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Vítor Gaspar, o Consensual

 

O lançamento do livro “Vítor Gaspar por Maria João Avillez” causou uma enchente no Centro Cultural de Belém. Gente de todos os espectros políticos, à excepção dos fanáticos de extrema esquerda que devem andar entretidos a escavar trincheiras algures em Serpa, fez questão de estar presente no evento, mostrando o seu apreço por este homem. De João Proença a Vítor Bento, de António Vitorino (que apresentou o livro) a Pires de Lima, todos deram um sinal de que as pontuais discordâncias não põem em causa o valor de Vítor Gaspar.

 

Fiquei surpreendido.

 

Sempre disse que Vítor Gaspar seria lembrado com saudade, mas não pensei que o reconhecimento do seu trabalho chegasse tão rapidamente. Provavelmente, até ele estará surpreendido.

 

Sei que vivo num país onde um papalvo bem falante, enfiado à calçadeira num fato caro, é muito mais apreciado do que um homem honesto que diz aquilo que nem todos querem ouvir. Sei que o português gosta do homúnculo medíocre alavancado a cargos de chefia pelo seu dom da oratória. Gosta que vença o pequenino, que ganhe o mole, pois assim a vitória está dissociada do trabalho e do valor. É mais democrática.

 

Fica a minha vénia, também por isto, a Vítor Gaspar.

O chocolate de Vítor Gaspar

Se Gaspar cometeu erros? Cometeu. Se se enganou nas previsões que foi fazendo? Seguramente que sim. É por isso que foi um mau Ministro das Finanças? Não me parece. 

 

Vítor Gaspar teve a coragem de começar a fazer aquilo que todos sabiam ser necessário fazer há pelo menos 15 anos. Ninguém, antes dele, se aventurou por esse caminho, sinuoso e impopular. A cada dia que passava a factura crescia e os nossos políticos foram descansando com a segura certeza de que, um dia, alguém haveria de pagar, sem que outro alguém fosse responsabilizado. Chegou um não político e o paradigma mudou, de um dia para o outro. Vítima de jogadas políticas rasteiras, dentro e fora do Governo, Gaspar afasta-se, incompatível com o novo ciclo do ajustamento, mais virado para o crescimento (?).

 

Vivemos uma era curiosa, na qual os responsáveis pela situação em que estamos enfiados têm programas regulares na estação de televisão pública e dão entrevistas do alto de um pedestal, como fez Teixeira dos Santos. 

 

De notar que as únicas semelhanças entre o segundo mandato deste senhor e o consulado de Gaspar são a duração e uma terrível e pesada herança deixada por… Teixeira dos Santos. De resto, é como comparar merda com chocolate.