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Foi bonita a festa

Vieram a público mais informações sobre as obras da Parque Escolar. Em particular, nas escolas Passos Manuel e D. João de Castro.

 

A empreitada no Passos Manuel custou mais de 23 milhões de euros, quando o estimado inicialmente era de cerca de 16 milhões. Faço as contas de cabeça e dá-me um deslize de cerca de 50%. O trivial, portanto.

 

Mais excertos: “trabalhos a mais sem justificação, que fizeram disparar o custo em mais 13,2% do que o previsto inicialmente”; “inúmeras desconformidades entre o que foi contratado com a empresa HCI Construções e aquilo que foi efectivamente executado”; “violação do regime legal de fiscalização prévia já que os contratos não foram sido submetidos à aprovação do Tribunal de Contas”. É um léxico que se repete: desconformidades, violação, ilegalidade, indevido.

 

O TC refere também que a Parque Escolar pagou cerca de 640 mil euros à empresa construtora “a título de ‘margem’ de 25% sobre os orçamentos dos empreiteiros/fornecedores”. A Parque Escolar pagou 640 mil euros “a título de margem de 25%”? Isto quer dizer que a Parque Escolar achou por bem oferecer uma margem de 25% sobre os orçamentos dos empreiteiros, que obviamente (para mim, mas eu não sou seguramente nenhum génio) já deviam ter a sua própria margem de lucro?

 

Se formos ao site da empresa HCI Construções, que é referida na notícia, vemos que ela se anuncia nestes termos:

 

A HCI Construções, S.A. orgulha-se de ser uma das empresas mais estáveis e prósperas do sector de Construção, nomeadamente, na Reabilitação e Remodelação de Edifícios.

 

Rentável e próspera? Pudera…

 

Ao longo do nosso percurso fomos crescendo sempre atentos à realidade que nos envolve, com interesse pela evolução do mercado e empenho na construção do futuro… sempre que possível, antecipando-o. Assim alcançámos a posição que hoje ocupamos.

 

“Atentos à realidade”, “com interesse pela evolução do mercado”, “sempre que possível, antecipando”. Parece evidente que sim, a empresa tem estado com imensa atenção “à realidade” e que “antecipa” bastante bem “a evolução do mercado” – com lobbying.

 

Mas acho particular piada a este parágrafo da notícia:

 

Para a climatização foram pagos mais de dois milhões de euros, mas conforme a auditoria apurou os equipamentos estão desligados “dadas as dificuldades orçamentais da escola face ao aumento das despesas de funcionamento, o que contribuiu também para a falta de qualidade do ar nas salas de aulas, por inexistência de ventilação natural”.

 

Tem-se um ar condicionado caríssimo, mas quando não há dinheiro para ele – também não há ventilação natural porque esta tem de ser afectada para que aquele seja instalado. Isto é todo um retrato do homo-socraticus: preocupação com as aparências, se necessário a expensas de tudo o resto. É como comprar um plasma de 50 polegadas para ver televisão – e depois não ter dinheiro para o serviço da Zon.

 

Maria de Lurdes Rodrigues disse que a Parque Escolar foi uma festa. Mais do que uma festa, eu diria que foi uma farra. Aliás, mais do que uma farra, eu chamaria a isto um autêntico bacanal. E como em qualquer bacanal que se preze, há aqueles que fodem e aqueles que são fodidos.

Um pouco de ultra-violence

Vejamos então se eu percebi isto…

 

Numa escola de Marco de Canaveses, uma aluna de dez anos foi agredida por um colega da mesma idade. Este terá partido uma raqueta na cabeça dela e, como não estivesse ainda satisfeito com a sua performance (ou talvez com a qualidade da raqueta…), usou uma segunda para continuar a agressão; puxou-lhe o cabelo, atirando-a ao chão; e pontapeou-a repetidamente na barriga.

 

A encarregada de educação da alegada vítima afirma que já na véspera a filha tinha sido agredida. Aliás, parece que esta fixação já vem desde os tempos do infantário! (Daqui por uns anos, ainda vamos ouvir falar muito deste jovem.)

 

Repararam que eu escrevi no parágrafo anterior “alegada vítima”? Foi um exercício de ironia. É que estou certo de, algures, haver um lírico rousseauniano pronto a dizer que o rapaz (o lírico certamente diria “menino”) é tão ou mais vítima: da sociedade, de um lar problemático, de uma má economia – talvez até das medidas de Nuno Crato. Vítima de tudo excepto, talvez, de uma sociopatia latente.

 

A realidade, contudo, é que passado um mês e meio, a escola ainda não decidiu se vai ou não agir contra o alegado agressor! “Está a decorrer um inquérito, tenho de aguardar”, diz o director da escola. Seis semanas para inquirir se um miúdo de dez anos pontapeou a barriga e partiu raquetes na cabeça de uma colega? Seis semanas? Porquê tanto tempo, estarão a ser analisadas escutas, computadores, filmagens? Estarão a ser feitas análises de ADN?

 

A realidade, repito, é que passadas seis semanas daquilo que já seria uma agressão brutal entre adolescentes no 12º ano – quanto mais entre miúdos de dez anos -, o (ir)responsável da escola acha que não há lugar à suspensão preventiva do agressor!

 

E aqui está: uma história real do nosso sistema de ensino, entre miúdos de 10 anos, que pode servir de metáfora para tudo o que está mal no nosso sistema judicial.