A RTP, que durante o consulado socrático não passou de uma caixa de ressonância do seu programa; a RTP, que enquanto Sócrates governou, se prestou, pelas mãos amigas e submissas de Judite e Alberto Carvalho, ao papel ignóbil de lhe dar tempo de antena para limpar a sua (salpicadíssima) imagem; a RTP, que para manter o seu status-quo de intocabilidade, tem exibido linhas editoriais mais próprias do Acção Socialista; a RTP, que todos os Domingos exibe uma homilia a solo de José Sócrates sem qualquer tentativa de contraditório; esta RTP foi processada pelo PS porque “parte da direcção de informação comporta-se como servente do Governo”. A parte, imagino, que se recusou a comportar-se como servente do Partido Socialista.
Os controladeiros
O Bloco de Esquerda quer limpar as ruas – do piropo. E que tal se fossem à merda?
Tribunal Constitucional, o regresso
O aglomerado de juízes que se reúne, ora maior, ora menor, no Palácio Ratton, é o terror de quem paga impostos.
Mais um chumbo, desta feita a uma lei que visava a tão necessária racionalização de recursos humanos na Função Pública. Ao todo, com efeitos acumulados, trata-se de um chumbo que invalida uma poupança de 900 milhões de euros. De volta à cansativa narrativa da garantia da segurança no trabalho, apetece perguntar: e o tão famoso princípio da igualdade, já invocado por estas mesmas cabeças?
Quanto ao outro ponto, relativo ao princípio de protecção de confiança, Sousa Ribeiro afirmou que “quando em 2008 se estabeleceu o regime do contrato de trabalho, havia uma norma de salvaguarda quanto à cessação do contrato de trabalho. Entendeu-se que estava criada uma acção positiva do Estado num ambiente normativo em que as preocupações de racionalização de efectivos já se fazia sentir, o Estado entendeu dar essa garantia. Gerou-se uma confiança reforçada dos trabalhadores (…)
Então e os funcionários públicos que entraram para os quadros antes de 2008? Talvez para esses possamos invocar, agora sim, o princípio da igualdade! Ser juíz do Tribunal Constitucional não é, afinal, assim tão difícil.
O hipócrita do laço
Acerca da morte de António Borges, Baptista-Bastos escreve isto.
Com a alegria mal dissimulada na ponta da pena, o escrevinhador fala de direitos culturais e sociais, de democracia e de preservação de diversidades, entre outros conceitos. O que nunca refere em lado algum, como bom homem de esquerda, é o que se faz quando o dinheiro para preservar os direitos acaba, o que se faz quando os intérpretes da nossa democracia (que Baptista-Bastos tanto preza) nos trazem até ao fundo do precipício e como agir quando a preservação de diversidades resulta em conflito social latente, prejudicial para todos.
Ilustra António Borges como uma espécie de Satanás, avesso à felicidade do povo e partidário de um regime de escravatura, combatido pelos ideais que a esquerda gosta de pensar serem os seus.
Normalmente não leio Baptista-Bastos, normalmente evito Baptista-Bastos. Abri uma excepção, ao ver o título da sua peça, para perceber quão baixo podia ser. Algures no meio da estafada retórica da luta de classes e do combate ao capitalismo, o colunista deixou passar em claro a vida que se perde, a família enlutada e todos aqueles que vivem tempos mais tristes pelo desaparecimento de alguém que estimavam. Esqueceu-se que antes do político, do assessor ou do economista, morreu o homem. Bizarro, este esquecimento, por parte de quem tem prontas a debitar palavras como “compaixão” ou “bondade”.
Depois de todos os adjectivos que se lêem nas entrelinhas do texto para classificar António Borges, eu deixo um para Baptista-Bastos: hipócrita!
Adivinhe quem vem para jantar
Parece que a lei da mobilidade da Função Pública, entregue às infalíveis mãos do Tribunal Constitucional, vai ser avaliada por apenas 7 juízes. Isto porquê? Porque no período de férias judiciais, que se prolonga até ao dia 14 de Setembro, apenas é exigida a presença de 7 dos 13 juízes. Sabemos, também, que o excelso Tribunal não quer que saibamos quem são.
O que torna tudo isto caricato? A decisão face à constitucionalidade ou não do diploma poderá vir a ser tomada por uma maioria de apenas 4 juízes.
Mais um exemplo da paixão que estes cavalheiros nutrem pelos princípios da igualdade e da transparência.
A Esquerda Caceteira
Primeiro, a nossa Esquerda Caceteira disse matem-no e esfolem-no porque a Presidência da República teria apresentado condolências pela morte de António Borges – e não pelos três bombeiros mortos em serviço. Depois, quando se viram desmentidos pelos factos e se soube que a Presidência da República apresentara, no recato da privacidade, condolências às famílias dos bombeiros, a Esquerda Caceteira disse matem-no e esfolem-no porque seriam condolências de segunda, por comparação com as de primeira apresentadas a propósito de Borges.
Alguém duvida de que, caso a Presidência da República tivesse apresentado condolências publiquíssimas pela morte dos bombeiros, esta mesma Esquerda Caceteira diria matem-no e esfolem-no, pois Cavaco Silva estaria a aproveitar-se da tragédia que caíra sobre as famílias dos bombeiros para proceder a uma operação de charme?
António Costa, o Visionário
Borges e os outros
Morreu António Borges. Homem de competência acima das rasteirices politiqueiras portuguesas e de convicções fortes, populares ou não.
Nas caixas de comentários de notícias e blogs lêem-se as mais bárbaras ignomínias. Há quem ofenda a memória do homem, há quem festeje a sua morte. Felizmente, os comentários dizem mais acerca de quem os escreve do que do falecido.
Pôr-se a jeito
Sobre as eleições de Lisboa
Fernando Seara vai-se candidatar à Câmara de Lisboa; Fernando Seara não se pode candidatar à Câmara de Lisboa; afinal, Fernando Seara sempre se pode candidatar à Câmara de Lisboa…
Nisto tudo, o que mais me surpreende não é o imbróglio causado por (mais) uma lei mal elaborada pela nossa deputação. Nem sequer é o prazer assumido com que os juízes se vão tornando cada vez mais parte activa do jogo político.
Não: aquilo que mais me surpreende é que depois de reinado e meio de António Costa, os candidatos conhecidos consigam a proeza de não só garantirem a manutenção da nulidade que tem sido a sua gestão camarária, como também que reforce a sua votação!
Quais as marcas (cicatrizes será uma palavra mais correcta) do edil Costa em Lisboa? Vejamos: há locais em que o lixo transborda dos contentores como se estes fossem perversas cornucópias. Noutros, manchas de urina decoram as paredes e o seu cheiro acidifica o ar. A cidade é um contínuo estaleiro, e os passeios e ruas cobrem-se de areia e pó, ou lama quando cai um chuvisco, ou lagos quando chove pouco mais do que um chuvisco – pois mais depressa se conseguirá a fusão fria do que, em Lisboa, se resolverá o problema do escoamento da água. A zona dos Anjos tornou-se um prostíbulo a céu aberto. Num claro desrespeito pelo lisboeta ou simples frequentador, passeios vêem-se encolhidos para albergar ciclovias que estão às moscas. Gastou-se mais de meio milhão de euros em experiências de trânsito na Rotunda do Marquês, mas não há uns míseros milhares para recuperar o quiosque da Estrela, que vai entretanto apodrecendo e será – eventualmente – recuperado “o que for possível” (expressão notável).
Observe-se a Rua do Ouro.
Aproxima-se a campanha eleitoral, e é preciso mostrar alguma obra? Esventre-se, a semanas das eleições, a Rua do Ouro! A obra foi mal planeada, provocando curto-circuitos na cablagem da Carris, e a segurança foi negligenciada, criando dificuldades a uma eventual actuação dos bombeiros? Coincide com o pico do turismo? As lojas vêem-se privadas de dois meses altos de facturação? Os restaurantes lutam com a poeira que lhes entra pela porta, e o ruído que faz vibrar as vitrinas? O visitante, esperando a cidade cuja beleza é elogiada na imprensa internacional, depara-se com o Rossio invadido por vendedores de haxe e uma das ruas comerciais monopolizada pelas máquinas, em que se tem de espremer entre os prédios e as redes das obras? O turista, em vez de ser banhado pela famosa luz de Lisboa, vê o seu reflexo nas pás das escavadoras?

Aos actuais ocupas da Câmara, nada disto interessa. O que interessa é fazer o eleitor esquecer, ele que já tem por génese tão fraca memória, anos de imobilismo quando se devia ter agido, e medidas folclóricas quando seria preferível a inércia. Mostre-se obra ao povo!
A câmara de Lisboa, para o alcaide António Costa, não passa, nunca passou e nunca passará de um local de pousio onde aguarda o tempo oportuno para outras aventuras eleitorais (aprendeu com Jorge Sampaio). A sua actuação tem-se pautado por um claro desinteresse, na melhor das hipóteses, e pela mais danosa negligência na pior.
Fosse isto um país decente, e o eleitorado uma classe informada e exigente, os Costas, Salgados e Zés não seriam premiados nas urnas pelos seus actos – mas sim sentados nos tribunais.








