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Portas

Quem me conhece e/ou leu textos meus aqui no blogue sabe que sou insuspeito de qualquer átomo de simpatia para com Paulo Portas. Estou, por isso, à vontade para dizer o que direi: se Paulo Portas, como afirma, cumpre escrupulosamente a lei nesta ida para a Mota-Engil, então nada há a apontar a Paulo Portas ou sequer à Mota-Engil.

 

Contudo, malditas sejam então as leis que permitem a vermes como Paulo Portas (no presente e Jorge Coelho no passado) saltarem de governos para esse charco do regime chamado Mota-Engil.

Todos os animais são iguais mas… [2]

Paulo Portas diz umas coisas vaguíssimas – e a CNE salta logo em defesa dos inocentes eleitores. O velho Soares-pai-do-filho, numas antigas autárquicas, apelou explicitamente ao voto no jovem Soares-filho-do-pai – e a CNE limitou-se a fazer beicinho. Nas últimas legislativas António Costa apelou, de forma bastante implícita, ao voto no seu partido – e a CNE fez de conta que estava a ver as horas.

 

A CNE, como se vê, é muito vigilante – quando lhe apetece.

Portas igual a… Portas

Portas fez o que sabe e agiu de acordo com o sangue que lhe corre nas veias. É um verme político. Achará, porventura, que retirará dividendos eleitorais desta sua postura. Estes dividendos podem ser capitalizados de duas formas:

 

1. Vamos para eleições e Portas apresenta-se como o mártir que, apesar de todas as adversidades, manteve os liberais desenfreados sob controlo;

 

2. Passos assume o Governo minoritário e dá a Portas o poder de um acordo de incidência parlamentar. Manda e desmanda no Governo e apresenta-se a eleições, talvez para o ano, como o herói que moldou o orçamento, tornando-o mais people friendly.

 

Talvez Portas conte com esta segunda opção. Talvez lhe passe pela cabeça que a sua demissão relâmpago, sem qualquer respeito ou lealdade institucional, não terá qualquer efeito na sua popularidade. Talvez considere que meia dúzia de danças numas feiras espalhadas pelo país enquanto enverga um alegre boné azul apagam tudo.

 

Quero acreditar que não. Quero acreditar que o tiro lhe sairá pela culatra. Não me passa pela cabeça que o País ilibe semelhante canalha.

Portas

Foi frequente, ao longo dos anos, ouvir elogios à postura de Paulo Portas enquanto governante, dando o exemplo da anterior coligação (iniciada com Barroso e terminada com Santana Lopes). Portas, dizia-se, podia ser um político temperamental e irrascível mas, enquanto governante, demonstrava ser capaz de uma imensa lealdade e postura de Estado.

 

Tretas.

 

Paulo Portas nunca me inspirou grande confiança. Mesmo enquanto jornalista, nunca passou de um político – pois o que era o Independente senão um projecto político? Paulo Portas sempre mostrou ter a projecção da sua pessoa como único móbil da sua actuação. Na nossa democracia de quatro décadas, apenas Mário Soares terá protagonizado um maior e mais ilustre rol de traições e mudanças de discurso.

 

Para mim, a pose de estadista que manteve durante a coligação com Barroso/Santana, e até agora na coligação com Passos Coelho, deveu-se a uma única razão: não lhe conveio fazer de outro modo. As pessoas não deixam de ser aquilo que são – apenas o escondem durante algum tempo.