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O hipócrita do laço

 

Acerca da morte de António Borges, Baptista-Bastos escreve isto.

 

Com a alegria mal dissimulada na ponta da pena, o escrevinhador fala de direitos culturais e sociais, de democracia e de preservação de diversidades, entre outros conceitos. O que nunca refere em lado algum, como bom homem de esquerda, é o que se faz quando o dinheiro para preservar os direitos acaba, o que se faz quando os intérpretes da nossa democracia (que Baptista-Bastos tanto preza) nos trazem até ao fundo do precipício e como agir quando a preservação de diversidades resulta em conflito social latente, prejudicial para todos.

 

Ilustra António Borges como uma espécie de Satanás, avesso à felicidade do povo e partidário de um regime de escravatura, combatido pelos ideais que a esquerda gosta de pensar serem os seus.

 

Normalmente não leio Baptista-Bastos, normalmente evito Baptista-Bastos. Abri uma excepção, ao ver o título da sua peça, para perceber quão baixo podia ser. Algures no meio da estafada retórica da luta de classes e do combate ao capitalismo, o colunista deixou passar em claro a vida que se perde, a família enlutada e todos aqueles que vivem tempos mais tristes pelo desaparecimento de alguém que estimavam. Esqueceu-se que antes do político, do assessor ou do economista, morreu o homem. Bizarro, este esquecimento, por parte de quem tem prontas a debitar palavras como “compaixão” ou “bondade”.

 

Depois de todos os adjectivos que se lêem nas entrelinhas do texto para classificar António Borges, eu deixo um para Baptista-Bastos: hipócrita!

O palerma do laço

Baptista Bastos dá-nos, aqui, mais um exemplo da sua desconcertante desonestidade intelectual. Fala de assaltos à democracia, fala de desrespeito pela concertação social e pelos vetustos sindicatos, atira-se ao PSD e atira-se ao PS e diz coisas como esta:

As ordens procedem de fora. E as rodas dentadas da grande engrenagem movem-se através dessas cumplicidades ocultas. Lenta mas perseverantemente foram roubando o nosso já de si tão ausente protagonismo. Deixámos, há muito, de decidir o nosso destino; mas, pelo menos, possuíamos uma noção de presente, por obscuro que fosse.

Opinador de outros tempos e de outras vontades, Baptista Bastos mostra-nos como não abordar o problema, incitando a uma revolta revivalista não se sabe de quem nem contra o quê. É, como sempre foi, um intelectual situacionista que agora, sentado na poltrona, aconchegado pelo calor da lareira, se afirma anti-situacionista. Atiça os mastins a partir da sua posição de “líder de opinião” e assiste, de um ponto bem alto, ao triste espectáculo que se vai desenrolando na proto-sociedade portuguesa. O mesmo fizeram, a seu tempo, Cómodo e Calígula, embora se deva ressalvar a diferença abissal, em termos de pegada histórica, entre os romanos e o palerma do laço.