Câmara de Lisboa, que no próprio dia relatara os factos aos jornalistas, tenha algum tempo depois “reflectido” e se mostrasse contra a publicação de notícias, classificando agora como “um pequeno incidente de viação” o que antes a enervara até às lágrimas.

Acontece que a notícia não é sobre um “pequeno incidente de viação”. Sê-lo-ia se, a seguir, tivesse acontecido o normal nestas circunstâncias: as partes preencheriam a declaração amigável, trocariam contactos ou esperariam pela polícia. O sucedido, pelo contrário, foi uma das partes, precisamente a parte com “influência”, dizer com grosseria que se tinha de “despachar” e abandonar o local de um acidente que acabara de provocar sem manifestar qualquer sinal de preocupação pela condição em que se encontrava a acidentada – ou por aquilo que está escrito na lei.

Noutros tempos, se um azarado ficava esmagado pelo rodado de uma carruagem da nobreza, podia-se dar por satisfeito se um par de moedas fosse lançado pela janela. Hoje, com uma lei que é, supostamente, igual para todos, lança-se pela janela um número de telemóvel incontactável.

Soares é, como sempre foi, intocável. Soares sabe-se acima da lei e do escrutínio público porque o nosso jornalismo, sabujo e obediente, fecha os olhos a todo e qualquer comportamento prepotente e mafioso deste nosso auto-proclamado “pai da democracia”.

Cinco? Cinco!

O antigo jornal de referência Público anda agora muito encanitado com a contratação de Sérgio Monteiro pelo Fundo de Resolução do Novo Banco. O Correio da Manhã, que é actualmente o único jornal que faz realmente jornalismo, também não se coibiu de fazer um pequeno exercício de chico-espertice quando chamou para a primeira página de ontem:

sérgio-monteiro-sexta-feira.png

Ora o que o Correio da Manhã escreve é factualmente correcto, tal como o descreve no corpo da notícia: Sérgio Monteiro vai, de facto, ganhar 20.000 euros quando ganhava 3.600 euros como secretário de Estado. Acontece que a notícia também diz que estes 20.000 euros eram o salário do mesmo Sérgio Monteiro antes de ir para o governo. O Correio da Manhã, portanto, poderia titular na primeira página com igual correcção:

“Ex-secretário de Estado ganha o mesmo que ganhava antes de entrada no Executivo.”

De igual forma, não me recordo de ter visto o Correio da Manhã, o Público, o DN, o Expresso ou qualquer outro escreverem há quatro anos:

“Secretário de Estado ganha 5 vezes menos com entrada no Executivo”.

O que o Correio da Manhã faz, e não vi o Público fazer, é noticiar que “outro assessor contratado por valores milionários é o escritório de Vasco Vieira de Almeida, que intervém no processo como consultor jurídico”. Como nos recordamos todos, este escritório já esteve envolvido no negócio Freeport, no negócio Submarinos e sabe-se lá em quantos mais: o nome Vasco Vieira de Almeida é tão omnipresente nos grandes negócios de regime como o de Proença de Carvalho ou José Miguel Júdice.

O jornalismo enjoadinho que temos

O Expresso de Balsemão titula: “Cavaco provoca conflito com o Parlamento por causa de tomada de posse”. Depois, subtitula: “Presidência da República marcou tomada de posse do Governo para a mesma hora de sessão plenária na Assembleia da República. Ferro Rodrigues não gostou (*). Grupos parlamentares também não.”

 

Ora se no fim do mesmo subtítulo afirma que “Belém diz que a cerimónia foi acordada com António Costa”, porque raio o Expresso de Balsemão não titulou “António Costa provoca conflito com o Parlamento por causa de tomada de posse”?

 

(*) Parafraseando o nosso vasto presidente da assembleia de república: estou-me cagando para aquilo de que Ferro Rodrigues não gosta.

Analfabetismo

O Público, na sua edição de hoje, publicou uma carta de 2011 que o então líder da oposição Pedro Passos Coelho enviou ao então primeiro-ministro José Sócrates:

carta_passos_sócrates.jpg

 Anunciou a publicação desta carta com os dizeres em chamada de primeira página:

PÚBLICO revela conteúdo da carta que o líder do PSD dirigiu ao então primeiro-ministro, a 31 de Março de 2011, a exigir que pedisse apoio externo para resolver os problemas financeiros do país.

A direcção do Público concluir, a partir desta carta, que Passos Coelho está a exigir algo, só me permite concluir que a direcção do Público é constituída por analfabetos – porque a alternativa seria a direcção do Público ser constituída por um grupo de reles canalhas.

A mulher de César

Quando a liderança socialista ainda não convinha a António Costa, este dizia que era incompatível ser presidente da câmara de Lisboa e candidatar-se a tal. Quando o poder lhe pareceu estar suficientemente podre para lhe cair no colo, a incompatibilidade foi às urtigas.

 

Quando António Costa era presidente da câmara de Lisboa, recordo-me de ver, no final de um Expresso da Meia-Noite, Ricardo Costa anunciar que o próximo programa seria sobre as autárquicas em Lisboa e ele, por razões óbvias, não iria estar nessa noite. Quando António Costa se candidatou à liderança do PS, Ricardo Costa colocou o seu lugar de director do Expresso à disposição – imagino que por achar haver razões óbvias para tal. Isso não foi aceite por Balsemão e companhia e é ver, agora, Ricardo Costa comentar alegremente a política nacional como se não houvesse amanhã. Acontece que as razões antes óbvias não deixam de ser óbvias por causa  da “confiança reforçada da administração”.

 

O problema é este: mesmo com eufemismos do género “O líder socialista”, ninguém minimamente informado desconhece a relação familiar entre os dois. Ver Ricardo Costa comentar a actuação do irmão com um “o líder socialista” é como ver João Soares a comentar na televisão o debate entre Cavaco e Soares – e referir-se a este último como “dr. Soares”.  Nem a confiança da administração do jornal, nem um ilusório distanciamento de trato em relação ao objecto em análise conferem qualquer credibilidade acrescida.

 

Sabemos perfeitamente que o Expresso é para Balsemão um meio de influência negocial, não um projecto de verdadeiro jornalismo – se este acontecer, é apenas uma feliz coincidência. Mas Ricardo Costa, personagem por quem até nem nutro particular simpatia, entende-se jornalista e devia ter imposto limites a bem da sua credibilidade. Ricardo Costa poderia ter-se mantido na direcção do Expresso e anunciar que passaria a comentar apenas política internacional. Assim, comentando as acções de campanha do “líder socialista”, Ricardo Costa apenas irá provocar sorrisos sarcásticos em quem o lê.