A verdadeira alternativa

Parece que a TVI, para responder às futuras homilias de Sócrates na RTP, convidou Manuela Ferreira Leite. Discordo da opção. Acho mesmo um rotundo disparate. Há outras pessoas muito mais qualificadas para a tarefa do que a ex-líder do PSD. Estou até a recordar-me de alguém que já demonstrou possuir o mesmo tipo de talentos que José Sócrates – e acredito ter espaço na agenda:

Prós e Contras

Num momento de tédio, dei-me ao inútil e divertido trabalho de ver quantas assinaturas existem nas diversas petições criadas a favor e contra o ingresso de Sócrates na RTP.

 

Petição a favor da presença do cidadão José Sócrates como comentador na RTP: 2407
Petição Aceito Sócrates na RTP: 1270
Petição A favor da presença de Sócrates na RTP: 6817

Petição contra Sócrates o verdadeiro ladrão do n/ país: 252

Petição Contra o comentário político do ex-primeiro ministro José Sócrates na RTP: 4083

Petição Correr com José Sócrates: 2319

Petição Recusamos a presença de José Sócrates como comentador da RTP: 120930

 

Pró: 10494

Contra: 127584

 

E em homenagem ao ex-refugiado de Paris, que tanto gostava de mostrar a sua proficiência tecnológica brandindo folhas de powerpoint, aqui fica um gráfico que coloca estes valores em perspectiva:

 

Primeira página

 

Admito nunca ter dedicado muito estudo à paginação de jornais. Não consigo, no entanto, libertar-me da sensação de que a primeira página do Expresso de hoje foi pensada ao detalhe. Senão, vejamos: “Governo muda discurso” é a manchete; “Empresas de transporte cortam carreiras e perdem passageiros”; “Austeridade destruiu…”. No canto inferior direito, em letra vermelha para chamar a atenção: “Assunção Cristas ignora regras e nomeia ex-colegas” – e, no lado oposto, no canto menos lido, em fonte minúscula e com um pequeno cabeçalho azul-pálido: “Défice controlado”.

 

Isto é uma ciência – principalmente num jornal propriedade do esperto Balsemão e dirigido pelo cínico Costa e pelo “ingénuo do laço” Nicolau Santos.

O diplomata

Lello, José Lello, conhecido pelo seu verbo fácil e elegante, “postou” no Facebook:

 

Recebi um mail duns “democratas” da nossa praça que muito quereriam calar quem há 2 anos calado está (…)

 

A questão é que Sócrates, ao contrário do que este seu fiel quer fazer crer, nunca esteve calado – simplesmente falou através da boca de outros, a começar por José Lello que nunca disfarçou os suspiros pelo regresso do Grande Timoneiro.

A.S.S.

Augusto Santos Silva, o tal da fina ironia, foi ouvido. Augusto Santos Silva (nunca um nome próprio foi tão negado pela realidade) considera-se membro da elite intelectual portuguesa.

Mas disse mais. Limpemos as lágrimas, retomemos a compostura e leiamos o resto da notícia.

 

Considera que as declarações recentes de Fernando Ulrich e Belmiro de Azevedo são “insultos às pessoas”. Este homem, que gosta de malhar na Direita, tem o direito de opinar assim – mas não o vejo mostrar alternativas minimamente credíveis àquilo que critica.

 

O mais interessante, no entanto, é esta pequena frase: “Eu, por exemplo, aprovei um corte de salários na função pública em 2010”. Porquê interessante? É que eu recordo-me disso – tal como me recordo de, no ano anterior, ano de eleições, ter sido aprovado um irresponsável aumento de salários na função pública (uma mera coincidência, nas palavras do então ministro Teixeira dos Santos). O que não recordo é ver idiotas como Galamba, Isabel Moreira e companhia, a clamar pela inconstitucionalidade desse corte salarial, nem a pedir fiscalizações preventivas ou sucessivas. Aparentemente, quando é a (auto-denominada) Esquerda a contrariar a Constituição, esta deixa de ser tábua de mandamentos e passa a ser um conjunto de preceitos genéricos.

O regresso daquele-que-não-deve-ser-nomeado

Muito há a dizer sobre isto – infelizmente, não tenho tempo.

 

Pode a RTP convidar Sócrates para comentador? No sentido estrito da defesa da liberdade de expressão (algo que, curiosamente, nunca pareceu inspirar grande simpatia ao recipiente do convite), sim. 

 

Mas porque algo PODE ser feito, não é obrigatório que esse algo SEJA feito. Usamos – ou deveríamos usar – regras de bom-senso, ética ou vergonha-na-cara, para escolhermos aquilo que fazemos de tudo o que está à nossa disposição.