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Do nosso jornalismo de causas

Da nojeira que foi ontem o Prós & Contras, (mais) um claro frete da frente socialista/socrática para espalhar a dúvida sobre as investigações a Sócrates, sobrou um pequeno serviço público: ficou provado que, pela primeira vez desde que me lembro, um governo não instrumentalizou a televisão pública tornando-a mera caixa de ressonância de si próprio. Aquele Prós & Contras, sobre a Operação Marquês que está em andamento e exibido durante um governo PSD/CDS, pouco diferente seria se fosse sobre a Operação Freeport (que nunca chegou a andar) exibido durante um governo PS.

 

Este país está perigoso.

Como disse, caro PS?

A RTP, que durante o consulado socrático não passou de uma caixa de ressonância do seu programa; a RTP, que enquanto Sócrates governou, se prestou, pelas mãos amigas e submissas de Judite e Alberto Carvalho, ao papel ignóbil de lhe dar tempo de antena para limpar a sua (salpicadíssima) imagem; a RTP, que para manter o seu status-quo de intocabilidade, tem exibido linhas editoriais mais próprias do Acção Socialista; a RTP, que todos os Domingos exibe uma homilia a solo de José Sócrates sem qualquer tentativa de contraditório; esta RTP foi processada pelo PS porque “parte da direcção de informação comporta-se como servente do Governo”. A parte, imagino, que se recusou a comportar-se como servente do Partido Socialista.

A verdadeira alternativa

Parece que a TVI, para responder às futuras homilias de Sócrates na RTP, convidou Manuela Ferreira Leite. Discordo da opção. Acho mesmo um rotundo disparate. Há outras pessoas muito mais qualificadas para a tarefa do que a ex-líder do PSD. Estou até a recordar-me de alguém que já demonstrou possuir o mesmo tipo de talentos que José Sócrates – e acredito ter espaço na agenda:

Prós e Contras

Num momento de tédio, dei-me ao inútil e divertido trabalho de ver quantas assinaturas existem nas diversas petições criadas a favor e contra o ingresso de Sócrates na RTP.

 

Petição a favor da presença do cidadão José Sócrates como comentador na RTP: 2407
Petição Aceito Sócrates na RTP: 1270
Petição A favor da presença de Sócrates na RTP: 6817

Petição contra Sócrates o verdadeiro ladrão do n/ país: 252

Petição Contra o comentário político do ex-primeiro ministro José Sócrates na RTP: 4083

Petição Correr com José Sócrates: 2319

Petição Recusamos a presença de José Sócrates como comentador da RTP: 120930

 

Pró: 10494

Contra: 127584

 

E em homenagem ao ex-refugiado de Paris, que tanto gostava de mostrar a sua proficiência tecnológica brandindo folhas de powerpoint, aqui fica um gráfico que coloca estes valores em perspectiva:

 

O regresso daquele-que-não-deve-ser-nomeado

Muito há a dizer sobre isto – infelizmente, não tenho tempo.

 

Pode a RTP convidar Sócrates para comentador? No sentido estrito da defesa da liberdade de expressão (algo que, curiosamente, nunca pareceu inspirar grande simpatia ao recipiente do convite), sim. 

 

Mas porque algo PODE ser feito, não é obrigatório que esse algo SEJA feito. Usamos – ou deveríamos usar – regras de bom-senso, ética ou vergonha-na-cara, para escolhermos aquilo que fazemos de tudo o que está à nossa disposição.

Sobre o serviço público da RTP1

Andam por aí uns senhores inquietos, palpitando em defesa da RTP: há um ataque organizado do governo ao serviço público de televisão, acusam esganiçados.

 

Vejamos então um pouco de televisão.

 

Ontem de manhã, a TVI24, um canal de cabo privado, transmitiu o documentário de Jim Al-Khalili Everything and Nothing:

 

 

Ontem à tarde, a RTP1, canal público sustentado maioritariamente com muitos milhões saídos do bolso dos portugueses, transmitiu o filme Fogo Cerrado com Steven Seagal:

 

 

Qual destes dois canais prestou o que consideram serviço público de televisão, senhores defensores da RTP1?

Soares é triste

Todo um conjunto de “inverdades” tem sido proferido acerca deste processo da RTP. Tudo começou com um cenário levantado por António Borges, que não passou disso mesmo: de um cenário. À boa maneira cá do burgo, esse cenário passou a anúncio e de anúncio passou a balbúrdia. Ninguém quis ficar de fora do ruído que se seguiu, contribuíndo para duas semanas de uma intensa telenovela.

 

Desta feita foi Mário Soares, que desempenha o clássico papel do velho tirano, a meter a sua “colherada”. Diz o ancião que, se assistirmos, impávidos e serenos, a esta onda de privatizações, seremos todos responsáveis. Soares sabe uma coisa ou duas acerca de responsabilidade, embora apenas no plano teórico. Nunca assumiu qualquer responsabilidade e, assim que lhe pareceu remotamente que poderia ser responsabilizado por algo, fugiu.

 

Soares, que tem tido uma semana invulgarmente agitada, também veio colocar-se ao lado de Seguro na sua recusa de mais austeridade. Não sou um particular admirador de Seguro, mas acho que ninguém merece estas companhias. Estou solidário: a última coisa de que um homem precisa quando está a arder é de ser regado com gasolina.

 

Soares, o homem das multas pagas por todos nós, continua o seu show de hipocrisia. Na verdade, todos assistimos impávidos e serenos, pelo que seremos todos responsáveis. Soares já não é fixe, Soares é triste e devia estar calado.

Ainda a RTP

A RTP tem defendido com unhas e dentes a manutenção do seu status quo. O rol de convidados que lá foram dizer de sua justiça é impressionante. Ora eu tenho-me questionado se é eticamente defensável que um órgão de comunicação social, neste caso com a agravante de ser público, se assuma como manchete de si mesmo. Mais: é defensável que a RTP seja réu, advogado, acusação, juíz e júri em causa própria e no seu próprio tribunal numa discussão que, isso é cada vez mais notório, assenta em razões ideológicas?