Por qué no te callas [14]

O velho Soares, claro, não perdeu a oportunidade de debitar mais algumas alarvidades. Eu não as li nem sequer sei onde as perpetrou, mas o incontinente (pelo menos) verbal Soares certamente o fez. É uma daquelas certezas com as quais podemos contar diariamente: a água molha, o sol nasce, o antigo Soares é um pulha.

Portas igual a… Portas

Portas fez o que sabe e agiu de acordo com o sangue que lhe corre nas veias. É um verme político. Achará, porventura, que retirará dividendos eleitorais desta sua postura. Estes dividendos podem ser capitalizados de duas formas:

 

1. Vamos para eleições e Portas apresenta-se como o mártir que, apesar de todas as adversidades, manteve os liberais desenfreados sob controlo;

 

2. Passos assume o Governo minoritário e dá a Portas o poder de um acordo de incidência parlamentar. Manda e desmanda no Governo e apresenta-se a eleições, talvez para o ano, como o herói que moldou o orçamento, tornando-o mais people friendly.

 

Talvez Portas conte com esta segunda opção. Talvez lhe passe pela cabeça que a sua demissão relâmpago, sem qualquer respeito ou lealdade institucional, não terá qualquer efeito na sua popularidade. Talvez considere que meia dúzia de danças numas feiras espalhadas pelo país enquanto enverga um alegre boné azul apagam tudo.

 

Quero acreditar que não. Quero acreditar que o tiro lhe sairá pela culatra. Não me passa pela cabeça que o País ilibe semelhante canalha.

Portas

Foi frequente, ao longo dos anos, ouvir elogios à postura de Paulo Portas enquanto governante, dando o exemplo da anterior coligação (iniciada com Barroso e terminada com Santana Lopes). Portas, dizia-se, podia ser um político temperamental e irrascível mas, enquanto governante, demonstrava ser capaz de uma imensa lealdade e postura de Estado.

 

Tretas.

 

Paulo Portas nunca me inspirou grande confiança. Mesmo enquanto jornalista, nunca passou de um político – pois o que era o Independente senão um projecto político? Paulo Portas sempre mostrou ter a projecção da sua pessoa como único móbil da sua actuação. Na nossa democracia de quatro décadas, apenas Mário Soares terá protagonizado um maior e mais ilustre rol de traições e mudanças de discurso.

 

Para mim, a pose de estadista que manteve durante a coligação com Barroso/Santana, e até agora na coligação com Passos Coelho, deveu-se a uma única razão: não lhe conveio fazer de outro modo. As pessoas não deixam de ser aquilo que são – apenas o escondem durante algum tempo.

Números

Os jornais repassam, gulosos, a notícia da Lusa de que “centenas” de indignados saíram à rua para exigir a demissão de Passos Coelho. Ignoremos, por agora, o facto de que essas centenas de indignados pedem a demissão de Passos Coelho desde a noite em que foi eleito (já sabemos o conceito de democracia que estas centenas de indignados perfilham). Deixemos passar sem grande comentário que as “centenas” foram, segundo a própria Lusa, duas em Lisboa e duas no Porto (é justo, afinal, dois já é plural). Não deixemos, no entanto, passar em claro que se pretende dar peso democrático a um número de pessoas que é, em muito, inferior ao número de pessoas que festejaram o terceiro lugar do Paços de Ferreira no último campeonato de futebol…

Falta de autocrítica

Freitas do Amaral, que foi ministro de José Sócrates (repito: de José Sócrates), diz que “estamos entregues a um grupo de irresponsáveis”:

 

“Nós estamos entregues a um grupo de irresponsáveis, de pessoas que não sabem o que é governar um país, não sabem o que é a dignidade do Estado e não sabem as regras mais elementares da democracia (…). Não sabem nada, fazem tudo mal”

 

Quase fico com a impressão, pelas linhas acima, que Freitas do Amaral teve uma crise de senilidade e pensa estar em 2009, 2010 ou 2011…

O chocolate de Vítor Gaspar

Se Gaspar cometeu erros? Cometeu. Se se enganou nas previsões que foi fazendo? Seguramente que sim. É por isso que foi um mau Ministro das Finanças? Não me parece. 

 

Vítor Gaspar teve a coragem de começar a fazer aquilo que todos sabiam ser necessário fazer há pelo menos 15 anos. Ninguém, antes dele, se aventurou por esse caminho, sinuoso e impopular. A cada dia que passava a factura crescia e os nossos políticos foram descansando com a segura certeza de que, um dia, alguém haveria de pagar, sem que outro alguém fosse responsabilizado. Chegou um não político e o paradigma mudou, de um dia para o outro. Vítima de jogadas políticas rasteiras, dentro e fora do Governo, Gaspar afasta-se, incompatível com o novo ciclo do ajustamento, mais virado para o crescimento (?).

 

Vivemos uma era curiosa, na qual os responsáveis pela situação em que estamos enfiados têm programas regulares na estação de televisão pública e dão entrevistas do alto de um pedestal, como fez Teixeira dos Santos. 

 

De notar que as únicas semelhanças entre o segundo mandato deste senhor e o consulado de Gaspar são a duração e uma terrível e pesada herança deixada por… Teixeira dos Santos. De resto, é como comparar merda com chocolate.

A firmeza dos nossos revolucionários

Uma das coisas que mais me irritam é a cobardia dos nossos revolucionários de meia-tigela.

 

Ontem, como sempre acontece quando há greves, formaram-se piquetes em vários locais. No caso particular da Carris, tentaram impedir a saída dos autocarros que iriam prestar os serviços mínimos e a PSP agiu para repor a legalidade. Os membros do piquete, cobardes e hipócritas como sempre são os membros de piquetes, decidiram filmar a brutal actuação das forças policiais.

 

Eu vi o vídeo com toda a atenção: foi uma desilusão do princípio ao fim. Nem uma joelhada na boca do estômago, nem um pontapé nos rins, nem sequer uma bastonada na garganta de um qualquer piqueteiro. Para estes nossos bravos, os excessos de força da polícia são uns empurrões mais expectáveis no pátio de uma escola primária do que numa manifestação de esquerda.

 

Os grevistas sentiram-se violentados – mas até foram carregados ao colo! Que palhaçada! A polícia só poderia ter sido mais meiguinha – se fosse, à noite, aconchegar-lhes os lençóis do My Little Pony e murmurar-lhes histórias de princesas e bruxas-más.

O vento democrático

Recordam-se de quando António José Seguro, qual emplastro, se tentava colar a Hollande, esse euro-Obama? Recordam-se de quando o velho Soares gabava a suposta língua sem papas de Hollande, o desafiador da “senhora que devia voltar para o sítio onde nasceu”? Ou quando o caduco Soares afirmava que o “vento democrático” que soprava desde a eleição de François Hollande seria “a favor do crescimento e contra a austeridade, contra o flagelo do desemprego”?

 

Pois já se começam a perceber os efeitos desse “vento democrático” que assola a França:

 

“França entrou oficialmente em recessão”.

Falta de fibras

Luis Carito, vice-presidente da Câmara de Portimão eleito pelo PS, é um de cinco arguidos num caso de corrupção, administração danosa, branqueamento, participação económica e associação criminosa.

 

O que me chamou a atenção para este caso não foi a ligação de mais alguns autarcas a casos de corrupção (como diria o homem omnipresente, “uma banalidade”), nem sequer a hipótese de alguns corruptos serem punidos (algo tão raro em Portugal que, estatisticamente, não vale a pena eu ter esperança nisso). Não: o que me maravihou foi o detalhe de Luis Carito, durante as buscas domiciliárias de que foi alvo, ter comido, cru e sem tempero, um documento que retirou das mãos (de manteiga) dos inspectores da PJ.

 

Há quem possa ver nisto uma tentativa de ocultar provas. Eu não vejo a coisa assim. Parece-me, sim, que isto é a evidência de inimputabilidade por transtornos mentais: é óbvio, por andar a comer documentos, que Luis Carito sofre de pica.