Arquivo da Categoria: josé sá fernandes

Os brasões

O candidato à liderança do PS António Costa afirmou-se “surpreendido com a retirada dos símbolos da Praça do Império”. Costa tem bom remédio: pedir explicações ao Presidente da Câmara, eleito pelo seu partido – António Costa.

 

Já eu não fico minimamente surpreendido com a surpresa de Costa. Comentador omnipresente nos media, permanente candidato à liderança do seu partido, é fácil perceber como a pessoa, em Lisboa, com menos disponibilidade para se informar sobre o que vai acontecendo na cidade – é o seu presidente da Câmara.

 

José-que-nunca-fez-falta Sá Fernandes justificou-se inicialmente com um “não fazer sentido gastar dinheiro a recuperar símbolos que já não existem”. Extrapolássemos tal posição, também não faria sentido sustentarmos um presidente da Câmara que nunca o foi nem pretendeu ser, ou um responsável camarário pelos jardins que, manifestamente, não o é – responsável.

 

No Parque Eduardo VII, os bancos permanecem cobertos de “tags” cuja tinta se cola à roupa; vastas áreas nos relvados laterais estão peladas e exibem o castanho da terra nua; e os bancos que usufruíam de alguma sombra perderam-na em grande parte pois os funcionários camarários – os mesmo que deixam dias a fio garrafas de plástico e latas de refrigerante nos relvados – entenderam, zelosos, podar qualquer ramada capaz de bloquear o Sol.

 

No Príncipe Real, Sá Fernandes criou um rol de problemas onde, claramente, eles não existiam (resumidos, anos depois, com um cínico “correu mal”), e piorou aqueles que necessitavam de solução.

 

Na Praça do Império, Sá Fernandes não quer mexer em algo que carece de recuperação. Dá para isso dois tipos de argumentação: a economicista (não se justifica a recuperação de algo que “já não existe”) e a ideológica (os brasões são sinais do colonialismo e não contem com ele para tratar “daquilo”).

 

Eu tenho que confessar: acho sempre adorável a (quando conveniente) invocação da razoabilidade económica vinda de uma Esquerda que, por norma, adora mostrar-se de braço-dado com a “Cóltura” e está sempre pronta a desmascarar os fariseus de Direita que a submetem à frieza da Economia.

 

Ora se José Sá Fernandes invoca a razoabilidade dos números, nós podemos igualmente argumentar com eles. 20000 euros, portanto, é o custo previsto para a manutenção dos buxos.

 

[Vamos aceitar este número, mesmo que pela minha experiência pareça algo inflaccionado – quiçá convenientemente inflaccionado. Não me custa a aceitar que a recuperação custe os tais 20000 euros. Já acho mais difícil compreender como se chegou a este valor para a sua manutenção, a não ser que a Câmara lhe pretenda dedicar em exclusivo um par de jardineiros. Vendo eu, nos jardins que frequento, a produtividade do funcionalismo municipal, é bem capaz de serem poucos…]

 

Portanto, 20000 euros. Coloquemos este número em perspectiva. Sá Fernandes, que considera 20000€/ano irrazoáveis para tratar de parte de uma das áreas privilegiadas pelo turismo na capital, não tem problemas em fazer parte de um executivo que dispõe de 316(!) advogados. Sá Fernandes, o senhor que não quer canalizar 20000€/ano para manter/recuperar algo frequentado diariamente por milhares de pessoas, não mostrou pudor em gastar múltiplos milhões de euros numa rede cicloviária que estará, em termos de rentabilidade, ligeiramente acima do aeroporto de Beja.

 

20000 euros para servir milhares de utentes que já existem perdem contra 100x esse valor para servir uma hipotética fracção que, talvez, pouco maior será do que um erro de arredondamento.

 

Os argumentos financeiros não podem ser levados a sério, da mesma forma que não se pode senão questionar a sua tentativa de limpar a face via jornais. Se é verdade que o desleixo dos jardineiros vem, há 20 anos, deixando os brasões degradarem-se (e terá razão em dizer que os culpados políticos são transversais a todo o espectro), não podemos deixar de recordar que Sá Fernandes É o responsável político em exercício há mais de cinco – e também nada mais fez do que pedir uns papéis para ler.

 

Mas se os argumentos financeiros não são para levar a sério, os ideológicos merecem muita atenção – e cuidado. O que Sá Fernandes exibe não é apenas o hábito nos sobas que querem deixar a sua marca indelével na cidade que governam. Sá Fernandes sucumbiu ao tique muito esquerdista de querer apagar o passado com o qual não se identifica e de alterar a consciência alheia por decreto. Isto é grave – e perigoso. Num passado recente, existiu um cavalheiro de bigode farfalhudo que eliminava os adversários políticos das fotografias oficiais. Num passado mais remoto, um “autarca” pretendeu reconstruir Roma à sua medida – quando a antiga ainda existia. Sá Fernandes não parece disposto a pegar fogo àquilo que pretende substituir – mas os seus argumentos fazem crer que não deplorará obter o mesmo efeito pela inacção.

Sobre as eleições de Lisboa

Fernando Seara vai-se candidatar à Câmara de Lisboa; Fernando Seara não se pode candidatar à Câmara de Lisboa; afinal, Fernando Seara sempre se pode candidatar à Câmara de Lisboa…

 

Nisto tudo, o que mais me surpreende não é o imbróglio causado por (mais) uma lei mal elaborada pela nossa deputação. Nem sequer é o prazer assumido com que os juízes se vão tornando cada vez mais parte activa do jogo político.

 

Não: aquilo que mais me surpreende é que depois de reinado e meio de António Costa, os candidatos conhecidos consigam a proeza de não só garantirem a manutenção da nulidade que tem sido a sua gestão camarária, como também que reforce a sua votação!

 

Quais as marcas (cicatrizes será uma palavra mais correcta) do edil Costa em Lisboa? Vejamos: há locais em que o lixo transborda dos contentores como se estes fossem perversas cornucópias. Noutros, manchas de urina decoram as paredes e o seu cheiro acidifica o ar. A cidade é um contínuo estaleiro, e os passeios e ruas cobrem-se de areia e pó, ou lama quando cai um chuvisco, ou lagos quando chove pouco mais do que um chuvisco – pois mais depressa se conseguirá a fusão fria do que, em Lisboa, se resolverá o problema do escoamento da água. A zona dos Anjos tornou-se um prostíbulo a céu aberto. Num claro desrespeito pelo lisboeta ou simples frequentador, passeios vêem-se encolhidos para albergar ciclovias que estão às moscas. Gastou-se mais de meio milhão de euros em experiências de trânsito na Rotunda do Marquês, mas não há uns míseros milhares para recuperar o quiosque da Estrela, que vai entretanto apodrecendo e será – eventualmente – recuperado “o que for possível” (expressão notável).

 

Observe-se a Rua do Ouro.

 

Aproxima-se a campanha eleitoral, e é preciso mostrar alguma obra? Esventre-se, a semanas das eleições, a Rua do Ouro! A obra foi mal planeada, provocando curto-circuitos na cablagem da Carris, e a segurança foi negligenciada, criando dificuldades a uma eventual actuação dos bombeiros? Coincide com o pico do turismo? As lojas vêem-se privadas de dois meses altos de facturação? Os restaurantes lutam com a poeira que lhes entra pela porta, e o ruído que faz vibrar as vitrinas? O visitante, esperando a cidade cuja beleza é elogiada na imprensa internacional, depara-se com o Rossio invadido por vendedores de haxe e uma das ruas comerciais monopolizada pelas máquinas, em que se tem de espremer entre os prédios e as redes das obras? O turista, em vez de ser banhado pela famosa luz de Lisboa, vê o seu reflexo nas pás das escavadoras?

Aos actuais ocupas da Câmara, nada disto interessa. O que interessa é fazer o eleitor esquecer, ele que já tem por génese tão fraca memória, anos de imobilismo quando se devia ter agido, e medidas folclóricas quando seria preferível a inércia. Mostre-se obra ao povo!

 

A câmara de Lisboa, para o alcaide António Costa, não passa, nunca passou e nunca passará de um local de pousio onde aguarda o tempo oportuno para outras aventuras eleitorais (aprendeu com Jorge Sampaio). A sua actuação tem-se pautado por um claro desinteresse, na melhor das hipóteses, e pela mais danosa negligência na pior.

 

Fosse isto um país decente, e o eleitorado uma classe informada e exigente, os Costas, Salgados e Zés não seriam premiados nas urnas pelos seus actos – mas sim sentados nos tribunais.

O velocípede e a cidade

Uma das coisas que me entedia nas militâncias folclóricas, e em particular nas associadas ao que se convencionou chamar “estilos de vida”, é o ar de superioridade moral que exibem. O problema disto é que as ilusões de superioridade moral servem amiúde como justificação para se isentarem do cumprimento das regras comuns – porque se julgam, afinal, num patamar superior da ética. A coisa piora ainda mais quando existe uma classe política pronta a apoiar certas bandeiras a troco do voto destas franjas – e poucos, assim, acabam por perturbar muitos, até porque a sociedade se resignou, a bem do politicamente correcto, a não reagir perante os comportamentos destas minorias folclóricas.

Veja-se o caso dos “ciclistas urbanos”. Arrogam-se como solução para o trânsito, para a poluição, até para a saúde pública – e é vê-los, alegremente, a passar semáforos vermelhos, a andar pelos passeios a alta velocidade, a desrespeitar passadeiras (no entanto, ai de um peão que esteja sobre uma das ciclovias quando os cavalheiros pilotam as suas máquinas). Mas são “cool”, fazem umas fotografias “radicais”, acham-se de Esquerda por se acharem “transgressores” do status-quo. Perante esta gente, logo apareceu um idiota como o Zé-que-nunca-fez-falta a cobrir os passeios de ciclovias praticamente às moscas, e um António Costa que afirma querer substituir os carros por bicicletas – como se tal, pela meteorologia e pela geografia da cidade, fosse uma coisa possível. Quanto mais vêem esta aparente legitimação da sua filosofia pessoal, mais aumenta o fanatismo do pessoal das bicicletas.

Cenário: passadeira no Cais do Sodré, 13h, 6 de Agosto. A passadeira está lá: há um sinal de trânsito a indicar a presença da passadeira; as regras de trânsito estipulam que os peões têm prioridade nas passadeiras; as bicicletas, os seus utentes parecem esquecê-lo, são veículos; sendo veículos, os seus condutores têm obrigação de andar nas faixas de rodagem e seguir as regras do código; os ciclistas, quando montados nas suas bicicletas, são obrigados a respeitar a prioridade dos peões nas passadeiras.

Pois naquele fatídico 6 de Agosto, enquanto várias pessoas já se encontravam sobre a passadeira, um pequeno mamífero, montado na sua bicla, atravessou-a sem sequer abrandar, forçando duas senhoras a saltarem para não serem abalroadas e vários outros peões a imobilizarem-se para que Sua Alteza Bicicleteira seguisse o seu caminho, talvez na direcção de futuros canoros.

Eu próprio estava ainda razoavelmente longe da passadeira em questão. Tenho pena, pois gostaria de ter demonstrado ao ciclista o que pensava da sua conduta.

 

O autor destas linhas, de camisola vermelha, chamando pedagogicamente
à razão um ciclista que desrespeita as regras de trânsito. 

 

E, no entanto, isto teria uma solução fácil. Bastaria que os Zés e os Costas tivessem a coragem de estipular que, se os ciclistas têm direitos acrescidos em Lisboa (pistas suaves exclusivas, subtraídas aos passeios e aos jardins, para darem às perninhas), também lhes seriam exigidos deveres: respeito pelo código da estrada, com coimas em caso contrário, e exigência de uma licença de condução – como é necessário para conduzir qualquer outro tipo de veículo.