Afinal, passa-se algo.

Afinal, sempre vieram algumas personalidades, até de Esquerda, criticar as palavras de Arménio Carlos. Não me surpreende – apesar de tudo, acredito que em qualquer lado há gente com um módico de bom-senso.

 

Também não me espanta a desvalorização que gentes de Esquerda fazem do comentário de Arménio Carlos. Todas as áreas políticas possuem os seus desvalorizadores profissionais. Mas acho particular piada ao argumentário.

 

O soarista Vitor Ramalho disse não ver racismo. “Não é uma frase usual, mas serviu naquela situação para diferenciar, identificar, uma individualidade, ou seja, o elemento do FMI.” Não é de surpreender, vindo de quem vem e com a formação que teve, esta exibição de língua-de-pau.

 

Ana Avoila acusa o Correio da Manhã de “abuso de interpretação”, uma vez que “tirou as palavras da frase do contexto”.

 

O próprio Arménio Carlos afirma-se surpreso com a indignação despertada nas redes sociais: “(…) porque disse coisas muito mais importantes e pelos vistos só retiveram isso (…)”.

 

Dá-me especial prazer observar o ar amuado destes dois últimos. Os jornais, dizem os pobrezinhos, prestaram mais atenção ao potencial para polémica. Os adversários e comentadores, queixam-se, focam mais a gaffe. Mas talvez eu esteja a ser injusto. De certeza que, quando Manuela Ferreira Leite proferiu a tal piada sobre “a suspensão da democracia”, Vitor Ramalho, Ana Avoila, Arménio Carlos e outros que tais vieram a terreiro defender a senhora, chamando a atenção para a “retirada de contexto”, “o abuso de interpretações”, e o passado democrático de Manuela Ferreira Leite.

 

Karma is a bitch – não é, rapaziada?

No pasa nada

Vamos imaginar, por momentos, que um qualquer político activo da chamada “direita” se referia a António Costa como “um Presidente de Câmara mais escurinho”. Caía o Carmo e a Trindade: veríamos e ouviríamos a dicção de Assis, as sobrancelhas de Seguro, a neurose de Isabel Moreira, o desatino da doika do Bloco e, mais importante, vários comunistas, todos em uníssono e cada um à vez pedindo a demissão desse “direitolas-racista-neo-nazi”.

 

Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP, disse ontem ao discursar na manifestação de professores, que “Daqui a pouco vêm aí outra vez os três reis magos, um do Banco Central Europeu, outro da Comissão Europeia e o mais escurinho, o do FMI”. Como é alguém de Esquerda, insuspeito natural desses vícios reaccionários, no pasa nada.

Nada ficou provado

Parece que para um caso de corrupção ser punido em Portugal, é preciso que os corrompidos e corruptores declarem, em papel lacrado e com assinaturas reconhecidas por notário, que se corromperam. Pelo menos, é isso o que concluo desta notícia.

 

Foi encontrada, na casa de um dos arguidos, uma “avultada quantia de dinheiro” – mais de 70 mil euros. Isto, indício de corrupção? Claro que não, é só o dinheiro para as compras do supermercado.

A imaginação das crianças

O Calvin escrevia “Máquina do Tempo” numa caixa de cartão e esta tornava-se numa máquina do tempo; escrevia na caixa “Duplicador” e ela tornava-se num dispositivo de clonagem. É assim a imaginação das crianças – e é também assim a imaginação de António José Seguro.

 

Seguro passou eras “exigindo” crescimento ao Governo – por certamente pensar que bastava fazer um gráfico a subir para a realidade, por artes mágicas, o imitar. Depois “exigiu” emprego, como se bastasse imaginar empregos para estes aparecerem. Agora, pede uma maioria absoluta – como se apenas fosse necessário dizê-lo nos jornais para as pessoas deixarem de rir dele.

 

Seguro quer uma maioria absoluta para administrar o país. O problema para ele (espero eu!) é que, apesar de tudo, o português ainda se recorda do que foi o desgoverno socialista e do que é a completa falta de estratégia de Seguro – e não lhe dará nem uma maioria relativa para administrar o prédio.

ADSE – a granada de fragmentação do PS

O tema ADSE estilhaçou a estratégia que o nosso amigo Tó Zé tinha delineado para o PS: capitalizar as medidas difíceis que este Governo tem de tomar e, sem propor uma única medida ou alternativa digna desse nome, ganhar eleições. Álvaro Beleza saiu da toca e desafinou a orquestra.

 

Desde então, têm-se feito ouvir vozes de notáveis e menos notáveis do PS bradando a sua indignação perante tão vil posição. Aqui, claro destaque para José Lello, com um brilhante “a maioria dos funcionários públicos são eleitores do PS”. Sintomático. Desde que descobriu o Facebook, José Lello não mais parou de debitar as suas doutas opiniões. Talvez tenha passado ao lado de uma outra grande carreira, onde talvez, apesar de tudo, fosse mais contido nos disparates.

 

A tudo isto assiste o patrono indiscutível da família socialista, o adoentado Soares, confortavelmente acomodado numa cama fofinha do Hospital da Luz que tem, curiosamente, protocolo com a ADSE. Adoro quando os meus textos saem assim redondinhos.

O kama-sutra (2)

Esta questão da ADSE vem mostrar como o PS funciona. Álvaro Beleza, responsável do PS para a área da Saúde, defende o fim da ADSE. Carlos Zorrinho diz que isso é a opinião pessoal do seu camarada, não a posição oficial do partido. E eu questiono-me: como é que posso acreditar num partido que me propõe medidas coordenadas por alguém cuja opinião pessoal é diametralmente oposta a elas?

Pentangeli

Berardo diz que perdeu mais de 700 milhões de euros no BCP. Parece-me um engano: quem os perdeu foram os bancos que lhos emprestaram e já desistiram de os recuperar.

 

Aquilo que não é um engano é a lata de Joe Berardo:

 

Quando confrontado com questões sobre a origem da documentação que o levou, em 2007, a denunciar antigos gestores do BCP, o empresário alegou falhas de memória, chegando mesmo a afirmar que sofre de “dislexia”, ao ponto de trocar o nome à mulher quando a apresenta a terceiros.


Francesco Pentangeli não teria feito melhor.