O velocípede e a cidade

Uma das coisas que me entedia nas militâncias folclóricas, e em particular nas associadas ao que se convencionou chamar “estilos de vida”, é o ar de superioridade moral que exibem. O problema disto é que as ilusões de superioridade moral servem amiúde como justificação para se isentarem do cumprimento das regras comuns – porque se julgam, afinal, num patamar superior da ética. A coisa piora ainda mais quando existe uma classe política pronta a apoiar certas bandeiras a troco do voto destas franjas – e poucos, assim, acabam por perturbar muitos, até porque a sociedade se resignou, a bem do politicamente correcto, a não reagir perante os comportamentos destas minorias folclóricas.

Veja-se o caso dos “ciclistas urbanos”. Arrogam-se como solução para o trânsito, para a poluição, até para a saúde pública – e é vê-los, alegremente, a passar semáforos vermelhos, a andar pelos passeios a alta velocidade, a desrespeitar passadeiras (no entanto, ai de um peão que esteja sobre uma das ciclovias quando os cavalheiros pilotam as suas máquinas). Mas são “cool”, fazem umas fotografias “radicais”, acham-se de Esquerda por se acharem “transgressores” do status-quo. Perante esta gente, logo apareceu um idiota como o Zé-que-nunca-fez-falta a cobrir os passeios de ciclovias praticamente às moscas, e um António Costa que afirma querer substituir os carros por bicicletas – como se tal, pela meteorologia e pela geografia da cidade, fosse uma coisa possível. Quanto mais vêem esta aparente legitimação da sua filosofia pessoal, mais aumenta o fanatismo do pessoal das bicicletas.

Cenário: passadeira no Cais do Sodré, 13h, 6 de Agosto. A passadeira está lá: há um sinal de trânsito a indicar a presença da passadeira; as regras de trânsito estipulam que os peões têm prioridade nas passadeiras; as bicicletas, os seus utentes parecem esquecê-lo, são veículos; sendo veículos, os seus condutores têm obrigação de andar nas faixas de rodagem e seguir as regras do código; os ciclistas, quando montados nas suas bicicletas, são obrigados a respeitar a prioridade dos peões nas passadeiras.

Pois naquele fatídico 6 de Agosto, enquanto várias pessoas já se encontravam sobre a passadeira, um pequeno mamífero, montado na sua bicla, atravessou-a sem sequer abrandar, forçando duas senhoras a saltarem para não serem abalroadas e vários outros peões a imobilizarem-se para que Sua Alteza Bicicleteira seguisse o seu caminho, talvez na direcção de futuros canoros.

Eu próprio estava ainda razoavelmente longe da passadeira em questão. Tenho pena, pois gostaria de ter demonstrado ao ciclista o que pensava da sua conduta.

 

O autor destas linhas, de camisola vermelha, chamando pedagogicamente
à razão um ciclista que desrespeita as regras de trânsito. 

 

E, no entanto, isto teria uma solução fácil. Bastaria que os Zés e os Costas tivessem a coragem de estipular que, se os ciclistas têm direitos acrescidos em Lisboa (pistas suaves exclusivas, subtraídas aos passeios e aos jardins, para darem às perninhas), também lhes seriam exigidos deveres: respeito pelo código da estrada, com coimas em caso contrário, e exigência de uma licença de condução – como é necessário para conduzir qualquer outro tipo de veículo.

O provedor do DN

Veio-me à atenção que Óscar Mascarenhas escreveu um texto “polémico” no Diário de Notícias. Quando a prosa vem de um jornalista de Esquerda para malhar na Direita, é “polémica”; se vem de um jornalista de Direita para zurzir na Esquerda, chama-se “ressabiamento”.

 

Mas o que temos aqui não é polémica nem ressabiamento. O que temos aqui é simplesmente Óscar Mascarenhas.

 

“Aldrabões. Não faço por menos. Mandam as artes e manhas dos artigos de opinião…”

 

Começa assim o texto. E logo começa com um erro: o que ele perpetrar daqui para a frente não pode ser visto segundo as regras de um artigo de opinião – porque ele é o Provedor do Leitor de um jornal, não um cronista ou comentadeiro. Isto, claro, apesar de os seus escritos aparecerem na secção “Opinião” – mas não esperemos muito deste DN dirigido por João Marcelino e posse do “amigo Oliveira”.

 

“… que não se diga logo ao que vem o autor…”

 

Segundo erro: mal se vê a assinatura de Óscar Mascarenhas, já se sabe perfeitamente ao que vem. Quem siga a sua carreira artística, e eu conheço-a de há décadas, sabe que nunca tentou sequer disfarçar todas as suas costelas esquerdistas. Jornalista de cujas reportagens e investigações não me recordo, Mascarenhas tem sido, no entanto, presença omnipresente nas colunas de opinião do DN.

 

Parece que Óscar Marcarenhas diz não saber se tem ideologia. Mascarenhas quer-nos insultar – por menosprezo de inteligência.

 

“… para manter o leitor agarrado ao prazer do texto.”

 

A modéstia há-de ser a perdição deste rapaz.

 

“Mas desta vez, iconoclasta como me quero, finto as regras e vou direto ao assunto: …”

 

O iconoclasta Óscar finta, quebra, estilhaça as regras, sim – mas não as que regem os artigos de opinião. Mascarenhas arrasa, sim, as regras que deviam guiar um Provedor do Leitor, ao usar o seu espaço como tribuna de comício.

 

“os senhores (professores doutores ou doutorandos e mais o que desejarem ser no currículo e na mercearia do bairro) Miguel Poiares Maduro e Pedro Lomba,”

 

O iconoclasta Óscar inicia desta forma a sua saga justiceira. Recorre à velha táctica de menorizar o oponente ridicularizando o peso relativo dos títulos que possui, e aproveita en passant para insinuar a vacuidade dos mesmos. Para sua infelicidade, escolheu mal os alvos: nem Poiares Maduro, nem Pedro Lomba, são arrivistas que chegaram à política sem passado, e os títulos que ostentam, ninguém ainda surgiu a provar ou sugerir que tenham sido obtidos por outra coisa que não mérito.

 

“nos poucos dias que levam de governo, já deram provas de terem sido aldrabões. Não digo que o sejam, que não sou tão pateta e desajeitado que abra um alçapão legal sob os meus próprios pés perante juristas assim ditos tão eminentes: afirmo que o foram. Episódica e admito que corrigivelmente.”

 

Óscar chama aldrabões aos dois governantes, mas cobre-se de cuidados para evitar processos – e pisca-nos o olho, com ar cúmplice, deliciado com a sua esperteza. Faz-me recordar o Bocage na anedota dos gafanhotos.

 

E só agora terminámos o primeiro de 27 parágrafos!

 

Façamos um fast-forward no texto:

 

“Venham os Poiares Pedros ou os Lombas Maduros que vierem, jornalista do DN que se acobarde perante este fascismo com pés de lã, pode ter a certeza, à fé de quem sou, que fica com o nome num pelourinho de cobardolas que prometo expor aos leitores. Porque é dos direitos dos leitores que estamos a falar. Enquanto estiver nesta casa e nela tiver voz, o fascismo não entra de esguelha.”

 

Isto é grave. Isto é muito grave e, no entanto, no meio de tantos parágrafos, ninguém pareceu reparar. Na prática, o grande, o gravítico Mascarenhas está-nos a garantir que qualquer jornalista que não tenha, para com os governantes em exercício, a “incomodidade” que ele, o imenso Mascarenhas, acha exigível – será chibado por si, para que todos o saibam. O jornalista Óscar Mascarenhas sonha com uma lista negra de jornalistas. Óscar Mascarenhas parece suspirar, com indisfarçável nostalgia, pelos ventos de liberdade que se respiraram no mesmo DN enquanto foi dirigido pelo depois nobelizado Saramago. Mascarenhas manifesta publicamente, e sem sombra de pudor, a sua vocação – para bufo.

 

É bom de ver que eu não vou fazer uma análise exaustiva da prosa mascarenha – porque o objecto desmerece o tempo investido. Já chega. Leiam o texto, que vale a pena. Do princípio ao fim, Óscar Mascarenhas oferece-nos um sermão de ódio, despeito e boçalidade que não pareceria deslocado num editorial do Avante, mas que só neste DN dirigido por Marcelino e possuído pelo “amigo Oliveira” é possível ler assinado por um Provedor do Leitor – sem que este passe imediatamente a ser um ex-Provedor do Leitor.

 

Mas há mais um ponto que me merece comentário: Óscar Mascarenhas garante-nos no título que “Poiares Maduro e Lomba são tão-somente o fascismo a bater-nos ao de leve à porta”. Isto por causa de uns briefings. Suponho que Mascarenhas tenha saudades dos tempos de José Sócrates, em que assessores assediavam jornalistas incómodos; em que o próprio telefonava irado a directores de jornais; em que elementos ligados ao PS pretenderam catalisar a compra de uma televisão não-alinhada; em que um primeiro-ministro aparecia em eventos de propaganda inteiramente ficcionais (alguém ainda se lembra da farsa do primeiro computador português?) e recebia de braços abertos “líderes carismáticos”; em que “fontes próximas do Governo” espalhavam informação errada nas redacções de jornais para minar a credibilidade da imprensa; em que José Sócrates processava freneticamente jornalistas, opinadores e bloguers que se permitiam a mínima actividade de escrutínio ou cepticismo.

 

Se os briefings de Maduro e Lomba são o fascismo a bater-nos ao de leve à porta, o regime socrático foi o fascismo a deitá-la abaixo com um pontapé, a entrar-nos em casa e a lançar granadas de gás lacrimogéneo.

 

O que é um Provedor do Leitor? É alguém escolhido para defender o Leitor do jornalismo exercido incorrectamente. Um Provedor do Leitor está lá para escrutinar o desempenho dos seus colegas jornalistas; para criticar más metodologias; para expor aleijões à deontologia. Um Provedor do Leitor deve-se pronunciar sobre o trabalho do jornalista na elaboração de uma notícia – não sobre a notícia, e nunca procurar ser a própria notícia. Enquanto Provedor do Leitor, o seu objectivo primeiro deveria ser chamar a atenção para a matéria que analisa, até com algum distanciamento clínico, e fazê-lo com uma linguagem clara e técnica. Contudo, inflado de soberba como o sapo de La Fontaine, crente da sua infalibilidade ética como é uso nos jornalistas-militantes-de-Esquerda (e que exibem, ao mesmo tempo, um burguesíssimo ventre), Mascarenhas recorre a um estilo barroco e bacoco. Mas se Eça era sarcástico, e por isso eficaz, Óscar Mascarenhas mostra-se apenas um pedante – um pedante cheio de si mesmo, e pronto a subverter o cargo que lhe deveria merecer respeito por mera compulsão exibicionista.

Cortesia inter pares

A Federação Nacional da Educação (FNE) discorda da prova de acesso à carreira docente nos moldes propostos pelo Ministério (acrescentaria eu, em quaisquer moldes propostos pelo Ministério). João Dias da Silva, o seu secretário-geral, quer garantir que “os professores no sistema educativo estejam definitivamente dispensados da realização de uma prova desta natureza”. Para a FNE:

 

(…) os professores que têm “servido o sistema educativo e que têm tido a classificação de bom não devem realizar esta prova e devem ser dispensados”.

 

O que acho particularmente interessante nesta posição da FNE, e do seu secretário-geral, é que parece ter sido pensada à medida do secretário-geral da Fenprof Mário Nogueira, o professor efectivo no Agrupamento da Pedrulha e que foi avaliado com “Bom” – apesar de não pisar uma sala de aula há mais de 20 anos. 

 

Repito: a FNE não se importa que alguém que não dá aulas há mais de 20 anos, e foi avaliado com um Bom, não pela sua actividade docente, mas com base num relatório que elaborou de toda a sua actividade de sindicalista, acções de formação que realizou, conferências e congressos em que participou, artigos que escreveu na comunicação social – tenha acesso directo a uma turma sem prestar provas de capacidade pedagógica.

Tão diferentes, tão iguais

Quando alguém do PSD não gosta de alguém do PSD, não tem problemas em demonstrá-lo publicamente, incluindo em tempo de eleições – mesmo que a alternativa signifique a ruína para o país.

 

Quando alguém do PS não gosta de alguém do PS, não tem problemas em demonstrá-lo publicamente, excluindo em tempo de eleições em que o apoia contra “a Direita” – mesmo que isso signifique a ruína para o país.

Sou todo ouvidos

O PS tem “dúvidas fundadas” de que está sob escuta. Por outras palavras, o PS “duvida com fundamento” que esteja a ser escutado. E aqui está um soundbyte criado por analfabetos funcionais.

 

Quem quereria escutar o PS se este, politicamente, não tem nada para ser escutado? Só por puro masoquismo é que alguém passaria horas a fio, de auscultadores na cabeça, a ouvir as nulidades de Seguro e companhia. Seria múltiplas vezes mais interessante – gravar um feijoeiro a crescer.

A transparência segundo António Costa

O Diário Económico informa:


A Câmara de Lisboa, presidida por António Costa, avançou com um recurso para o Tribunal Constitucional para travar sentenças judiciais que obrigam à divulgação de um documento interno da autarquia intitulado “Obras Públicas Municipais – Sobre o Estado da Arte”, elaborado em 2011 pelo vereador Fernando Nunes da Silva, eleito pelo movimento Cidadãos por Lisboa”, noticia hoje o jornal “Público”.


O documento em causa, apenas revelado parcialmente, foi inicialmente remetido à Comissão para a Promoção das Boas Práticas da Câmara de Lisboa e apontava falhas às práticas de contratação de empreitadas em vigor nos serviços da autarquia, nomeadamente número reduzido de concursos públicos face aos ajustes directos.


(…) A câmara avançou agora para o Constitucional por considerar, segundo o “Público”, que a obrigatoriedade de divulgar este tipo de documentos “abre caminho a que todas as decisões políticas e documentos que as corporizam fiquem sujeitas ao escrutínio público e, eventualmente, judicial, o que irá conduzir, inevitavelmente, à diminuição/perda da autonomia que deve caracterizar o exercício do poder político”.


A câmara em abstracto, e António Costa em concreto, acham que as decisões políticas e documentos que as corporizam serem sujeitos ao escrutínio público é algo a evitar. Parecem julgar, em suma, que a transparência na administração da coisa pública é um perigo para a democracia.

A palavra que começa com um H mudo

Quando eu vejo campeões da Democracia, da Transparência e dos Direitos Humanos, como Assange e Snowden, refugiarem-se da ditadura dos EUA em oásis de democracia e liberdade de expressão como são a Rússia de Putin, a Bolívia de Morales ou o Equador de Correa, só me ocorre a palavra… bolas, agora esqueci-me… começa por h… já me lembrei: hipocrisia.