Pal Schmitt decidiu demitir-se quando isto aconteceu. Sempre foi mais digno do que arranjar um burburinho e mandar fechar a Universidade…
Descida ao Inferno
O Homem, criatura que se atribui (sem corar) o título de “único animal racional”, desmente-se continuadamente em relação à racionalidade e esquece-se da sua animalidade – enquanto pratica esta de forma infrene.
Hoje, percorri na transversal o Jornal de Notícias online. É um verdadeiro desfilar de horrores. Tal como Dante, descemos ao Inferno e vemos a corrupção, a loucura e a podridão que existem neste nosso pequenino rectângulo de mundo.
Aqui, um idoso de 73 anos tentou agredir a tiro e à martelada uma vizinha que fazia mudanças às 10 da noite. Já não se acredita na existência de uma Autoridade que nos proteja da insensatez e da falta de civismo: responde-se – de forma algo desproporcionada, diria eu – com um martelo e uma pistola apontados à cabeça.
Aqui, um bancário (estamos a falar de um director de banco, não de um trolha avinhado ou de um cavador de batatas algures numa quinta isolada) violou e agrediu a filha adoptiva, de forma sistemática e ao longo de sete anos. O notável cavalheiro justifica-se afirmando que se apaixonou pela criança e que ela também “queria” ter sexo com ele. A jovem tem hoje quinze anos: se a matemática não me falha, este gentil-homem iniciou os abusos (ou, segundo ele, “apaixonou-se”) quando ela tinha oito anos. Eu repito: 8.
Aqui, o língua-de-pau Manuel Tavares, director do jornal, faz um ridículo exercício de revisionismo: apresenta-nos um Sócrates trágico e injustiçado, um Sócrates tão paralelo à realidade que conhecemos que se diria resgatado a um outro universo. O Sócrates que Manuel Tavares nos pintou no Sábado (logo, não penso ser uma brincadeira de Dia das Mentiras) foi “um líder demasiado forte”, um líder temido e detestado por aqueles homens menores que eram incapazes de acompanhar o seu “trabalho intenso para estar informado”. Um Sócrates que criou adversários no interior do seu partido por procurar fora dele “pessoas e instituições que o ajudassem a concretizar as suas políticas” (vêm-me à memória três exemplos desse escol: Armando Vara, Joe Berardo, JP Sá Couto). Um Sócrates que “nos últimos meses de governação (…), quando já declarara a absoluta necessidade de atacar a dívida acumulada bem como as despesas de funcionamento da Administração Pública” (dívida e despesas pelas quais, fico em crer, Manuel Tavares não imputa qualquer responsabilidade aos desmandos desse Übermensch chamado José Sócrates), foi traído por “passarões especialistas em usar e abusar dos cartões de filiação partidária” que “desataram a arranjar empregos para a vida a familiares e amigos ou a concluir negócios improváveis à luz da falta de dinheiro e dos sacrifícios que a crise já prometia“. Foi assim que se passou, remata o oráculo Tavares, o pitoniso Tavares.
Para quê deprimir por um passado que já não pode ser corrigido? Este presente é grotesco o suficiente para o fazer pelos seus méritos – com a (des)vantagem de ser alheio.
Diário de um louco
Segundo o jornal Sol, o cretácico Arménio Carlos garantiu: “Tivemos uma grande greve geral”. Disse também que além de ter existido uma “adesão significativa de trabalhadores à greve geral”, “a pressão da greve geral instalou uma dinâmica que foi importante. Houve empresas que tinham mostrado indisponibilidade até para negociar cadernos reivindicativos e que fizeram aumentos e deram prémios salariais consideráveis”. Para finalizar, adiantou que a greve levou ainda à sindicalização de muitos trabalhadores. Leia-se o resto da notícia: é um portento.
Não sei o que me assusta mais: se ele ser louco o suficiente para acreditar nisto; se ele ser louco o suficiente para achar que há gente que acredite nisto; ou se a possibilidade de haver gente louca o suficiente para DE FACTO acreditar neste sindicalismo.
Pedro e o Lobo
Eu não me recordo de quais, nestas greves dos últimos meses, foram “gerais”. No entanto, recordo-me perfeitamente das greves gerais de 1982.
Pode ser argumentado que esta diferença de percepção explica-se pela minha juventude em 82, para a qual tudo aquilo seria novidade. Não o creio, até porque não é assim que a minha memória fuciona e uma greve geral, na prática, apenas significava um dia sem (ou com muito poucas) aulas.
A explicação, acredito, está na banalização. Hoje, as greves gerais são convocadas pelo encrostado Arménio para justificar a existência do seu próprio posto.
Resultado da privatização da economia, uma greve geral tem hoje pouco mais efeito que uma greve sectorial nos transportes. A CGTP tinha dois caminhos possíveis. Por um lado, podia revalorizar o conceito de greve, usando-a com mais parcimónia e baseando-a em argumentário sério. Escolheu, claro, o segundo caminho: greves sucessivas e manifestações em fila indiana, que já pouco mais despertam nas pessoas do que a reacção de uma inconveniência folclórica.
Corre-se o risco de, tal como na fábula, um dia o lobo vir e ninguém já dar importância aos gritos de Pedro. E isso é mau: mau para os trabalhadores que o sindicalismo é suposto representar e defender; e mau para uma democracia que se quer saudável e perde assim uma das suas ferramentas.
Mas também, quanto mais conheço Arménio Carlos, menos me parece que “democracia saudável” esteja no topo das suas preocupações…
O Mundo avança…
Enquanto os “coletes vermelhos” vão devorando as sandochas à porta das empresas onde deveriam estar a trabalhar, o Mundo não pára e vai reconhecendo o esforço que, em Portugal, todos estamos obrigados a fazer:
– Descida dos juros da dívida pública
– Standard and Poor’s afirma que Portugal tem boas hipóteses de evitar a reestruturação da dívida
É caso para dizer: os cães ladram, a caravana passa…
Perigoso ou apenas tolo?
O primeiro teste do camarada Arménio como testa de ferro vermelho está a ser um profundo fiasco. Senão vejamos:
– 5% de adesão na Autoeuropa
– 50% (números dos sindicatos) na CGD
– as ligações do Barreiro, Montijo, Cacilhas e Seixal estão a funcionar, pela primeira vez em dia de greve geral
– 20% de adesão nas Finanças de benfica (a dos cocktails molotov)
– Hospital de Santa Maria funciona com normalidade
– Metro do Porto opera as principais linhas, responsáveis por transportar 80% dos habituais passageiros
Se calhar, o facto do camarada Arménio não ter tomado banho não o ajudou particularmente a arregimentar as tropas, mas não serve de desculpa.
O camarada Arménio é, de todas as formas, uma personagem engraçada, como se vê aqui, onde explica de forma eloquente que um tipo que quer ir trabalhar mas não pode, porque a greve dos transportes o impede, é contabilizado nos números da central como um grevista. E é contabilizado porquê? Porque ele até queria fazer greve, mas como não tem liberdade para tal, porque o patrão é mau, utiliza a greve dos transportes para fazer a sua própria greve. É este género de argumentos propagandísticos, clássicos da escola comunista da Guerra Fria, que faz do camarada Arménio uma caricatura. Um tipo que diz que os conflitos na Grécia são provocados por infiltrados de extrema-direita, com a conivência das autoridades, no sentido de denegrir a luta dos trabalhadores e dos sindicatos, não pode ser levado a sério em pleno século XXI.
O João acha que ele é uma pessoa perigosa. Eu acho que é apenas tolo, deslocado no tempo e insignificante.
Não pecarás contra o teu corpo

O Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, não é virgem neste tipo de ideias. Há tempos, sugeriu um imposto sobre a fast-food. Agora, mostrou um biscoito de 50 quilocalorias, muniu-se de uma calculadora, e concluiu que:
Eu proponho o seguinte: quem for a um supermercado e quiser comprar um pacote de Belgas, tem de provar à priori que percorreu um determinado número de quilómetros. [Cada pacote de comida teria esse número na embalagem – um pouco como os avisos nos maços de cigarros.] A Ordem dos Médicos coloca nos percursos à beira-Tejo um conjunto de equipamentos onde o cidadão pode registar as suas caminhadas. Munido do seu relatoriozinho, apresenta a folhinha na caixa do supermercado. A funcionária compara a quilometragem do cliente com a exigida pelas bolachas e, ou coincide e aceita, ou verifica que o cliente está em falta e recusa:
– Não, não, precisava de ter percorrido mais 570 metros para comer estas bolachas. O seu relatório de exercícios só lhe dá direito a três Gressinos.
Como o delírio do bastonário não fosse já evidente, prosseguiu:
E porquê ser-se tão pouco ambicioso? Porque não 500%? Porque não obrigar quem se pretende envenenar com estas águas sujas do imperialismo, óbvio comportamento anti-social, a cumprir serviço comunitário?
“Impostos inteligentes“, dizem eles. Gente parva, digo eu.
A tese, partilhada por alguns fanáticos de pupilas dilatadas, de que o Estado deve proteger-nos de nós próprios regulando a quantidade de calorias que nos é permitido enfiar na goela, devia preocupar as pessoas mentalmente sãs. Seria um precedente grave, este, o de permitir que se limite abusivamente a liberdade individual de um indivíduo com o pretexto de isso “reduzir os futuros encargos do SNS suportado por todos nós”. Porque, a partir daqui, seria impossível negar a extrapolação para outras áreas. E a literatura está cheia destes admiráveis mundos novos:
– Grupo dos trinta aos quarenta! – latiu uma estridente voz feminina. – Grupo dos trinta aos quarenta! Para os vossos lugares, por favor. Trinta aos quarenta!
Winston pôs-se em sentido diante do telecrã, onde já aparecia a imagem de uma mulher ainda jovem, magra mas musculada, com uniforme e sapatos de ginástica.
– Flectir e esticar os braços! – vociferou. – Acompanhem o meu ritmo. Um, dois, três, quatro! Um, dois, três, quatro! Vá lá, camaradas, um pouco mais de energia! Um, dois, três quatro! Um, dois, três, quatro!…
1984, George Orwell
Uma questão de gramática
Ouvi no passado, tal como ainda continuo a ouvir em determinados círculos, que “a nossa democracia existe graças a Otelo”. É uma evidência que, naquela frase, deve fazer-se a substituição de um substantivo por um advérbio: “a nossa democracia existe apesar de Otelo”.
Otelo teve um papel inegável no abanar da árvore de onde pendia, como fruto já apodrecido, o Estado Novo. Numa das ironias em que a vida é fértil, desde esse momento que o Otelo aspirante a actor se tornou, isso sim, num personagem Otelo: um personagem ora trágico, ora sinistro, ora patético.
Felizmente, o cidadão comum dá hoje a Otelo a mesma importância que dá aos restantes velhos loucos que gritam, no Metro ou nos jardins públicos, as suas psicoses.
Soares: o cidadão esquecido
Soares tarda em perceber que já não é ninguém. Dissimula, teimosamente, a sua insignificância com artigos como este, publicado no El País. Traz à luz, mais uma vez, como tem sido seu apanágio nos últimos tempos de liderança da oposição em Portugal, ideias erradas, perversas e francamente falaciosas. Diz, como sempre disse, as maiores atoardas sem que seja, como nunca foi, responsabilizado pelas mesmas.
Ao afirmar que Portugal devia seguir um caminho parecido com o espanhol (alívio das metas do défice sem consultar a UE), o provecto cidadão esquece-se dos mais variados factos importantes: Portugal não é Espanha, não tem a margem de manobra que Espanha tem e, lamentavelmente, os portugueses demoraram muito mais tempo a perceber que estavam a ser comidos por dentro por uma corja política sem escrúpulos e sem pudores; Espanha não está sob um programa de apoio externo que obriga, como o cidadão soares deveria saber, ao cumprimento restritivo de determinadas metas económicas; Espanha tem uma economia muito mais pesada do que Portugal, muito mais importante no cenário macro-económico ocidental, o que lhe dá um certo “à-vontade” e uma alavanca negocial que Portugal já perdeu no século XVII.
Alheio a tudo isto (que interessam os dados objectivos da realidade, quando apenas servem para atrapalhar a credibilidade do discurso do maior buda do socialismo português?), continua este cidadão (que, convém lembrar, foi o responsável pela primeira película da série “Troika em Portugal”) a largar as suas “bujardas” onde e como lhe aprouver. É um ser sem importância, não mereceria sequer este insignificante post não fosse pela mais flagrante hipocrisia que insiste em exibir.
Já se sabe que soares é esquecido, mas o povo não deveria ser…
Um estilo
O jornal I traz uma pequena notícia sobre a Parque Escolar, essa consequência nefária do socratismo. Todo o texto assusta, mas vou transcrever o primeiro parágrafo por dar uma ideia geral da coisa:
A Parque Escolar arrancou em 2007 com o negócio de requalificação de 322 escolas com uma estimativa inicial de 940 milhões de euros, que eram totalmente falsos e que apenas serviram para acelerar a vinda de dinheiros da Europa. Passado um ano, a realidade era bem diferente: 1,4 mil milhões de euros (cerca de 50% a mais) – e só para metade das escolas no universo inicialmente apontado. Uma parte significativa desta diferença, de 460 milhões de euros, acabou por sair do bolso dos contribuintes.
Portanto: em 2007, era 940.000.000 de euros para 322 escolas; no ano seguinte, já com a realidade (e as eleições de 2009) a bater à porta, era mais 50% de dinheiro para apenas metade das escolas. O dinheiro em falta, claro, veio de onde sempre vem: do contribuinte.
Ser-se Sócrates é isto: a falta de rigor; os (seus) fins que justificam os meios; os números martelados ou, quando nem isso é possível, a pura e simples ficção; o contínuo descambar financeiro para sustentar um reino de fantasia.
Evidente nos sucessivos imbróglios que marcaram a sua actuação política, evidente nos tons cinza que revestem o seu percurso pessoal, este contornar (ou simplesmente ignorar) de regras não é, em José Sócrates, apenas um meio para resolver nós circunstanciais – é toda uma filosofia de vida.
