Da bandalheira de Costa

Ao longo da História, os detentores do poder sempre ambicionaram deixar a sua marca para a posteridade. Olhemos para os sucessivos alcaides de Lisboa e o fenómeno mantém-se. Santana Lopes deixou um túnel no Marquês. João filho-do-pai Soares, quiçá inspirado no brilho que outrora teve a pirâmide de Kheops, quis deixar uma Lisboa coberta de ladrilhos e um elevador a angular as colinas da cidade. Sampaio acabou por nos deixar… João Soares. 

 

Como em séculos antigos, umas vezes a obra é útil (não conheço quem use o túnel do Marquês sem gabar a sua conveniência), outras vezes reflecte apenas o ridículo do seu pensador (os delírios de João Soares). António Costa, desejoso de se ver numa cadeira, só ainda não sabendo se na de Cavaco Silva ou Passos Coelho, também se vai esforçando por deixar o seu aleijãozinho na cidade: foram as folclóricas ciclovias, é agora a retorcida ideia da rotunda do Marquês desdobrada.

 

Lisboa, pelos vistos, está perfeita. Não há lixo nas ruas; não há cheiro a urina nas portadas dos prédios; não há edifícios a esboroarem; não há passeios esburacados; não há estaleiros em constante migração e a deixarem uma película de areia no pavimento. Lisboa, na ideia de António Costa, está tão perfeita que ele se pode dar ao luxo de fazer experiências num dos seus centros de circulação (pois é assim que a directora municipal do Departamento de Projectos e Obras, Helena Bicho, se lhe refere – “um período experimental”). Experiências que já custaram mais de meio milhao de euros, fora o estorvo causado em quem passa por aquela zona. Experiências planeadas pelos exércitos de “técnicos camarários”, que descuram detalhes que um reformado em passagem detecta:

 

“Senhor presidente, ninguém me encomendou este sermão, mas deixe-me que lhe diga: além da magnífica obra, a Câmara conseguiu criar o futuro ‘Rio do Marquês'”.


Tantos senhores engenheiros e senhores directores, tantos cargos, tantos salamaleques, tantos diplomas pendurados nas paredes, e é um reformado dos andaimes quem chama a atenção para o facto de a ninguém ter ocorrido construir estruturas para escoar as águas. E se de facto, como é dito, os escoadores não foram esquecidos mas sim protelados para depois da “fase de experiência”, consegue ser igualmente mau: pois como querem os senhores camarários analisar seriamente os resultados da obra se, com a primeira chuvada, as inundações retiram qualquer objectividade aos mesmos?

O “Bom” professor

Mário Nogueira é, neste momento, uma figura menor do Herri Batasuna português. Esbraceja, vocifera, lidera manifestações inócuas e diz um ou outro disparate sem que muitas cabeças se virem. É um daqueles sindicalistas de carreira que, felizmente, as pessoas aprenderam a desrespeitar.

 

Em condições normais, é essa também a minha postura em relação a Mário Nogueira. Acredito, no entanto, que há um mínimo de dignidade abaixo do qual ninguém deve descer, independentemente de quão duvidoso é o seu carácter, um módico de honestidade que deve ser observado em qualquer intervenção pública, seja ele concordante, ou não, com os padrões que regem, a cada momento, a vida de qualquer criatura. Mário Nogueira, dirigente sindical por definição, poucas vezes terá pisado uma sala de aula. Acresce a este facto um outro, tão ou mais interessante: Mário Nogueira, docente efectivo do Agrupamento de Escolas da Pedrulha, em Coimbra, viu-lhe ser atribuída a classificação de “Bom”, enquanto docente, apesar de não exercer a actividade há cerca de 21 anos.

 

Com estas premissas em mente, torna-se quase folclórico que este fóssil do regimento sindicalista português venha recomendar ao Ministro Nuno Crato que “sinta o cheiro de uma sala de aula”. Existem, seguramente, muitos cheiros que Mário Nogueira dominará na perfeição. Lamentavelmente, o de uma sala de aula não será um deles.

O Verão de Luis Amado

Faço apenas uma leve ideia daquilo que tem sido escrito sobre Luis Amado pelas claques organizadas do socratismo – tascos como o Câmara Corporativa, AspirinaB ou Jugular. Esta ida de Amado à Universidade de Verão do PSD deve-lhes estar atravessada na garganta. Imagino que raras vezes o nome de Judas tenha sido tão amiudadamente invocado em vão.

 

Eu confesso não ter uma ideia formada sobre Luis Amado – nem boa, nem má. Ser-se Ministro dos Negócios Estrangeiros tem destas vantagens: gere-se uma imagem de diplomata, alguém que não chateia muito cá por casa. Recordo-me de críticos do socratismo, como João Gonçalves, terem para com ele uma atitude respeitosa. Talvez isso fosse por, no meio da restante clique socrática, Luis Amado parecer o único capaz de comer com faca e garfo e possuir um mínimo de sensatez e boa-educação.

 

E, convém não esquecermos, Luis Amado experimentou em (muito literalmente, como é dado ver nos primeiros seis segundos deste vídeo) primeira-mão o tipo de gente que é José Sócrates:

 

Atravessar as quatro faixas de uma auto-estrada

Freitas do Amaral, esse grande senador da Esquerda portuguesa, retomou as suas aparições. Agora, traz a ideia de criar um imposto extraordinário para a malandragem com salários elevados:

 

Questionado sobre quem faz parte desse “grupo de privilegiados”, Diogo Freitas do Amaral explicou: “Em minha opinião são as pessoas que ganham mais de dez mil euros por mês. Eu acho que devia haver da parte do Governo uma tributação especialmente pesada sobre essas pessoas.”

 

Parece-me óbvio que este recente frenesim opinativo tem um objectivo: Freitas do Amaral está-se a posicionar para a disputa da liderança do Bloco de Esquerda.

Os amigos são para as ocasiões

A Mota-Engil “de” Jorge Coelho, ainda recentemente noticiada como o grupo ligado à construção civil que mais cresceu no último ano, quer continuar a crescer. Mais especificamente, pretende aumentar o volume de negócios em 45% até 2015:

 

O objectivo no continente africano passa por alargar a actividade ao espaço da África Austral, com enfoque em projectos de dimensão para grupos multinacionais privados associados à mineração, assim como na expansão da actividade em Moçambique, Angola e Malawi para áreas como o ambiente, a logística e energia, como suporte à construção de infra-estruturas.

 

Reparem no país que destaquei neste parágrafo: Malawi. E nem por acaso:

 

Mota Engil é acusada de oferecer até 40 mil euros ao falecido Presidente do Malawi.

 

A construtora portuguesa Mota Engil foi acusada de fazer «pagamentos periódicos» ao falecido Presidente do Malawi Bingu wa Mutharika, mas a empresa justifica os depósitos bancários com «pagamento de livros» e uma «prenda de casamento».

 

Pagamento de livros e prendas de casamento juntar-se-ão, no metaforismo nacional, aos robalos e às alheiras.

 

Uma alma menos gentil diria que estas pessoas aperfeiçoaram a sua arte na mesma escola – quiçá com o(s) mesmo(s) mestre(s).

Soares é triste

Todo um conjunto de “inverdades” tem sido proferido acerca deste processo da RTP. Tudo começou com um cenário levantado por António Borges, que não passou disso mesmo: de um cenário. À boa maneira cá do burgo, esse cenário passou a anúncio e de anúncio passou a balbúrdia. Ninguém quis ficar de fora do ruído que se seguiu, contribuíndo para duas semanas de uma intensa telenovela.

 

Desta feita foi Mário Soares, que desempenha o clássico papel do velho tirano, a meter a sua “colherada”. Diz o ancião que, se assistirmos, impávidos e serenos, a esta onda de privatizações, seremos todos responsáveis. Soares sabe uma coisa ou duas acerca de responsabilidade, embora apenas no plano teórico. Nunca assumiu qualquer responsabilidade e, assim que lhe pareceu remotamente que poderia ser responsabilizado por algo, fugiu.

 

Soares, que tem tido uma semana invulgarmente agitada, também veio colocar-se ao lado de Seguro na sua recusa de mais austeridade. Não sou um particular admirador de Seguro, mas acho que ninguém merece estas companhias. Estou solidário: a última coisa de que um homem precisa quando está a arder é de ser regado com gasolina.

 

Soares, o homem das multas pagas por todos nós, continua o seu show de hipocrisia. Na verdade, todos assistimos impávidos e serenos, pelo que seremos todos responsáveis. Soares já não é fixe, Soares é triste e devia estar calado.