Revoluções a granel

Otelo Saraiva de Carvalho mostra-nos, aqui, posições curiosamente paradoxais, em especial esta:

“Quanto ao teor das suas declarações, que já provocaram polémica por serem entendidas como um apelo ao tumulto, o ‘militar de Abril’ defende que a ‘Revolução dos Cravos’ teve como um dos seus objetivos garantir-lhe precisamente esse direito: “O de poder dizer as alarvidades que eu quiser, porque o que eu digo é a minha opinião e, num país livre, eu não posso ser condenado por expressá-la”.

Examinando as palavras deste homem com alguma minúcia, esbarramos com a seguinte idiossincrasia: Otelo acha que um golpe militar lhe deu a liberdade para instigar outros golpes militares, ainda que a ideia seja classificada pelo próprio como uma “alarvidade”. Temos, aqui, um vislumbre da extrema complexidade intelectual deste homem. Uma pequena afirmação, que contém três ou quatro conceitos que se incompatibilizam e ridicularizam entre si. Otelo precisa de acordar do sono profundo em que entrou por alturas do PREC e do verão quente de 75 e perceber que a incitação ao tumulto e à insurreição seja de que sector da sociedade for é um crime grave, justamente punido por lei. Existe, no entanto, a muito provável atenuante da inimputabilidade…

Rudolfo, o jovem

Não resisto a deixar algumas palavras acerca do assunto, apesar do post do João.

 

Rudolfo, o jovem, e Sónia Patrícia, a mãe do jovem, protagonizaram, à saída do tribunal, uma cena digna de Rocambole. Após terem ouvido, por parte do colectivo, que o que afastaria Rudolfo, o jovem, da prisão seria um comportamento exemplar e destituído de violência gratuita (algo mais ou menos compreensível para qualquer símio), Rudolfo, o jovem, e Sónia Patrícia, a mãe do jovem (qual o nome modernaço-que-não-fere-susceptibilidades para delinquentes adultos?), agrediram uma jornalista que por ali estava fazendo o seu trabalho.

 

Prováveis beneficiários de um generoso RSI pago por todos nós, Rudolfo, o jovem, e Sónia Patrícia, a mãe do jovem, vão passeando a sua classe e civismo, cometendo aquilo a que alguns atribuem o engraçado epíteto de “pequenos crimes”, de uma forma praticamente impune, à luz dos princípios do famosíssimo estado social e do infinito guarda-chuva da promessa de reabilitação e reinserção social.

 

Não quero que o dinheiro proveniente dos meus descontos para a Segurança Social sirva para habilitar, reabilitar, integrar, reintegrar, inserir ou reinserir seja o que for parecido com esta mole humana incorrigível. Faça-se o que se puder, que se dê apoio a quem o merece.

“105 likes”

Agressores do vídeo no Facebook condenados a pena suspensa:

 

Segundo o juiz-presidente, o tribunal teve em consideração a idade dos arguidos e as infâncias em ‘meios desfavorecidos’, julgando que a ‘simples ameaça de prisão’ será suficiente para que estes jovens não voltem a cometer crimes.

 

Confesso que isto sabe-me a pouco. Não estamos a falar de uns empurrões, um estalo na cara ou uma maçã furtada de uma mercearia. Eu vi o vídeo: achei-o digno de um episódio dos Sopranos, demonstrando “um grau de desprezo pela pessoa humana que deixou atónito o tribunal“. Penso que a estes jovens de “meios desfavorecidos” (no meu tempo, seriam chamados “delinquentes”) devia ter sido oferecida uma estadia, em regime de pensão completa, de pelo menos uma semana na cadeia, para terem uma verdadeira noção da realidade que os espera – e de um conceito entretanto caído em desuso: sofrer a consequência dos actos.

 

Agora, para terminar num registo mais leve, vejamos em sequência estes três excertos da notícia:

 

(...) o tribunal [julga] que a “simples ameaça de prisão” será suficiente para que estes jovens não voltem a cometer crimes. José Lopes Barata alertou os arguidos de que, caso as expectativas do colectivo sejam defraudadas, “as penas serão cumpridas”.

 

O advogado do jovem que filmou as agressões também se mostrou satisfeito com a decisão (…). Carlos Viegas declarou-se confiante de que o jovem “tem perfil” para melhorar.

 

Após a leitura do acórdão, e à saída das varas criminais, o jovem agrediu uma jornalista que se encontrava no local com um pontapé, tendo sido ajudado pela mãe.

 

Vê-se que o jovem “tem perfil” para melhorar. O jovem está, realmente, cheio de perfil para melhorar. Nota-se que “a simples ameaça de prisão” foi suficiente para este jovem abraçar uma vida de ética e responsabilidade. Eu só gostaria de saber se agredir a pontapé uma jornalista, minutos depois de o tribunal ter afirmado que as penas seriam cumpridas no caso de as expectativas do colectivo serem defraudadas – é defraudar as expectativas do colectivo.

O palerma do laço

Baptista Bastos dá-nos, aqui, mais um exemplo da sua desconcertante desonestidade intelectual. Fala de assaltos à democracia, fala de desrespeito pela concertação social e pelos vetustos sindicatos, atira-se ao PSD e atira-se ao PS e diz coisas como esta:

As ordens procedem de fora. E as rodas dentadas da grande engrenagem movem-se através dessas cumplicidades ocultas. Lenta mas perseverantemente foram roubando o nosso já de si tão ausente protagonismo. Deixámos, há muito, de decidir o nosso destino; mas, pelo menos, possuíamos uma noção de presente, por obscuro que fosse.

Opinador de outros tempos e de outras vontades, Baptista Bastos mostra-nos como não abordar o problema, incitando a uma revolta revivalista não se sabe de quem nem contra o quê. É, como sempre foi, um intelectual situacionista que agora, sentado na poltrona, aconchegado pelo calor da lareira, se afirma anti-situacionista. Atiça os mastins a partir da sua posição de “líder de opinião” e assiste, de um ponto bem alto, ao triste espectáculo que se vai desenrolando na proto-sociedade portuguesa. O mesmo fizeram, a seu tempo, Cómodo e Calígula, embora se deva ressalvar a diferença abissal, em termos de pegada histórica, entre os romanos e o palerma do laço.

Sair do armário

Fernando Nobre veio assumir publicamente aquele que era o segredo mais mal guardado desde a profissão de James Bond: é membro da maçonaria.

 

Eu, francamente, quase começo a ter pena de António José Seguro. Ele vê nulidades políticas como Fernando Nobre pertencentes à maçonaria e deve-se estar a questionar “Quão medíocre serei eu para nenhuma loja querer nada comigo?”

Compulsão

Eu tento. Eu juro que bem tento, até por não querer transmitir a ideia errada de Sócrates ser uma qualquer fixação minha. Mas leio notícias como esta publicada no jornal I… e os textos quase se escrevem por si próprios.

 

O que foi que me despertou a atenção? Não foi a disponibilidade de Sócrates para testemunhar. Nem sequer foi o pormenor (de conhecimento geral) de ter como advogado Daniel Proença de Carvalho – a imagem viva de Mefistófeles.

 

Não. O que me intrigou foi este parágrafo:

 

Proença de Carvalho alega que só tomou conhecimento de que Sócrates devia ser ouvido hoje pela comunicação social, na passada sexta-feira, motivo que o levou a enviar domingo um fax para o tribunal a comunicar que o ex-primeiro-ministro, a residir em Paris, não podia comparecer hoje nem terça-feira no Tribunal do Monsanto, Lisboa.

 

Esta gente parece ter uma estranha compulsão para resolver os seus problemas com faxes domingueiros.

(Falta de) Legitimidade

António José Seguro reage aos novos nomes indicados para os órgãos sociais da EDP. Entre outras coisas, afirma que deve existir uma “fronteira entre a política e os negócios”.

 

Seguro ainda não percebeu que se candidatou e foi eleito secretário-geral do PS? E que devia existir um período de nojo, com duração nunca inferior a 12 anos, durante o qual o PS – qualquer pessoa do PS! – se devia abster de criticar putativas promiscuidades entre política e negócios – por manifesta falta de legitimidade?

 

Ou Seguro não estava cá quando a Mota-Engil desencantou Jorge Coelho? Estaria de férias aquando da OPA da Sonae à PT? Perdeu os óculos e não viu a negociata BCP via CGD, o mais repugnante exemplo de ingerência de um partido nos negócios, que colocou o não menos repugnante Armando Vara na administração do maior banco privado português?