Oh senhora acidentada, desapareça!

A história conta-se de uma penada: na tarde de quinta-feira, o carro (pago com os nossos impostos) onde seguia o velho Soares abalroou, ao mudar de faixa, a viatura de uma senhora (jurista na Câmara Municipal de Lisboa). Perante o nervosismo da senhora, o motorista (pago com os nossos impostos), acatando as manifestações de pressa de Sua Alteza Soárica El-Rei D. Soares, atirou displicentemente pela janela um papel com o número de telemóvel (desligado) e largou a toda a brida.

Alguém ouviu alguma coisa de especial sobre o assunto? Com excepção do Correio da Manhã que fez jornalismo sobre ele, alguns outros (poucos) meios de comunicação social limitaram-se a retransmitir cobardemente a notícia como uma pequena nota de rodapé que esqueceram imediatamente. Parece que o JQT (jornalismo que temos) não acha de interesse público que o geronte Soares, que se faz transportar diariamente num automóvel pago por todos nós, incite o seu motorista pago por todos nós a abandonar o local de um acidente que provocou, deixando como única forma de contacto um número de telefone que está sempre desligado. O JQT também não acha relevante que, quando questionada sobre o assunto, a assessora paga por todos nós do Imperador Soares “não tenha nada para dizer”.

O JQT também não acha digno de interesse que a senhora jurista da Câmara de Lisboa, que no próprio dia relatara os factos aos jornalistas, tenha algum tempo depois “reflectido” e se mostrasse contra a publicação de notícias, classificando agora como “um pequeno incidente de viação” o que antes a enervara até às lágrimas.

Acontece que a notícia não é sobre um “pequeno incidente de viação”. Sê-lo-ia se, a seguir, tivesse acontecido o normal nestas circunstâncias: as partes preencheriam a declaração amigável, trocariam contactos ou esperariam pela polícia. O sucedido, pelo contrário, foi uma das partes, precisamente a parte com “influência”, dizer com grosseria que se tinha de “despachar” e abandonar o local de um acidente que acabara de provocar sem manifestar qualquer sinal de preocupação pela condição em que se encontrava a acidentada – ou por aquilo que está escrito na lei.

Noutros tempos, se um azarado ficava esmagado pelo rodado de uma carruagem da nobreza, podia-se dar por satisfeito se um par de moedas fosse lançado pela janela. Hoje, com uma lei que é, supostamente, igual para todos, lança-se pela janela um número de telemóvel incontactável.

Soares é, como sempre foi, intocável. Soares sabe-se acima da lei e do escrutínio público porque o nosso jornalismo, sabujo e obediente, fecha os olhos a todo e qualquer comportamento prepotente e mafioso deste nosso auto-proclamado “pai da democracia”.

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