Os órfãos

O jornal I apresenta-os como os “jovens turcos”, órfãos de António Costa e organizados entre si para se oporem à liderança de Seguro.

 

Eu até estou pronto a concordar com a maior parte da adjectivação, com a excepção da orfandade. Não acredito que António Costa fosse um pai espiritual para estes gangues organizados do PS. Costa seria, quando muito, um tio espiritual, um testa-de-ferro a consumir nesta travessia do deserto até que se reúnam as condições óptimas para o regresso do verdadeiro D. Sebastião destas gentes: José Sócrates. Basta ver os nomes apontados pelo I para o perceber: Pedro Nuno Santos, o rambo de Aveiro; João Tiago Silveira, antigo porta-voz socrático; Sérgio Sousa Pinto, que tem a infelicidade adicional de cada vez estar mais parecido com o ar mafioso de Armando Vara; João Galamba, o… repugnante. E todos os outros desta posse maldita, maioritariamente formada na JS e que já no passado se reuniu em “iniciativas” como o “Congresso Democrático das Alternativas”.

O disparo de 13%

O título está muito bem conseguido: “Vendas disparam na empresa que prepara máquinas de facturas“. É todo um tratado de questões que a Lusa, amplificada aqui pelo paladino desinteressado chamado Expresso, insinua: pensa-se logo se “As mudanças legais introduzidas no dia 1 de Janeiro de 2013 [que] fizeram com que muitos clientes antecipassem a actualização das suas ferramentas de trabalho” não terão sido cirúrgicas para benefício desta empresa. Já imagino Arménio Carlos, numa próxima manifestação, a repetir que “os amigos são para as ocasiões”.

 

Mas, depois, lê-se a notícia com mais atenção: as vendas subiram 13,2%. 13,2%, para a Lusa, é um disparo! Mais: descobre-se que as exportações subiram 30%. Nem a Lusa, nem o Expresso, nem o jornal I, nem certamente nenhum dos outros que gulosamente repassaram a notícia, se preocuparam em fazer umas contas rápidas num papel para perceber quanto desse “disparo de vendas” se deveu ao aumento de exportações. Não: o que é preciso é ligar na opinião pública os eventos alteração de legislação, obrigatoriedade de novas máquinas e mais 13,2% de vendas.

 

E eu termino perguntando à Lusa: se 13,2% é um disparo, que nome se dá à triplicação de facturação que a JP Sá Couto conseguiu graças ao Magalhães, esse transparentíssimo ícone do socratismo?

Um exercício de ironia?

Na introdução à entrevista, a jornalista avisa o leitor para este se empenhar ao máximo, por forma a compreender as entrelinhas e entre-entrelinhas de Augusto Santos Silva, e poder apreciar todo o esplendor da sua “fina ironia”:

 

“As entrevistas a Augusto Santos Silva são para ser lidas nas linhas e nas entrelinhas e tendo em mente a fina ironia que caracteriza este ex-ministro”.

 

“Fina ironia”… falar da fina ironia do caceteiro Augusto Santos Silva é como tecer loas à elegância de Cicciolina.

Posturas diferentes

Sou insuspeito de simpatizar com o secretário-geral da UGT. Não posso, contudo, deixar de reconhecer as diferenças de estilo entre João Proença e Arménio Carlos.

 

Repare-se nas distintas posições de ambos sobre o caso Franquelim Alves:

 

O secretário-geral da UGT, João Proença, reconhece que a nomeação do ex-administrador da SLN/BPN Franquelim Alves para o Governo foi “infeliz”, mas lembra que este apenas esteve ligado à reestruturação do BPN e nunca foi acusada de “qualquer ato ilícito”.

 

Questionado igualmente à entrada da reunião sobre a polémica em torno da nomeação de Franquelim Alves, o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, apenas disse: “os amigos são para as ocasiões”.

Daltonismo moral

Tenho ouvido e lido sobre este assunto “Franquelim Alves” com alguma displicência e desinteresse. Diz-se por aí que o Governo podia ter evitado este embaraço ao não nomear alguém envolvido no escândalo BPN.

 

Ontem, finalmente movido pela curiosidade, lá fui procurar alguma informação sobre o assunto. Franquelim Alves, se vi correctamente, foi para o BPN no final de 2007, um par de meses antes de Oliveira e Costa tentar fugir, e anos, muitos anos depois de cometido o grosso das fraudes que levaram à queda do banco.

 

A Oposição quer a cabeça de Franquelim numa bandeja. A Oposição diz que Franquelim, entrado em finais de 2007 para um posto algo lateral, é cúmplice – por acção ou inacção – no escândalo BPN.

 

Ora se é essa a posição da Oposição em relação a Franquelim, o que dizer de Vitor Constâncio, suposto fiscalizador do sistema bancário, sob cujo nariz se passaram todos – TODOS! – os factos criminosos, e nunca mostrou particular urgência no seu escrutínio, nem particular reconhecimento da sua negligência?

 

Eu não estou a defender a inocência de Franquelim Alves, até porque Miguel Relvas já o veio defender – e ser-se defendido por Relvas é sempre suspeito. Apenas afirmo que se ele é culpado por ter estado três meses sob a gestão de Oliveira e Costa, há por aí, em BCEs e Universidades, gente com muito maior e mais prolongada responsabilidade pelo estado a que o caso chegou – sem que à Oposição tal lhe mova um cabelo fora do sítio.

O bastonário bastonador

Marinho Pinto demite-se… (até que enfim!) … se advogados acatarem nova lei das associações profissionais. (ora bolas!)

 

[O Público, para variar, até pinta um retrato fiel de Marinho Pinto: usa o termo vociferar, pois falar ou insurgir são verbos demasiado civilizados para a bastonária personagem.]

 

O que faz agora esbracejar Marinho Pinto? Pelo que entendo, não quer que haja a possibilidade de inspecções à Ordem dos Advogados. O bastonário diz-se revoltado com os deputados-advogados que não se opuseram à lei:

 

“Tenho vergonha deles. Devem estar mais preocupados com os negócios dos seus clientes do que com a dignidade da profissão”.

 

São  palavras duras. Por outro lado, questiono-me quantos advogados não terão, no passado, dito de Marinho Pinto:

 

“Tenho vergonha dele. Deve estar mais preocupado em defender publicamente José Sócrates do que com a dignidade da profissão”.

 

Eu confesso que não domino a matéria em causa. Até pode ser que Marinho Pinto tenha razão. O problema é que o seu estilo, que balança entre o taberneiro e o cavernícola, faz-me sempre, por reacção, olhar com simpatia para o lado oposto.

 

Depois, há a sua pose moralista. Marinho Pinto adora falar de “transparência”. É “transparência” para aqui, “transparência” para acolá, usa tanto a palavra que esta deixa de ter significado. E, no entanto, quando questionado sobre quanto custou a encomenda do anteprojecto de alteração do estatuto da Ordem à sociedade de advogados Sérvulo&Associados, afirma:

 

“Não tenho que dizer publicamente aquilo que eu e a Ordem pagamos aos advogados. A Ordem paga o que tem de pagar”.

 

E quando questionado sobre o porquê de pedir uma assessoria jurídica fora da Ordem, quando o mesmo trabalho poderia ter sido executado por membros da própria Ordem, Marinho Pinto responde:

 

“… não é do interesse público saber quem são os meus assessores.”

 

Porque me fica a impressão de que o conceito de “transparência”, para Marinho Pinto, varia de gradação consoante o aplica na primeira, segunda ou terceira pessoa?

Seguro, perdido no bosque

Seguro está rodeado de predadores. A situação de Seguro no PS faz lembrar o argumento de alguns filmes de meados dos anos 90, de concepção algo descuidada, nos quais um anti-herói insuspeito era largado num bosque e, após duas horas de avanço generosamente concedidas, era alvo de uma perseguição incansável por parte de um grupo de vilões armados até aos dentes. Seguro foi largado no bosque (PS), foi-lhe dado algum tempo de avanço (o suficiente, esperam os caçadores, para que o desgoverno socrático caia no esquecimento) e agora os vilões saíram da cabana.

 

Este é o primeiro momento de clímax desta película. É aqui que começa o suspense. No entanto, ao contrário do que sucede nestes filmes, nos quais o mal amanhado protagonista, contra tudo e contra todos, acabava sempre por prevalecer, Seguro parece condenado a sucumbir às primeiras flechas, confirmando o seu papel desmaiado de líder transitório, caminhando para o túmulo poeirento da História no qual nada é recordado, armado com o ténue conforto de que ali, pelo menos, saberá com o que contar.

 

Resta uma importante questão: quem terá a “honra”, entre o assustador friso de vilões socialistas, de dar a Seguro a paz misericordiosa pela qual, com aquele olhar desorientado, o próprio parece implorar? Uma análise superficial atira António Costa para o topo das preferências (talvez não de Arménio Carlos, agora inclinado para interlocutores mais… arianos), mas imagine-se o seguinte: Costa abdica de Lisboa e o PS perde a Câmara para Seara. Numa altura em que as malogradas conferências de imprensa de Gaspar parecem, cada vez mais, fazer parte do passado, estará o anafado edil na disposição de correr um risco que, se correr mal, mas mesmo muito mal, lhe pode custar a carreira política?