Obviamente…

Por um lado, é de saudar: talvez pela primeira vez na História, uma greve do Metropolitano de Lisboa foi desconvocada. Por outro lado, a idade fez-me cínico e receio que isto não passe de uma tentativa de lavar a cara por parte do sindicato: quando questionada sobre o assunto, uma sindicalista afirmou que

 

“Discutimos algumas das questões que tínhamos em cima da mesa e, obviamente, não chegámos a acordo (…)”

 

Quando eu ouço alguém de um sindicato dizer que “obviamente” não se chegou a um acordo, questiono-me sempre se esse “obviamente” não estaria já previamente decidido…

Mário Nogueira fez escola

Cerca de 20.000 funcionários públicos, nomeadamente professores, polícias e trabalhadores hospitalares, protestaram ontem contra as medidas de austeridade e exigindo melhores condições salariais e de trabalho.

 

Esta manifestação não ocorreu em Lisboa, nem no Porto, nem sequer em Coimbra. Foi em Berna, Suíça. Suíça, de todos os lugares!

 

Michael Gerber, porta-voz regional dos professores do sindicato LEBE, referiu que o cantão de Berna cancelou, há seis anos, uma lei que assegurava os aumentos automáticos dos professores(!), passando estes a depender de decisões anuais do Governo regional.

 

Duas coisas me ocorrem. Primeiro: a ideia de suíços virem para a rua queixarem-se dos ordenados e das condições de trabalho faz-me sorrir. E em segundo: os sindicatos, lá, conseguem ser tão nefelibatas e irresponsáveis como os nossos.

O anti-midas

O envolvimento da Caixa Geral de Depósitos na La Seda, projecto apadrinhado pelo governo de Sócrates – foi mesmo uma das suas orgulhosas bandeiras -, pode custar ao banco até 500 milhões de euros. O financiamento de Berardo, essa outra bandeira – também orgulhosamente exibida – de Sócrates, pode custar à CGD – segundo algumas estimativas – perto de 300 milhões de euros.

 

Aqui está: dois projectos pelos quais Sócrates deu a(s) cara(s) e o verbo, podem custar à CGD perto de 800 milhões de euros. E sendo a CGD um banco público, há-de ser o contribuinte quem paga uma larguíssima parcela.

 

É só mais uma alínea da herança que o ex-Querido-Líder nos deixou.

Não a César o que não é de César


(fotografia daqui)

Passei há um par de dias pela rua do Ouro e encontrei a Papelaria da Moda fechada e trancada. Neste mundo cada vez mais digital, em que uma Parker Jotter é exposta na prateleira da “escrita de luxo”, o encerramento destes estabelecimentos entristece-me.

 

Mas sejamos justos, e enalteçamos o que merece ser enaltecido: tanto quando sei, desta vez Joe Berardo não parece estar envolvido.

Uma pequena lufada de ar fresco

Aristides Teixeira já foi presidente da Associação Democrática de Utentes da Ponte 25 de Abril. Aristides Teixeira foi também, há imenso tempo, candidato a deputado pela CDU e, há menos tempo, duas vezes proto-candidato à Presidência da República. Eu comecei a simpatizar com Aristides Teixeira quando, nos idos de 80, participou numa série de humor de Nicolau Breyner e prestou-se a uma rábula recorrente que, se fosse praticada hoje, levaria ao cúmulo da ira todo um conjunto de grupúsculos censores do politicamente correcto.

 

Aristides é, como é fácil ver, alguém claramente de Esquerda, pertencendo agora ao Movimento de Utentes do Metro de Lisboa. E o que veio dizer? Entre outras coisas, que “as pessoas estão a ser prejudicadas no seu dia-a-dia e que as paralisações do metro estão a fazer “mossa” apenas a quem precisa deste meio de transporte e não aos administradores da empresa”.

 

Não tenhamos ilusões: o Movimento está “solidário com os trabalhadores do Metro” – solidário, acrescento eu, com os pobres maquinistas que, no ano passado, recebiam uns míseros 2580 euros mensais acrescidos de complementos vários. Mas o simples facto de alguém ligado à Esquerda vir dizer que:

 

“Estamos solidários com os trabalhadores do Metro, mas também temos razão em querermos ser transportados por um serviço que pagamos atempadamente”

 

e por isso

 

“apela a que estes funcionários arranjem formas de protesto que não prejudiquem apenas quem necessita diariamente de se deslocar de Metro na cidade de Lisboa”

 

já é uma melhoria em relação ao habitual.

 

Agora: que tal este Movimento de Utentes do Metro de Lisboa alargar a sua actividade aos comboios urbanos e à travessia do Tejo?

As nossas viúvas de Chávez

Há uma enorme diferença entre, a bem da realpolitik, proferir umas frases de circunstância a propósito da morte de Chávez:

 

Informado em primeira mão pelos jornalistas durante uma conferência de imprensa, Ban Ki-moon endereçou condolências à família e Hugo Chavez, ao povo e ao governo venezuelanos.


“Como Presidente da Venezuela fez as suas contribuições para o desenvolvimento do país”, declarou o secretário-geral das Nações Unidas, que prometeu uma declaração formal para mais tarde.

 

e aquilo que o nosso ex-querido-líder faz aqui:

 

“Uma vida de vontade, consagrada à acção e ao que esta tem de início, de surpreendente, de inatendido. Uma vida com os outros, ao lado dos outros, com a ambição da justiça própria de quem sempre teve uma visão optimista da natureza humana”, afirmou Sócrates na mensagem. Por outro lado, o antigo chefe do Governo português referiu-se também a “uma vida cheia de incertezas, de desafios e de riscos, própria de quem nunca temeu a responsabilidade da sua liberdade e da sua vontade”.

 

Para Sócrates, Hugo Chávez assumiu-se como “autor da sua própria biografia”, levando uma vida intensa, sempre optimista e confiante. É, ao recordar esta forma de viver, que o socialista acredita que o povo venezuelano encontrará aí “alívio e conforto para o seu sofrimento” e reforça que este “sentimento de tristeza” une os dois povos.

 

“Pela minha parte, apresento à sua família e ao povo venezuelano as minhas condolências e junto-me a eles na partilha da dor e no recolhimento que o seu desaparecimento tão prematuro nos provoca”, rematou.

Revoluções a granel [2]

Vasco Lourenço disse isto.

 

Já sabemos que a golpada que o camarada Vasco e os seus compinchas prepararam há uns anos não correu exactamente como estavam à espera. Se houvesse condições, afirma o patusco Vasco, lideraria outra revolução. A que condições se refere o “capitão de Abril”?

 

Talvez hoje Portugal não seja um país tão “revolucionável”. Talvez isso tenha a ver com o facto de ter os cofres vazios.

 

Citando o João: Por qué no te callas?