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As nossas viúvas de Chávez

Há uma enorme diferença entre, a bem da realpolitik, proferir umas frases de circunstância a propósito da morte de Chávez:

 

Informado em primeira mão pelos jornalistas durante uma conferência de imprensa, Ban Ki-moon endereçou condolências à família e Hugo Chavez, ao povo e ao governo venezuelanos.


“Como Presidente da Venezuela fez as suas contribuições para o desenvolvimento do país”, declarou o secretário-geral das Nações Unidas, que prometeu uma declaração formal para mais tarde.

 

e aquilo que o nosso ex-querido-líder faz aqui:

 

“Uma vida de vontade, consagrada à acção e ao que esta tem de início, de surpreendente, de inatendido. Uma vida com os outros, ao lado dos outros, com a ambição da justiça própria de quem sempre teve uma visão optimista da natureza humana”, afirmou Sócrates na mensagem. Por outro lado, o antigo chefe do Governo português referiu-se também a “uma vida cheia de incertezas, de desafios e de riscos, própria de quem nunca temeu a responsabilidade da sua liberdade e da sua vontade”.

 

Para Sócrates, Hugo Chávez assumiu-se como “autor da sua própria biografia”, levando uma vida intensa, sempre optimista e confiante. É, ao recordar esta forma de viver, que o socialista acredita que o povo venezuelano encontrará aí “alívio e conforto para o seu sofrimento” e reforça que este “sentimento de tristeza” une os dois povos.

 

“Pela minha parte, apresento à sua família e ao povo venezuelano as minhas condolências e junto-me a eles na partilha da dor e no recolhimento que o seu desaparecimento tão prematuro nos provoca”, rematou.

0 aviões e 10 moscas

Li que no terceiro trimestre desembarcaram no Aeroporto de Beja – 0 passageiros.

 

Um aeroporto em Beja é um desafio à razoabilidade – curiosamente, obra de um governo cujo ministro das Obras Públicas ridicularizou em público a ideia de um aeroporto em Alcochete com o argumento de ser “um deserto”.

 

Um aeroporto que custou 30 milhões de euros e não tem passageiros, faz tanto sentido como um hospital sem doentes. A diferença, infelizmente para nós, é que este hospital pertence ao reino da ficção:

 

Oh Luis… assim fica melhor ou fica melhor assim?

Eu já antes comentei isto: quando se dá relevância às declarações de alguém, é jornalismo questionável não mencionar detalhes públicos sobre esse alguém que possam influenciar a interpretação que se lhes faz.

 

Há alguns dias, o jornal I fez um artigo sobre a organização da eventual manifestação de hoje à tarde. Nesse artigo, é-nos apresentado um dos responsáveis pelo manifesto da convocação, Luis Bernardo, como ex-jornalista.

 

Resumir o currículo deste sr. Luis Bernardo a “ex-jornalista” parece-me altamente redutor – e desinformativo. Luis Bernardo tornou-se ex-jornalista em 1997, mas tem no seu trajecto profissional alíneas muito mais recentes e que podem fazer-nos reinterpretar o seu papel nesta manifestação: Luis Bernardo foi o fidelíssimo assessor de imprensa de José Sócrates, o seu maior especialista de spin e o tal “Luis” do famoso:

 

 

Luis Bernardo era tão íntimo de Sócrates e da sua comitiva que foi enviado em Março de 2008 (a expensas do contribuinte?) para estudar in situ a campanha eleitoral de Zapatero – como preparação para a campanha das legislativas portuguesas, disputadas daí a um ano e meio(!!!). Luis Bernardo, que é militante do PS desde que saiu da adolescência, até se tornou jornalista por acaso: quando entrou para a TVI, era para escrever guiões (já então um ficcionista). Luis Bernardo é o ex-jornalista que não consegue conceber um jornalismo sem estar ligado a interesses políticos. Luis Bernardo é, afinal, o ex-jornalista que, desde que o deixou de ser, tem trabalhado como assessor para o Partido Socialista.

 

A repórter e a redação do jornal I não consideraram relevante para a notícia a referência a este rico currículo do ex-jornalista Luis Bernardo? Porquê? Será porque, se o fizessem, teriam forçosamente de perguntar:

 

O que faz o assessor de imprensa do Primeiro-Ministro que nos trouxe a troika na organização de manifestos intitulados “Que se lixe a troika”? Não acha haver aqui uma certa hipocrisia?

Um trabalho de Hércules

Embora seja um dos meus despeitos de estimação, Paulo Campos está longe de ser especialidade minha. Nunca me dediquei a mais do que breves investigações sobre casos pontuais do personagem, mas bastaram-me para entender um palmarés de pulharias tão vasto que uma carreira de jornalismo talvez não seja suficiente para abarcar na totalidade.

Saúdo, por isso, o inventário (não exaustivo) feito pel’O Triunfo Dos Porcos. Ler aquele desfilar de canalhices recordou-me algo que aprendi nos Verões da minha adolescência: à medida que escavamos num monte de esterco, o cheiro piora em ritmo exponencial.

 

Post-Scriptum: sim, aquela é a fotografia com que Paulo Campos se apresenta no site do Parlamento. Garanto que não retoquei um pixel que seja.

Até parece que seria novidade…

As não-notícias aborrecem-me. Isto é uma não-notícia: segundo o Tribunal de Contas, Sócrates terá arruinado a Saúde. E depois? Onde está a novidade? Porque havia a Saúde de ser imune ao flagelo socrático? Notícia será quando alguém descobrir algo que Sócrates não tenha deixado num desastre. Por exemplo:

 

Sócrates não deixa desastre na J.P. Sá Couto.

 

Em paralelo, continuo a questionar o papel do Tribunal de Contas. Em princípio, tribunal é um local onde se julga, onde se administra justiça. Ora o nosso Tribunal de Contas apenas parece julgar… as contas. Mas não seria interessante se, ao descobrir contas aldrabadas por velhacada ou desastrosas por negligência, também julgasse os seus [ir]responsáveis? Se não tem poderes para tal, devia ter. Se possui poderes para isso – alguém que lho diga, pois não o parece saber.

Retrato a cores e em alta resolução

Maria Filomena Mónica, em entrevista ao jornal I, quando questionada sobre o desempenho da oposição que vamos tendo, responde certeira e lapidar:

 

A oposição desapareceu. O PS não existe, nem sei o que é aquilo. O líder não tem carisma, não sabe o que há-de fazer, está condicionado pelo acordo com a troika. E sucede a um delinquente político chamado Sócrates, o pior exemplo que jamais, na História de Portugal, foi dado ao país: ir para Paris tirar um curso de “sciences po”, depois daquela malograda licenciatura – à qual não dou a menor importância, pois há muitos excelentes políticos que não são licenciados. O engenheiro Sócrates foi o pior que a política pode produzir. Depois de tantos processos em que mentiu, aldrabou, não depôs, ninguém percebeu o que se passou com o Freeport, os portugueses perguntam-se onde foi ele buscar dinheiro para estar em Paris. Quem é que lhe paga as despesas e o curso? A esquerda socialista tem ali este belo exemplar a viver no 16ème, e um sucessor que não inspira ninguém. O PCP vive num mundo antes da queda do Muro de Berlim, e o Bloco de Esquerda habita em Marte.

 

Só discordo em parte minúscula da formulação: Sócrates foi um delinquente político – mas também foi um político delinquente.