O título da notícia diz “Seguro ignora Soares“. Na verdade, não foi bem assim: lê-se na notícia que ambos estiveram reunidos durante mais de três horas. Isso não é ignorar: isso é dar-lhe três horas de atenção a mais. Ignorar é o que eu faço aos testemunhas de Jeová que me vêm bater à porta.
As fadas e as libelinhas
Parece que a ex-ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues foi ao Parlamento dizer de sua justiça sobre a Parque Escolar, obra sua. Ao contrário do que Estrela Serrano e outras vozes próximas do socratismo disseram e dirão, não penso ter sido um extraordinário desempenho de um conhecedor dos dossiês: foi um desempenho cara-de-pau de um político. Ao bom estilo socrático, misturou conceitos, deturpou datas e respondeu com slogans em vez de explicações. Reconheço isto: MLR teria sido uma boa advogada.
Deixarei a análise aprofundada para outros, melhores e com mais paciência do que eu. Limitar-me-ei a apontar para um trio de pontos que penso reflectirem a arrogância ou má-fé ou loucura da ex-ministra (ainda não decidi qual destas é).
A ex-ministra reconheceu que foi um programa caro mas, a propósito, lembrou o ditado popular “o que é barato, às vezes, sai caro”. Segundo Maria de Lurdes Rodrigues foi isso que “aconteceu às nossas escolas” nas intervenções anteriores à existência da Parque Escolar.
A ex-ministra citou a propósito uma intervenção realizada na escola secundária Camões, entre 2000 e 2005, orçada em 4 milhões de euros e que não só não melhorou as condições daquele liceu histórico, como pode ter causado um “imenso prejuízo” na estrutura daquela escola.
Acho sempre bem que, numa discussão que se pretende técnica, alguém introduza um ditado popular à laia de argumento. Mas gosto principalmente que a ex-ministra apresente, como exemplo de um “barato que saiu caro” pré-Parque-Escolar, um projecto supostamente falhado orçado em 4 milhões de euros. E gosto porquê? Porque eu já mencionei antes um projecto da era Parque Escolar, que mete literalmente água e se esboroa, e que foi orçado em 8 milhões de euros. Foi só o dobro, sra. ex-ministra, e chove nas salas, chove no ginásio, os azulejos descascam e baldes tentam conter as fugas. Mas talvez para a ex-ministra a Escola Secundária Alcaides de Faria tenha saído cara por 8 milhões de euros serem barato – talvez se devesse ter lá enterrado 16 milhões…
A ex-ministra lamentou também que nas escolas se “considere ser luxo o que não é considerado como luxo noutros espaços”. Maria de Lurdes Rodrigues respondia assim às observações de deputados do PSD e do CDS sobre a compra de 12 candeeiros de Siza Vieira, por 1700 euros cada, para uma das escolas requalificadas e a utilização de materiais nobres em várias instalações, que também é criticada no relatório da IGF.
Fico deliciado: a ex-ministra lamenta que nas escolas seja considerado luxo aquilo que não é considerado noutros locais. Pois deixe-me explicar-lhe isto, sra. ex-ministra, e nem vou cobrar por tal: no mundo real, há de facto coisas que se justificam nuns locais e não noutros. Justifica-se, num casino de Las Vegas, colunas em mármore Carrara – mas o mesmo não terá razão de ser num armazém de rações. De igual modo, justifica-se que a relações públicas de uma cadeia de hotéis se vista com um fato de qualidade feito à medida – mas há que reconhecer que tal será um pouco excessivo numa oficina bate-chapa…
Tentar justificar os 12 candeeiros de Siza Vieira, orçando 1700 euros cada (20.400 euros no total), é um exercício impossível. Só tentar fazê-lo é insultuoso para quem ouve. Não consigo imaginar quantos valores a média dos alunos melhorou com tanta auto-estima fornecida pelos candeeiros de Siza Vieira.
São 1700 euros por candeeiro: em moeda antiga, cerca de 340 contos cada. Sabe a sra. ex-ministra o que vale cada um destes candeeiros mágicos? Vale certamente as obras completas dos clássicos portugueses na biblioteca de uma escola. Vale provavelmente mesas e cadeiras para uma ou duas salas de aula. Pelo custo de cada um desses candeeiros, muito boa gente é capaz de equipar a sua cozinha – e ainda sobrar dinheiro para o faqueiro e toalhas.
Para terminar, diz Maria de Lurdes Rodrigues:
“O programa da Parque Escolar foi uma festa para as escolas, para os alunos, para a arquitectura, para a engenharia, para o emprego e para a economia”
Esqueceu-se das fadas e das libelinhas, sra. ex-ministra.
Normalidade?
Em Valença, há um levantamento de pais por causa de uma professora com ideias heterodoxas sobre pedagogia: colocar os petizes das 3ª e 4ª classes a ver filmes e animação. Segundo parece, as sequelas manifestam-se: após manhãs de cinefilia, depressões generalizam-se entre as crianças. Um pai garante que a filha já tem consulta marcada com um psicólogo: “A miúda está deprimida e perdeu a vontade de ir para a escola”.
Eu sei que sou de outra era. Na minha infância, as crianças (normais) não gostavam particularmente de ir à escola, pois isso representava tempo em que não estavam na rua e nos quintais a brincar com os amigos. Pelo contrário, eram maçadas durante as aulas com horrores como a tabuada (hoje têm as calculadoras) ou a História de Portugal (hoje terão a Wikipedia). Mas posso garantir que se a professora lhes desse uma ementa diária de filmes e desenhos animados, até com febre os miúdos iriam às aulas.
Esta notícia de que as crianças, após manhãs inteiras a ver filmes e animação, não querem ir às aulas, faz-me pensar: que raio de filmes e desenhos animados está a professora a exibir-lhes para os mergulhar nesta espiral depressiva? Morte Em Veneza? O capítulo da Valsa Triste de Sibelius do Allegro Non Troppo?
Ou talvez os miúdos aborreçam-se por preferirem estar a ver videoclips de Lady Gaga e Lil’Kim…
O parque da Lurdes
Apesar de relegados para uma modesta insignificância pelos resultados das últimas eleições legislativas, em 2011, os fantasmas socialistas que assombraram a nação ao longo da última década e meia, com especial ênfase para os 6 anos de sultanato socrático, ainda não se transformaram nos espectros poeirentos e longínquos que a nação guarda no sotão do tempo e dos quais se envergonha. É tudo muito recente.
Ontem, a inqualificável Maria de Lurdes Rodrigues deu um triste espectáculo durante uma audição em sede de comissão parlamentar. Foi com desplante que afirmou que candeeiros de Siza numa escola pública (ao módico preço de €1.700 a unidade) não são um luxo e foi com liminar desrespeito pelo esforço dos contribuintes que, orgulhosa, esta ex-governanta socialista concluiu:
“O programa da Parque Escolar foi uma festa para as escolas, para os alunos, para a arquitectura, para a engenharia, para o emprego e para a economia”
Todos sabemos, lamentavelmente bem demais, as consequências das “festas” faraónicas do anterior governo. Foi tudo uma enorme “festa”, adocicada pelo sabor da certeza de que outros pagariam. Maria de Lurdes Rodrigues introduz, aliás, outro conceito refrescante: a “irregularidade tipificada”, para justificar os 500 milhões de euros em pagamentos indevidos feitos ao longo do edificante processo de requalificação das escolas públicas.
Maria de Lurdes Rodrigues personificou ontem, sem vergonha ou qualquer tipo de pudor, aquilo que foi a governação socialista ao longo das páginas negras escritas entre 2005 e 2011. Quem fala desta forma, no actual contexto nacional, merece ser julgado. Não à luz do nosso sistema judicial, mas sob os preceitos do Código de Hammurabi.
Speedy Gonzalez
Soares, o tal que alguns afirmam ser “o pai da nossa Democracia”, falou. De novo. E de novo quando devia ter estado calado.
Soares, incontinente… verbal, diz que as decisões do Governo não atingem os mais favorecidos. Critica também “o despesismo do Estado e das empresas públicas”, afirmando que ao contrário do “corte nas gorduras do Estado” prometido em campanha, “até parece que tem vindo a engordar”.
É um facto que o Governo pode atingir alguns “favorecidos”, cortar algumas “gorduras” e reduzir despesas. Pode, por exemplo, eliminar a presença no Orçamento de Estado de fundações manhosas como uma tal “Fundação Mário Soares”, cuja utilidade ainda ninguém me conseguiu explicar (a não ser como local de recepção para líderes carismáticos como Chávez). Pode reduzir ou eliminar a mesada que lhe sustenta um escritório. Pode reduzir ou eliminar a guarda pretoriana que lhe dá um ar “ex-presidencial”. Pode manter na garagem da Direcção Geral das Finanças e do Tesouro o Mercedes Benz S350 a bordo do qual o nosso Speedy-Gonzalez-Soares anda a brincar à apanhada com os radares da GNR de Leiria a 199Km/h. E o Estado pode começar por conter os seus gastos não pagando a respectiva multa de 300 euros, pois o nosso Soares-Rex entende, na sua generosidade, que:
“o Estado é que vai pagar a multa”.
E não deixa de ser irónico que o velho Soares acuse o Governo de atingir os mais desfavorecidos com as decisões que vem tomando. Pois quando os oficiais da GNR lhe deram a escolher entre pagar imediatamente os 300 euros ou ver a carta do motorista ser apreendida, Soares tomou a decisão – que atingiu o mais desfavorecido:
“disse que o Estado é que ia pagar a multa, pelo que a carta do condutor ficou apreendida”.
Alguém devia estudar o genoma deste Soares pai-do-filho e tio-do-sobrinho. De certeza que algures faltam genes: os genes responsáveis pela vergonha. Talvez tenham sido substituídos pelos genes da falta-de-educação:
Quando os guardas se aproximaram, o ex-presidente terá sido “bastante mal-educado”
A PME familiar
Alfredo Barroso, cavalheiro que iludiu uma existência de insignificância graças ao facto de ser sobrinho de quem é, decidiu lançar um livro. Eterna correia de transmissão do pensamento soarista, dedica grande parte do que obrou a criticar Cavaco Silva (“o gajo”, como o devem chamar nas reuniões de Natal) e o neoliberalismo, e a promover a necessidade de mais debate à esquerda.
A minha primeira reacção foi passar à frente. Mas depois sobressaltei-me. António Costa já publicou o seu pequeno manifesto de pré-campanha para as presidenciais. Sócrates continua, em Paris, com as mãos bem metidas nos seus fantoches de ventríloquo. Será que, com a publicação deste livro, o sobrinho-do-tio Alfredo Barroso também demonstra apetência por esta corrida?
Dar graças
Manuel Alegre dá graças por não ser Presidente da República. Eu também dou graças por Alegre não ser Presidente da República.
Bipolar? Não!
Isabel Moreira diz, em entrevista ao jornal I, que
“Só se eu sofresse de bipolarismo é que não tornaria a votar contra o Código do Trabalho“.
Realmente, bipolaridade é capaz de ser a única afecção de que Isabel Moreira não padece. Ela não oscila entre estados – o seu nível de alucinação é constante.
… e ainda me perguntam porque raramente vejo televisão?
Liguei a televisão pela hora de jantar. Comecei a fazer zapping pelos vários canais. Na Sic Notícias, estava a doidinha Isabel Moreira a ser entrevistada. Na RTP-Informação, ou lá como se chama agora a defunta RTP-N, estava o palerma Galamba. Nem me atrevi a passar pela TVI24, não fosse deparar-me com o esgar do viscoso Silva Pereira. Em suma, o exemplo perfeito de telelixo. E eu continuo a questionar-me sobre o porquê de se dar tanto tempo de antena a este gangue manhoso.
Um a menos, faltam muitos mais
O luso-rambo Pedro Nuno Santos, o tal da “imagética rica” que sabia como fazer tremer as pernas dos banqueiros alemães, demitiu-se da vice-presidência da bancada parlamentar do PS. Segundo a notícia do Diário Económico, Pedro Nuno Santos “invocou razões de carácter pessoal” para a decisão de se afastar da direcção da bancada, mas deputados próximos do ex-líder da JS referiram que a demissão se deve “a divergências políticas”.
Eu acredito mais na segunda hipótese. É que para serem “razões de carácter pessoal” a causa para a demissão, tornava-se necessário que existisse carácter…