Sol, sol, sol, sol, sol…

Eu estou cá na minha de que a culpa disto recai no Acordo Ortográfico. Com a ideia peregrina de retirar as maiúsculas às estações, o Inverno sente-se despromovido. Ao ver-se simplesmente inverno, entrou numa crise de identidade e já não sabe o que é suposto ser. Esqueceu-se da chuva, esqueceu-se dos nevoeiros, parece até ter-se esquecido das geadas que cobriam as bermas. Apenas nos dá estas manhãs razoavelmente frescas e tardes confortavelmente amenas.

O mundo de pernas para o ar?

A Igreja não se mostra particularmente preocupada com a hipotética não-concessão de tolerância na Páscoa e/ou no Natal. Vou estalar de riso se, na altura, a Esquerda caceteira tomar a posição contrária. Afinal, seria o cúmulo da hipocrisia: a Esquerda, que se pauta pela separação entre o Estado e a Igreja, a defender a atribuição de dias aos funcionários do Estado para a celebração de feriados religiosos.

 

Mas talvez eu esteja a deixar-me guiar pelo meu cinismo. Talvez, na altura, a Esquerda tome uma posição adulta. Nunca é tarde para se começar.

Tiro-lhe o chapéu

Vasco Graça Moura dá ordem aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico e para que os conversores sejam desinstalados de todos os computadores da instituição.

 

Mal li que Graça Moura ia para o CCB, questionei-me sobre o que ele faria em relação ao AO. Eis. Embora seja legítimo questionar se VGM terá o direito de impor a sua posição pessoal num assunto que é, supostamente, letra de lei, aprecio infinitamente o gesto. E agora, fico à espera dos próximos episódios.

Os anti-Midas

BCP, BES e CGD já desistiram de recuperar dívidas de Joe Berardo. Perdas já foram provisionadas e reflectidas nos respectivos balanços. (…) Recorde-se que o comendador Joe Berardo recorreu a um crédito de mil milhões em 2007 junto da CGD, então administrada por Santos Ferreira e Armando Vara (…)

 

Quer gostemos disso, quer não, Joe Berardo é o perfeito exemplo de um certo tipo de português: saloio, espertalhaço e que se alcandora à base de esquemas. Quando este tipo de pessoa alcança “sucesso”, exibe-o com uma falta de gosto atroz, seja na maison apalaçada com que assassina a paisagem, seja no consumo extravagante de quem confunde abundância com estilo.

 

Foi, pois, com total naturalidade que formou com José Sócrates uma aliança tácita evidente em diversos episódios (CCB, PT, BCP). Eles eram duas almas gémeas destinadas a entenderem-se: duas bolhas de ego, dois escavadores de buracos.

 

O BCP, para entrar no qual Berardo conseguiu, graças à sua parceria com a máfia socrática, financiar-se em mil milhões de euros (1.000.000.000!!!), está-se a desagregar valendo uma magra fracção daquilo que valia na altura. A colecção Berardo afundou o Centro Cultural de Belém na semi-irrelevância. Até a outrora orgulhosa Papelaria Fernandes, na qual ele meteu as mãozinhas gananciosas, agoniza lentamente.

 

O problema destes chicos-espertos é que o seu sucesso, em acontecendo, se baseia num instinto de desenrascanço e de pulhice em vez de num pensamento estruturado. Se a sorte acaba, eles e os seus esquemas revelam-se como aquilo que são: bluffs que, ao explodirem, deixam uma paisagem de destroços. E até nisto Joe Berardo e José Sócrates são almas gémeas.

Mudam-se as moscas…

Decorre, por estes momentos, o congresso da CGTP. Carvalho da Silva despede-se (?) do cargo de líder sindical depois de 35 anos de uma brilhante carreira… de nada. A um sindicalista devoto e profissional, comunista e católico (assim o definiu a RTP), nada mais se lhe reconhece, como contributo social, económico ou qualquer outro, do que a instigação à agitação social gratuita e a organização de manif’s vermelhas a descer a Avenida. Parece ser esta a fórmula mágica para ser um sindicalista de carreira em Portugal: pôr a cassete a tocar e sair para a rua, de cartazes na mão. Em sede própria, nem uma proposta aproveitável.

 

Perante aquilo que seria uma oportunidade para mudar de rumo e colocar o sindicalismo português na senda do excelente trabalho feito por sindicatos em alguns países da Europa, a CGTP adopta a postura que qualquer organização de matriz comunista tem adoptado ao longo da história de erros que tem sido o comunismo no Mundo: assobiar para o lado, cerrar fileiras e ensimesmar-se. Arménio Carlos parece ser mais do mesmo ou pior: um sindicalista encartado com um percurso profissional totalmente desconhecido, fiel seguidor da doutrina comunista desde há 30 anos (não é díficil, está exactamente igual), cego às importantes mudanças sócio-económicas que o planeta atravessou nas últimas décadas, prepara-se para manter a pesada intersindical de cachaço erguido e pêlo eriçado, rosnando à sociedade que vai calmamente passando por si.

Falta de Tino

Como eu escrevi há atrasado, até recentemente não sabia quem era Raquel Freire. Mas ela existe, claramente existe. Via o União de Facto, fui ter a este pedaço de entrevista que a realizadora “transgressora” deu à Actual/Expresso em 2008. Um pequeno excerto:

 

P: É heterossexual ou homossexual?
R: Sou pan-sexual.

 

Não, ela não é pan-sexual. Ela é pan-lerma.

 

Agora, que fique claro: eu sou o primeiro a defender que alguém tenha a liberdade de dizer as pa(n)lermices que quiser, em relação ao que quiser: temos mais facilidade em desdizer ou refutar as palermices de alguém ditas em claro do que se fossem proferidas no recolhimento de um sótão. O que me questiono é que critério editorial, ou que provas dadas por Raquel Freire no passado, justificaram a sua contratação para usar uma rádio pública de informação, paga com dinheiros públicos, como plataforma para espalhar a sua palavra. Ainda se fosse a Antena 3, que não pretende ser mais do que entretenimento…

 

É que o que não falta por aí é gente mais articulada e com coisas mais interessantes para dizer: Tino de Rans, por exemplo.