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A imbecilidade como uma forma de estar [2]

 

“Alguém confronta o PR com a necessidade urgente de termos governo que governe também por causa da ameaça terrorista?”

(Ana Gomes no Twitter)

 

Ana Gomes, claro. A mesma Ana Gomes que em Janeiro, quando do ataque ao Charlie Hebdo, tuitou que o terrorismo era resultado da austeridade, usa agora a tragédia de Paris como aríete para insistir numa rápida decisão de Cavaco Silva a favor do putativo governo de Costa. Se, em Janeiro, alguém que não conhecesse o seu palmarés poderia benevolamente pensar que a voluntariedade da criatura a impedia de ponderar aquilo que escrevia, esta reincidência na chafurda só permite concluir que a coisa é isto mesmo: boçal e sem escrúpulos para usar a tragédia alheia como argumentário na luta partidária.

 

Adenda: gosto sempre de ver como o aroma do poder muda as convicções pessoais de alguma gente. A mesma Ana Gomes que, perante o vergonhoso resultado de Costa nas legislativas, lacrimejava o seu estado de choque e exigia reflexão, sente agora urgência numa putativa entronização do mesmíssimo Costa que obteve tal resultado.

Por qué no te callas? [2]

Eu andava com a ideia de sugerir ao António que atribuíssemos um prémio “Por Qué No Te Callas?”. Receio, contudo, que se tornasse um prémio “Mário Soares” – com atribuição diária.

 

Infernizando-nos semanalmente com a publicação no DN de uma coluna de opinião/desfaçatez, o velho Soares bolçou hoje (entre outras pequenas maravilhas):

 

O Governo não comunica com os portugueses o que agrava o descontentamento e a incompreensão de uma situação que só tende a agravar-se. Não admira assim que os suicídios cresçam, como nunca antes sucedera, (…)

 

É atribuída a Einstein uma frase em que afirmava, de entre o Universo e a estupidez humana, só ter a certeza da infinitude da segunda. É óbvio que Einstein não conhecia a falta de escrúpulos do velho Soares.

… e ainda me perguntam porque raramente vejo televisão?

Liguei a televisão pela hora de jantar. Comecei a fazer zapping pelos vários canais. Na Sic Notícias, estava a doidinha Isabel Moreira a ser entrevistada. Na RTP-Informação, ou lá como se chama agora a defunta RTP-N, estava o palerma Galamba. Nem me atrevi a passar pela TVI24, não fosse deparar-me com o esgar do viscoso Silva Pereira. Em suma, o exemplo perfeito de telelixo. E eu continuo a questionar-me sobre o porquê de se dar tanto tempo de antena a este gangue manhoso. 

Não pecarás contra o teu corpo

 

O Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, não é virgem neste tipo de ideias. Há tempos, sugeriu um imposto sobre a fast-food. Agora, mostrou um biscoito de 50 quilocalorias, muniu-se de uma calculadora, e concluiu que:

 

(…) comer um biscoito todos os dias, sem compensar noutras refeições, representa mais 18250 quilocalorias ao ano, o suficiente para engordar 2,5 quilos. Se a opção for abatê-los com exercício, seria preciso andar 1 Km por dia.

 

Eu proponho o seguinte: quem for a um supermercado e quiser comprar um pacote de Belgas, tem de provar à priori que percorreu um determinado número de quilómetros. [Cada pacote de comida teria esse número na embalagem – um pouco como os avisos nos maços de cigarros.] A Ordem dos Médicos coloca nos percursos à beira-Tejo um conjunto de equipamentos onde o cidadão pode registar as suas caminhadas. Munido do seu relatoriozinho, apresenta a folhinha na caixa do supermercado. A funcionária compara a quilometragem do cliente com a exigida pelas bolachas e, ou coincide e aceita, ou verifica que o cliente está em falta e recusa:

 

– Não, não, precisava de ter percorrido mais 570 metros para comer estas bolachas. O seu relatório de exercícios só lhe dá direito a três Gressinos.

 

Como o delírio do bastonário não fosse já evidente, prosseguiu:

 

“A discussão lançada pela Ordem contribuiu para a subida do IVA nos refrigerantes.” Na sua opinião, ainda não é suficiente. (…) “Não deviam ser taxados a 23%, mas a 100%”.

 

E porquê ser-se tão pouco ambicioso? Porque não 500%? Porque não obrigar quem se pretende envenenar com estas águas sujas do imperialismo, óbvio comportamento anti-social, a cumprir serviço comunitário?

 

“Impostos inteligentes“, dizem eles. Gente parva, digo eu.

 

A tese, partilhada por alguns fanáticos de pupilas dilatadas, de que o Estado deve proteger-nos de nós próprios regulando a quantidade de calorias que nos é permitido enfiar na goela, devia preocupar as pessoas mentalmente sãs. Seria um precedente grave, este, o de permitir que se limite abusivamente a liberdade individual de um indivíduo com o pretexto de isso “reduzir os futuros encargos do SNS suportado por todos nós”. Porque, a partir daqui, seria impossível negar a extrapolação para outras áreas. E a literatura está cheia destes admiráveis mundos novos:

 

– Grupo dos trinta aos quarenta! – latiu uma estridente voz feminina. – Grupo dos trinta aos quarenta! Para os vossos lugares, por favor. Trinta aos quarenta!

 

Winston pôs-se em sentido diante do telecrã, onde já aparecia a imagem de uma mulher ainda jovem, magra mas musculada, com uniforme e sapatos de ginástica.

 

– Flectir e esticar os braços! – vociferou. – Acompanhem o meu ritmo. Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vá lá, camaradas, um pouco mais de energia! Um, dois, três quatro! Um, dois, três, quatro!…


 1984, George Orwell