As pontes de hidrogénio

Daniel Oliveira, um dos perpetradores semanais do “Eixo do Mal”, saiu do Bloco de Esquerda em ruptura com Louçã. Não é nada que não se visse no horizonte. Há muito que Daniel Oliveira me parecia interessado numa aproximação à ala esquerda do PS, imaginando para o Bloco um papel, à esquerda, semelhante ao do PP à direita.

 

Ficarei surpreendido se o vir atrelar-se ao PS, quiçá guiado pela mãozinha tratada a óleo de amêndoa de Joana Amaral Dias? De todo. Afinal, o nosso PS é uma enorme confederação, albergando desde as correntes católicas vindas do CDS até aos ideólogos chegados da esquerda radical. Vendo bem a coisa, há muito mais a separar as margens do PS do que aquilo que desune os extremos do BE. A diferença entre o PS e o BE, é que este último não possui a “força gravitacional” que mantém em aparente união partículas tão distantes – e essa “força” é a constante hipótese de acesso ao poder.

Outra vez, Joana?

 

Joana Amaral Dias dizia, algures no meio de uma aula de civismo e honestidade intelectual que lhe foi generosamente dada por António Pires de Lima, que as forças políticas tinham não só o direito como o dever de influenciar “as ruas”.

 

Primeiro: é bom ter a confirmação de que não houve qualquer presença política na manifestação.

 

Segundo: a senhora já mudou outra vez de casa?

 

Retrato do artista

O grave Soares sente urgência, e a urgência nunca foi boa conselheira. Compara as manifs de agora com aquelas que precederam o final da Monarquia, e quer que Coelho se demita ainda antes das decisões do Tribunal Constitucional. Soares é um grande democrata – quando é o seu lado que vence.

 

O velho Soares, com estes apelos, faz lembrar as crianças que atiram o tabuleiro de jogo ao chão quando percebem que perderam. O decano Soares sonha com um novo 5 de Outubro, certamente para poder reviver essas excitações da sua adolescência. Juntando as declarações de hoje com o que escreveu no passado recente:

fica a ideia de que Soares não desdenharia a reedição do regicídio adaptado a este nosso regime. E não deixa de ter a sua piada: o pesado Soares invoca o final da monarquia – logo ele que se imagina com uma coroa na cabeça.

 

O gasto Soares quer a troika fora daqui – e eu pergunto-me quantos dos fundos que a sua fundação manhosa recebe são graças à troika, ou quantos dos postos que sustentam o seu clã ainda existem graças aos dinheiros que chegam da troika.

 

Soares é um vermículo – tal como vermículos são aqueles que lhe dão tempo de antena. O antiquíssimo Soares não tem soluções nem tem solução.

Querido, aumentei a manifestação

Assistimos, no sábado, a mais uma manifestação. À pretensão inorgânica de um movimento claramente organizado, juntaram-se os emplastros do costume (PCP, BE e CGTP). Esta é, para mim, uma das fraquezas destes “movimentos cívicos”. A permeabilidade a estruturas políticas de extrema-esquerda, os cravos vermelhos e os punhos erguidos irão sempre afastar das manifestações pessoas que, apesar de terem legítimas razões para protestar, não se reconhecem no estilo caceteiro da esquerda portuguesa.

 

Foram-se aventando, ao longo do fim-de-semana, números que desde logo me pareceram absurdos: 500 mil, 800 mil em Lisboa, mais de 1,5 milhões no país… o Público analisou a questão. Concluíu que o Terreiro do Paço cheio (que não estava, nem de perto nem de longe) leva cerca de 180 mil pessoas, isto contando com uma densidade de 4 pessoas por metro quadrado (para se ter uma ideia, a densidade observada no metropolitano, em hora de ponta). Isto reforça, claramente, a minha primeira ideia.

 

Claro que vozes se ergueram contra estes números. Verdades desconfortáveis que atrapalham mitos não são bem-vindas. Há sempre uma solução: fazer uma manifestação contra o Público.

Little Cesar

O pequeno e nada augusto César dos Açores veio dizer que:

 

“(…) o PS ainda não concretizou o grande desafio de “corporizar” o descontentamento dos portugueses, que se viu este Sábado nas ruas do país (…)”

 

Um dos rostos do grupo socialista que enterrou o país quer, agora, aproveitar-se do descontentamento que esse enterro gerou. É um pouco como o incendiário que ateia fogo a uma mata e depois se excita a vê-la arder. E é este César que alguns, aparentemente a sério, gostariam de ver assumir um papel importante no PS nacional.

 

Pudor, como é de ver, não tem nenhum; nesse aspecto, parece cumprir os requisitos para um grande futuro no gangue. Mas na minha opinião, se alguma vez os socialistas considerassem – seriamente – eleger este César para secretário-geral do partido, mais valia fecharem-se à chave na sede e mudarem-lhe o nome para Hospício do Rato.

O optimismo não é a minha qualidade mais evidente. Mesmo assim, eu gosto de acreditar que, se o PS não está a capitalizar mais do descontentamento dos portugueses, é porque estes ainda se vão lembrando de que, dos quinze anos que antecederam a chegada da Troika, 80% desse tempo foi sob governos socialistas.

“Equívocos”, diz ele

Segundo o Expresso, o DCIAP está a investigar o PGR de Angola por suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais. Quem saltou (anquilosadamente) em defesa de uma das principais figuras do Estado angolano, esse oásis de idoneidade? O ancestral Soares:

 

“(…) a polémica desencadeada pela notícia do Expresso não é positiva para ninguém, neste mundo global em que tanto conta a lusofonia”.

 

“(…) o cargo de procurador-geral da República de Angola deve merecer acrescido respeito institucional no quadro das relações que têm que ser salvaguardadas entre os dois países”.

 

“(…) equívocos eventualmente existentes devem ser desfeitos com boa vontade recíproca”.

 

Com uma flexibilidade moral eternamente jovem, o geronte Soares afirma que devemos respeitar “acrescidamente” o posto do PGR angolano – mesmo que o próprio, nas suas acções, não o esteja a fazer. Da mesma forma, diz que “a polémica desencadeada pela notícia não é positiva para ninguém”; imagino então que, por oposição, a existência de corrupção impune nos principais actores do Estado angolano seja positiva para todos (para alguns terá sido, certamente).

 

O remoto Soares tem uma exigência de valores para com os seus amigos bastante relativa, agora como no passado. Hoje, não se importa se Portugal for visto como um cúmplice, por inacção, da cleptocracia angolana. Continua, afinal, o mesmo homem que, enquanto Presidente da República, visitou o seu amigo Bettino Craxi, fugido à justiça italiana por corrupção.

 

Como diria Arménio Carlos, os amigos são para as ocasiões. E Soares tem-se sempre desvelado, com o coração palpitante, por paixão a Angola e ao povo angolano. Enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, garantiu “em nome de Portugal o direito inalienável dos povos colonizados à independência” (aquilo que alguns cantam como a “descolonização exemplar”). Depois, esforçou-se por manter boas relações com o MPLA e Savimbi (como a palavra “Negócios”, do seu pretérito ministério, pareceu clarividente). As suas declarações de hoje não são mais do que a continuidade desta luta de sempre pelos laços fraternos luso-angolanos.

O governador esquecido

Vitor Constâncio, governador do Banco de Portugal durante a orgia desenfreada de roubos do BPN, afirma que é “pertinente que Portugal tenha mais um ano para corrigir o défice orçamental”.

 

Também será pertinente perguntar: qual o verdadeiro peso do BPN nesse défice?

 

Talvez Constâncio, que estava à frente da entidade reguladora quando tudo aconteceu, possa responder.

Pequeninos homens de amanhã

Pedro Passos Coelho foi à Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Claro que houve circo.

 

Algumas alunas, diz o Público, empunhavam cartazes onde se lia, entre outras coisas, “Quero o meu país de volta”. O que me ocorre, de imediato, é questionar porque não vão as tais alunas exibir este cartaz à porta da pessoa que, de facto, entregou o país aos credores e fugiu logo a seguir para Paris.

 

Mas o mais burlesco foi a exibição por alguns grunhos desta linda encenação:

Nem de propósito: o Público também noticia que, em 2011/2012, reprovaram no 12º ano mais 6,4% dos alunos do que em 2009/2010, “o que se ficará sobretudo a dever à maior exigência dos exames nacionais”. Como se vê pelo que está exposto acima, tal acréscimo de exigência já vem dois ou três anos atrasado.