Arquivo da Categoria: freitas do amaral

Cuidar da vidinha

Freitas do Amaral jamais perdoou ao PSD este não o ter conseguido eleger para a presidência da república. A partir daí, e porque os confortos da vida são mais valiosos do que manter uma coluna vertebral direita, vem convergindo sempre para a faixa do PS.

 

Nos tempos de Sócrates, apareceu, qual pequeno-almoço com Figo, na véspera de eleições a afirmar-se “convencido” pelas propostas do PS. Porque estas coisas têm um preço, lá recebeu o seu ministeriozito como recompensa. Agora, sem surpresa para mim, vem manifestar publicamente o seu apoio ao “experiente, sério e democrata” (sic) António Costa.

 

Eu não prestei muita atenção ao que ele escreveu, tal como não prestei muita atenção ao debate, por uma simples razão: decidi que se o eleitorado os quer de volta, então que depois limpe as mãos à parede. Contudo, mesmo lendo na diagonal a missiva amaraliana, duas ou três ideias saltaram-me à vista.

 

Freitas do Amaral acusa Passos Coelho de hipocrisia ao gabar a sua estabilidade governativa apesar de ter perdido quatro ministros em três anos: Victor Gaspar, Miguel Relvas, Álvaro Santos Pereira e Miguel Macedo. Esquece-se convenientemente de o seu anterior patrão, José Sócrates, ter perdido o seu primeiro ministro das Finanças ao fim de poucos meses, mal este viu o desvario que se aproximava. A estabilidade, para Freitas do Amaral, é um conceito com pesos diferentes conforme se manifesta no lado direito ou no lado esquerdo. E Freitas do Amaral também se esquece, muito convenientemente, de que dois ministros de Passos Coelho apresentaram a demissão por estarem, directamente ou indirectamente, envolvidos em questões duvidosas – o que é uma variação refrescante depois do longo consulado governado por Sócrates.

 

Freitas do Amaral diz esperar que o PS defina, porque o dinheiro não chega para tudo, prioridades nacionais no plano cultural, e que evite desastres colossais como o megalómano edifício do Museu dos Coches. Tem piada como, quando se está na Esquerda e a cheirar o poder, já o dinheiro não chega para tudo e é necessário definir prioridades. Mas o mais repugnante é que Freitas do Amaral se pareça esquecer, muito convenientemente, de que o tal colossalmente desastroso edifício megalómano do Museu dos Coches foi um projecto do governo de Sócrates, adjudicado pelo governo de Sócrates e cuja construção foi iniciada ainda durante o governo de Sócrates.

 

Finalmente, e aqui é que eu levei as mãos à barriga de riso, Freitas do Amaral, o tal que apoiou e foi ministro de José Sócrates, acusa Passos Coelho de ter um estilo “neoautoritário” (magnífico!) e acusa-o também, Freitas do Amaral que apoiou e apoia e foi ministro de José Sócrates, de ter aos poucos conseguido controlar quase todos os órgãos da comunicação social. Passos Coelho controla a comunicação social – num mundo em que o ex-advogado de José Sócrates controla o grupo que possui o DN, JN e TSF entre outros; em que o grupo de Balsemão dá guarida a tudo o que é crítico da coligação e deu guarida, a troco de um chorudo ordenado, a António Costa na Quadratura do Círculo; em que a outra televisão privada, TVI, é dirigida por um assumido amigo e admirador de José Sócrates; em que o Público tem um corpo editorial e uma linha de orientação que parecem saídos do PREC.

 

Freitas do Amaral devia-me merecer uma gargalhada, ou até um abanar de cabeça condoído. Freitas do Amaral, contudo, só me causa repulsa.

Falta de autocrítica

Freitas do Amaral, que foi ministro de José Sócrates (repito: de José Sócrates), diz que “estamos entregues a um grupo de irresponsáveis”:

 

“Nós estamos entregues a um grupo de irresponsáveis, de pessoas que não sabem o que é governar um país, não sabem o que é a dignidade do Estado e não sabem as regras mais elementares da democracia (…). Não sabem nada, fazem tudo mal”

 

Quase fico com a impressão, pelas linhas acima, que Freitas do Amaral teve uma crise de senilidade e pensa estar em 2009, 2010 ou 2011…