Luta de poder

A demissão do Conselho de Redacção do Público com convocação de eleições não tem a ver com jornalismo: é pura luta de poder. A começar pelo argumentário da “clarificação” e “legitimação”, tão usados nos partidos políticos e clubes de futebol quando o objectivo é asfixiar a oposição interna antes que esta adquira suficiente massa crítica.

 

Já antes manifestei a minha estranheza pelas razões que levam um grupo como a Sonae a sustentar estas brincadeiras. Espero enganar-me, mas o outrora jornal de referência Público arrisca-se a seguir o mesmo caminho que a defunta A Capital.

Citação

Como avalia os governos de Sócrates?

A experiência destes governos representa um fracasso com custos relevantes para o país, ainda que motivado por algumas ideias estimáveis. A principal falha foi, sem dúvida, a política eleitoralista seguida em 2009. Em vez de iniciar, a tempo e horas, o ajustamento, o governo centrou-se em aumentos de salários e baixas de impostos, apenas porque havia eleições. Em 2010 o governo não percebeu a dimensão da perda de credibilidade daí resultante e demorou cerca de um ano – de negação da realidade em negação da realidade – a reconhecer a necessidade e a pedir a ajuda externa, em Abril de 2011.

 (entrevista de Augusto Mateus ao jornal I, publicada hoje)

O período de nojo

António José Seguro relembrou ontem ter apresentado uma proposta que obriga os espiões a fazerem um período de nojo de cinco anos entre a saída dos serviços e a entrada numa empresa privada.

 

Ok, eu compreendo onde ele quer chegar com isto. Mas a minha questão é: e o que fazem os ex-espiões durante esses cinco anos? São colocados em empresas públicas? São postos nos serviços do Fisco? Vão passar esses cinco anos numa ilha deserta do Pacífico, sustentados pelo erário público? Está Seguro a invocar clássicos da ficção-científica e planeia armazéns de espiões em “animação-suspensa”?

 

Como todo o político que nunca fez nada sem ser política ou a gravitar à volta da política, António José Seguro não tem noção do tempo que cinco anos representam…

Comunista sofre

Um estudo realizado em Coimbra mostra que quem mais sofre com eventuais sobrecargas de trabalho são as mulheres e, pasme-se… indivíduos que seguem ideologias de esquerda.

 

Não deixa de ser paradoxal o efeito que uma carga excessiva de trabalho exerce sobre o bem-estar dos fiéis seguidores vermelhos. Paradoxal porque, sempre que um acidente lhes permite chegar ao poder num qualquer país que, fruto das circunstâncias, se encontra sem rei nem roque, impõem cargas de trabalho absolutamente monstruosas e, por sinal, não muito bem remuneradas, aos povos desses países. Como em tudo, nisto o bom comunista é hipócrita: trabalhar muito é bom… mas para os outros!

Um pouco de ultra-violence

Vejamos então se eu percebi isto…

 

Numa escola de Marco de Canaveses, uma aluna de dez anos foi agredida por um colega da mesma idade. Este terá partido uma raqueta na cabeça dela e, como não estivesse ainda satisfeito com a sua performance (ou talvez com a qualidade da raqueta…), usou uma segunda para continuar a agressão; puxou-lhe o cabelo, atirando-a ao chão; e pontapeou-a repetidamente na barriga.

 

A encarregada de educação da alegada vítima afirma que já na véspera a filha tinha sido agredida. Aliás, parece que esta fixação já vem desde os tempos do infantário! (Daqui por uns anos, ainda vamos ouvir falar muito deste jovem.)

 

Repararam que eu escrevi no parágrafo anterior “alegada vítima”? Foi um exercício de ironia. É que estou certo de, algures, haver um lírico rousseauniano pronto a dizer que o rapaz (o lírico certamente diria “menino”) é tão ou mais vítima: da sociedade, de um lar problemático, de uma má economia – talvez até das medidas de Nuno Crato. Vítima de tudo excepto, talvez, de uma sociopatia latente.

 

A realidade, contudo, é que passado um mês e meio, a escola ainda não decidiu se vai ou não agir contra o alegado agressor! “Está a decorrer um inquérito, tenho de aguardar”, diz o director da escola. Seis semanas para inquirir se um miúdo de dez anos pontapeou a barriga e partiu raquetes na cabeça de uma colega? Seis semanas? Porquê tanto tempo, estarão a ser analisadas escutas, computadores, filmagens? Estarão a ser feitas análises de ADN?

 

A realidade, repito, é que passadas seis semanas daquilo que já seria uma agressão brutal entre adolescentes no 12º ano – quanto mais entre miúdos de dez anos -, o (ir)responsável da escola acha que não há lugar à suspensão preventiva do agressor!

 

E aqui está: uma história real do nosso sistema de ensino, entre miúdos de 10 anos, que pode servir de metáfora para tudo o que está mal no nosso sistema judicial.

As lojas

Em grande medida, eu já desisti de encontrar sentido em toda esta novela Secretas/Relvas/Jorge-Silva-Carvalho/Ongoing. No meio da “informação” que é vertida copiosamente no espaço público, estou certo de haver desinformação em proporção semelhante. Aliás, todos estes dados formam um novelo tal que, provavelmente, a única instituição com ferramentas para a sua análise – é o SIS.

 

O largo exercício de hipocrisia, contudo, é daqueles que se vêm mostrar muito chocados por esta hipotética promiscuidade Secretas/Poder Político. Agem como se só agora isto existisse ou tivesse sido descoberto – quando um dos segredos mais mal guardados (e nunca seguidos) nas redacções dos jornais era o de que José Sócrates receberia, nas vésperas dos debates, relatórios das Secretas sobre os seus adversários de ocasião.

 

Já desde pelo menos o consulado socrático que reinava a convicção de que os serviços secretos teriam uma nova função na hierarquia estatal: a de super-assessoria política de alguns governantes. Na verdade, a única novidade que (cada vez mais) se parece aclarar com este episódio é a profundíssima influência que a Maçonaria consegue exercer nos círculos do poder. Sabia-se por intuição, sim – mas não me recordo de alguma vez presenciar tal desfile de nomes, datas e lojas.

A novela Relvas

Temos assistido, nas últimas semanas, ao desenrolar da novela Relvas.

 

Desde o seu início, todo o tipo de personagens, algumas mais sinistras do que outras, têm passado pelos holofotes para dar a sua valorizada opinião. De Seguro a Marcelo, de Zorrinho a Louçã, de Jerónimo a Capucho, todos se têm mostrado extremamente interessados no assunto. Alguém que aterre agora no rectângulo ou alguém que tenha andado incrivelmente distraído nos últimos anos até pode pensar que episódios com secretas, tráfico de influências e outras acrobacias do género são caso virgem em terras lusitanas.

 

De facto, para que este bolo não fique sem cereja no topo, falta apenas aventar a opinião do Pinóquio e do Cardeal Richelieu da política portuguesa, Mário Soares.