O biltre

Paulo Campos, pobrezinho, diz que era um humilde Secretário de Estado e que a responsabilidade no escândalo das PPP foi partilhada (e tutelada) pelos Ministros das Finanças (Teixeira dos Santos) e das Obras Públicas (António Mendonça). E pelo próprio José Sócrates que presidia ao Conselho de Ministros.

 

Este Paulo Campos tem tudo para ser um sucessor de Armando Vara. Parece estar omnipresente em qualquer questão mais dúbia que envolva o anterior Governo e/ou o Partido Socialista. Nem por acaso, nesta reportagem de 2009 do Expresso sobre a farsa Magalhães, lá aparece o nome dele…

 

Eu tenho um particular asco por estas eminências pardas. Raramente tomam a linha da frente. Ficam-se por uma Secretaria de Estado, não são eles que assinam os papéis decisivos nem são eles que aparecem nas televisões. Mas são quem realmente gere a casa. São eles os olhos e ouvidos do chefe supremo, são eles a sua correia de transmissão. São eles que dão ordens ao pessoal, são eles que negoceiam os esquemas e planeiam as trafulhices. Ao fim do mês, apresentam as contas ao Ministro e uns papéis para ele assinar. E quando se trata de documentos que fedem à distância, como estas PPPs deviam feder, atafulham-nos no meio da última de quatro caixas com papelada que entregam ao ministro para que ele reveja e assine durante a noite.

 

E claro, quando se sentem acossados, cobardes como sempre são, tentam fugir, escorregadios como enguias.

 

Conhece-se uma história cinzenta, um contrato que favorece um amigalhaço, um tráfico de influências – e revirando bem as pedras, descobre-se sempre uma eminência parda lá escondida, de rabo espetado como um lacrau. Pois que se faça o mesmo que se faz aos lacraus.

Até parece que seria novidade…

As não-notícias aborrecem-me. Isto é uma não-notícia: segundo o Tribunal de Contas, Sócrates terá arruinado a Saúde. E depois? Onde está a novidade? Porque havia a Saúde de ser imune ao flagelo socrático? Notícia será quando alguém descobrir algo que Sócrates não tenha deixado num desastre. Por exemplo:

 

Sócrates não deixa desastre na J.P. Sá Couto.

 

Em paralelo, continuo a questionar o papel do Tribunal de Contas. Em princípio, tribunal é um local onde se julga, onde se administra justiça. Ora o nosso Tribunal de Contas apenas parece julgar… as contas. Mas não seria interessante se, ao descobrir contas aldrabadas por velhacada ou desastrosas por negligência, também julgasse os seus [ir]responsáveis? Se não tem poderes para tal, devia ter. Se possui poderes para isso – alguém que lho diga, pois não o parece saber.

A Morte É Um Acto Solitário

Numa conversa de há um punhado de anos, eu dizia não haver desculpa para as asneiras que estavam sendo cometidas. Em não sendo propositadas, só poderiam resultar da falta de cultura, pois ou já nos tinham sido contadas pela História, ou já tinham sido antecipadas pelas distopias da Literatura.

 

Releia-se Fahrenheit 451: Bradbury mostrou-nos, com décadas de avanço, a estultização do entretenimento, o emagrecimento da informação e a nivelação por baixo do ensino – e o tipo de “igualdade” que isso gerava.

Dizer que Ray Bradbury foi um grande escritor de ficção científica é redutor. Bradbury foi um grande escritor – ponto final.

Relvas na Visão

Entretanto, a Visão online, também pertencente ao universo de Balsemão, di-lo – mas sem direito a fotografia.

 

O título é esclarecedor: “Ex-empresa de Relvas sob suspeita“

 

O resumo é reforçador: “A Finertec, empresa que Miguel Relvas administrou, até Maio do ano passado, foi investigada na Operação Furacão”.

 

Enterrado no meio do artigo: “Os factos em investigação remontam a 2006, dois anos antes da entrada em funções de Miguel Relvas“.

 

Uma bela guerrinha, esta que Relvas arranjou.

Relvas no Expresso

O Expresso online noticia gulosamente que a Finertec, empresa que Miguel Relvas administrou durante algum tempo, foi investigada por fraude e evasão fiscal. É certo que não diz se os factos suspeitos se passaram durante a administração de Relvas – o que é um pequenino detalhe.

 

Mas aquilo que verdadeiramente me chamou a atenção para o artigo foi a foto que o ilustra: Miguel Relvas ao telefone com cara de mau.

A subtileza desta escolha editorial…

José Gomes Ferreira

José Gomes Ferreira diz que todos são coniventes: Secretários de Estado que negociaram os contratos ruinosos; Ministros que assinaram os contratos que sabiam ruinosos; e até o Presidente que promulgou sabendo que eram contratos ruinosos e aldrabados. Ou seja, coniventes por acção e inacção.

 

E não lhe nego legitimidade na argumentação. Só que segundo esta linha de pensamento, o próprio José Gomes Ferreira pode ser, então, acusado de conivência por inacção. Enquanto Sócrates aparentava força, Gomes Ferreira pouco mais fez do que retransmitir os números do Governo sem verdadeiramente questionar os métodos, a irrealidade das projecções ou o eleitoralismo das medidas (embora sem cair, reconheço-o, na sabujice de Peres Metello). Ou seja, retransmitiu sem escrutinar como seria expectável de um editor de Economia. A única rebeldia que se permitiu, uma vez por outra, foi dar tempo de antena a Medina Carreira – mas quase sempre como um mestre-de-cerimónia que exibe um circo de aberrações.

 

Por isto, a sua indignação, que se foi tornando mais visível quando se percebeu que o governo Sócrates estava com os dias contados e a bancarrota Sócrates no início dos seus dias, parece-me tardia – mesmo que correcta.

Um retrato do socratismo

Aos 4:07, José Gomes Ferreira faz um retrato do socratismo:
 


Houve aqui um cinismo tão grande na construção destes contratos… Clara, deixa-me só dizer-te isto: aquele gráfico que vimos, com o impacto financeiro daquelas irresponsabilidades, levou a que até 2013 (ainda estamos em 2012) a factura não era muito alta, andava relativamente baixa; e a partir de 2013 aquilo dispara. Quem imaginou isto em 2005? Um Governo – um Partido e um Governo que pensavam ficar no poder durante duas legislaturas, acabavam no final de 2012. Isto é de um cinismo e de uma frieza atroz.