A presunção de inocência – por medida

A ERC votou o caso Relvas como eu já esperava: os nomeados pelo PS queriam-no punir e os nomeados do PSD queriam-no ilibar. Dá vontade de perguntar o porquê de a ERC existir. Podia ser substituída com economia de meios por uma calculadora.

 

Entretanto, o Público fala no assunto… Público. Acho sempre interessante quando um jornal é notícia de si próprio. Bárbara Reis, directora, diz que

 

“(…) a ERC dá por provado apenas aquilo onde existe uma coincidência entre as partes. Em tudo o que não há rigorosa coincidência, a ERC dá por não-provado. Ora, isto não faz sentido pois é aí que está, justamente, o âmago da questão – houve ou não pressões inaceitáveis do ministro Miguel Relvas sobre o PÚBLICO? Mantemos que sim, como de resto desde o primeiro momento.”

 

Traduzindo por miúdos, a directora do Público diz que a ERC dá razão ao jornal em tudo o que foi possível apurar como prova; quando houve conflito de versões, e não sendo possível apurar para lá de qualquer dúvida o que aconteceu na realidade, a ERC optou por ilibar o acusado; e a directora Bárbara Reis achou mal.

 

Ora eu, vá lá saber-se porquê, sempre achei interessante como a “presunção de inocência” é considerada um valor civilizacional ou um empecilho – conforme os seus recipientes. No caso Relvas, a directora Bárbara Reis pretendia isto: há conflito de versões, é a palavra de um contra a palavra de outro, não é possível obter provas, logo a ERC devia acreditar piamente em si e considerar Relvas um supino mentiroso, logo Relvas é culpado. Porque os jornalistas de política são seres impolutos e a sua palavra deve ser considerada letra de lei.

 

Um dos meus problemas com um certo tipo de jornalista é que, intimamente, todos querem o seu Watergatezinho pessoal.

Os novos cangaceiros?

Trabalhar no Fisco passou a ser considerado um trabalho de alto risco. Por isso, o Sindicato dos Trabalhadores dos Impostos está a organizar cursos de defesa pessoal e manuseamento de armas de fogo. Aparentemente, há mesmo funcionários que pretendem andar armados.

 

Funcionários do Fisco com armas. Como se fosse preciso dar mais argumentos ao contribuinte que se está a queixar (até agora metaforicamente) de “assalto à mão armada”…

Um trabalho de Hércules

Embora seja um dos meus despeitos de estimação, Paulo Campos está longe de ser especialidade minha. Nunca me dediquei a mais do que breves investigações sobre casos pontuais do personagem, mas bastaram-me para entender um palmarés de pulharias tão vasto que uma carreira de jornalismo talvez não seja suficiente para abarcar na totalidade.

Saúdo, por isso, o inventário (não exaustivo) feito pel’O Triunfo Dos Porcos. Ler aquele desfilar de canalhices recordou-me algo que aprendi nos Verões da minha adolescência: à medida que escavamos num monte de esterco, o cheiro piora em ritmo exponencial.

 

Post-Scriptum: sim, aquela é a fotografia com que Paulo Campos se apresenta no site do Parlamento. Garanto que não retoquei um pixel que seja.

Como uma criança

Os jornais foram ontem, como cachorrinhos amestrados, ouvir Mário Soares expor a sua solução para a crise: “Actual crise seria resolvida se Europa fabricasse moeda. (…) E a partir daí os problemas estão resolvidos“.

 

Devo começar por dizer que, para mim, ouvir Mário Soares falar de economia ou finanças é um pouco como ouvir o palhaço Batatinha falar de moda masculina.

 

Mas a frase de Soares traduz todo o seu pensamento(?) económico. Soares é o homem providencial das soluções fáceis, óbvias e indolores – tal como uma criança. E claro, Merkel é a culpada dos problemas que temos, Merkel que o nosso Soares acusa de “não ter visão nenhuma do mundo“.

 

Ora acontece que é facílimo ter-se “visão do mundo” quando se possui uma fundação manhosa sustentada em grande parte pelo erário público para empregar a família. Tal como é fácil ter-se “visão do mundo” quando se pode dizer aos polícias que “o Estado é que vai pagar as multas”. Para Soares, tal como para as crianças, é tudo fácil: basta fabricar dinheiro. Transpondo a teoria económica de Soares para uma família, se o ordenado é demasiado baixo para trocar o Corsa velho por um BMW novo, liga-se o computador e imprimem-se notas. E a partir daí os problemas estão resolvidos.

Memória de elefante

Soares, na sua homilia semanal do DN, continua a dar largas à sua demagogia. 

 

Lá para o final do artigo, Soares escreve:

 

François Hollande não perdeu tempo desde que ganhou as eleições presidenciais. Falou com a Senhora Merkel, no próprio dia da sua investidura, e não teve papas na língua.

 

Sempre gostei desta forma de estar hipócrita da auto-chamada Esquerda. É bom recordar que foi Hollande quem viajou até à Alemanha no dia da sua posse, o que é um bom indicador de quem detinha a posição de força. Aliás, Hollande estava tão ansioso que teve problemas no avião, regressou à França e, mesmo assim, voltou a encetar caminho.

 

Tivesse isto acontecido com um governante de Direita, o velho Soares não se coibiria de espetar o dedinho bem nutrido e acusá-lo de ir, subalterno, apresentar rapidamente os seus respeitos “à dona”. Como Hollande se apresenta de Esquerda, já é alguém “sem papas na língua”.

 

Mas o princípio do sermão de Soares também é interessante:

 

Um ano depois de o actual Governo ter entrado em funções, todos os portugueses sentem – e o próprio Governo reconhece – que tudo está muito pior do que antes. A culpa não é só das políticas do Governo. É, fundamentalmente, da crise global que aflige a União Europeia no seu conjunto. Como sempre escrevi, nestas crónicas, mesmo no tempo do anterior Governo e que o PSD então não gostava de ouvir.

 

Talvez desmemoriado – é uma das vantagens que a velhice traz, o permitir-se esquecimentos convenientes -, o velho Soares quer passar em claro que o problema de Portugal, nessa altura, não foi apenas como ele afirma “fundamentalmente da crise global que afligiu a União Europeia no seu conjunto”. Foi disso, sim, mas também imenso de um primeiro-ministro chamado Sócrates que não se coibiu de, nessas condições, gerir o Estado de forma ruinosa; aumentar, em tempo de eleições e apesar da crise, os funcionários públicos; e ser alguém tão indigno de confiança que um editor do Financial Times, Wolfgang Munchen, escreveu:

 

“You cannot run a monetary union with the likes of Mr. Sócrates.”

 

Eu sei que Mário Soares é um poliglota brilhante, com um inglês tão perfeito como o de Sir John Gielgud, mas permito-me (re)chamar a atenção para isto: um editor do Financial Times disse que não podia existir uma União Monetária com gente da laia do sr. Sócrates.

 

Repito: gente da laia.

O homem omnipresente

No conto de Isaac Asimov Será Que Uma Abelha Se Importa?, o personagem Kane atravessa os séculos, anónimo e discreto, provocando saltos no pensamento científico com a sua presença. Ele não tem uma acção directa nos acontecimentos, nem sequer sabe muito bem o que faz, como o faz e para quê. É apenas uma espécie de catalisador, substância que potencia uma reacção sem ser alterada por ela:

 

“Kane lembrava-se que tinha sido sempre assim, especialmente com teóricos. Quando Lise Meitner decidira procurar bário entre os elementos do bombardeamento de neutrões, Kane estava lá, caminhando por um corredor do laboratório.

 

Em 1904, andava a apanhar folhas e lixo num parque, quando o jovem Einstein passou por ele, meditando. A passada de Einstein aumentara de velocidade com o impacto de uma ideia súbita. Kane sentiu-o como um choque eléctrico.

 

Recuou ainda mais no tempo. No dia em que o jovem Newton olhara para a Lua, no alvorecer de um certo pensamento, Kane estava lá. E mais atrás ainda.”

 

Isto veio-me à memória a propósito de Rui Paulo Figueiredo, deputado do PS e presidente da concelhia socialista de Lisboa. Vejamos estes três acontecimentos, na aparência afastados entre si: caso Presidência da República/espionagem de 2009; caso PPPs; caso Paulo Pereira Cristóvão. Há algum ponto de contacto entre eles? Sim, pelo menos um: a presença algures no processo de Rui Paulo Figueiredo.

 

1) Em 2009, Rui Paulo Figueiredo era, isto parece ser globalmente assumido, os olhos de Sócrates que a Presidência da República pensava estarem-lhe a fazer uma marcação estranhamente cerrada.

 

2) Rui Paulo Figueiredo é o homem que, qual Mandrake, fez aparecer do nada um putativo relatório minoritário de dentro do Tribunal de Contas que colocaria em xeque as conclusões deste sobre as PPPs. Figueiredo é o coordenador do Grupo Parlamentar do PS na comissão de inquérito às PPPs. Como em qualquer romance passado na Guerra-Fria, esse relatório minoritário chegou-lhe às mãos depositado, anonimamente, no cacifo de um deputado do PS também não identificado.

 

[A autenticidade de tal documento, entretanto cabalmente desmentido pela actuação do próprio TC, sempre pareceu altamente questionável. A ideia de alguém, anónimo e discreto, iludir a vigilância do Parlamento, entrar numa área reservada como imagino serem os cacifos da nossa deputação, depositar num deles o envelope, e sair de lá sem sequer uma abordagem, parece-me próxima da alucinação – mas incapaz, pelos vistos, de levantar um sobrolho do jornalismo de investigação.]

 

3) Rui Paulo Figueiredo é vogal do Conselho Directivo do Sporting, pertence à mesma direcção onde esteve até agora Paulo Pereira Cristóvão, e têm estado os dois entretidos numa luta intestina de poder e influência junto do presidente Godinho Lopes. Paulo Pereira Cristóvão vê-se envolvido num processo de corrupção desportiva – que pouca gente compreende para que serviu -, e mais uns desvios de dinheiro.

 

Eu sei que o país é pequeno, e que toda a gente corre o risco de conhecer toda a gente. Mas este nome, Rui Paulo Figueiredo, parece surgir com particular insistência quando são casos que envolvam recolha de informação, cuscuvilhice ou geração de desinformação. Não me surpreende, portanto, o facto de também pertencer à Maçonaria, entidade que parece surgir com igual frequência em qualquer assunto minimamente escandaloso. Não me admira também que tenha sido “irmão” de Jorge Silva Carvalho e agora estejam em Lojas rivais. Seria uma surpresa enorme se, no caso de um jornal agarrar este assunto, viesse a descobrir que Rui Paulo Figueiredo esteve de alguma forma envolvido nas fugas de (des)informação que têm alimentado o caso Relvas?

 

Ao contrário do inócuo Kane, este moço a quem Sócrates deu palco parece saber muito bem o que fazer, quando, a quem e com quem. Eu acredito em coincidências, mas também estou convencido de que quando estas ocorrem com constância e em sucessão, deixam de ser coincidência e passam a outra coisa: regra. Estarão, por uma vez, os paranóicos certos? Será, de facto, este pobre país um mero tabuleiro de xadrez onde gentinha reles se diverte nos seus joguinhos de poder, formando clubes com nomes como Mozart, Mercúrio, Brasília? Seremos nós, realmente, pasto de anões que brincam aos deuses?

De como uma homenagem se torna num beija-mão dos homenageados ao homenageador

No passado Sábado, a Presidência da República promoveu um almoço na Fundação Champalimaud para, como se pode ler no site, honrar “personalidades que se distinguiram em Portugal e no Estrangeiro no âmbito das suas actividades profissionais“.

 

A SP Televisão, que produziu uma novela premiada em 2011 com um Emmy, foi um dos convidados, e enviou uma comitiva da qual faziam parte os três protagonistas.

 

Esta notícia é-nos apresentada pela jornalista Márcia Gurgel, repórter da secção Pessoas do DN/JN e que pode ser lida, no seu eclectismo, a reportar matéria tão diversa como o namoro de Paco Bandeira, as ambições familiares de Ricky Martin ou as viagens de Verão do ex-ministro dos corninhos Manuel Pinho.

 

Porque, então, menciono eu esta notícia sobre o almoço da Presidência? Simplesmente por isto: a grande-repórter Márcia Gurgel, habitualmente inócua na insipidez do seu jornalismo cor-de-rosa, decidiu encarnar a Fernanda Câncio e titulou um almoço de homenagem da Presidência da República a quem se distinguiu em Portugal e no Estrangeiro com esta aberração:

 

Diana Chaves e Joana Santos no beija-mão a Cavaco (título da notícia).

 

Será que denoto alguma má-vontade da senhora jornalista em relação a Cavaco Silva? Esperava ela, quem sabe… ser uma das homenageadas pelos seus serviços à língua-pátria? Ou terá isto alguma relação com o DN e JN pertencerem ao “amigo Joaquim [Oliveira]”?

 

E já agora, senhora jornalista (chamo-lhe isto com ironia) Márcia Gurgel, preste mais atenção ao seu trabalho. O almoço foi oferecido no Sábado – não no Domingo como reporta.

A enguia

Em entrevista ao Sol (edição de 08/06), o nosso ex-secretário de Estado preferido Paulo Campos garantiu:

 

É totalmente falso que eu tenha dado qualquer orientação ao INIR.

 

No I de hoje, pode-se ler que afinal

 

Regulador do sector rodoviário diz que recebeu orientações do gabinete do ex-secretário de Estado para praticar “significativas omissões de informação” ao TC.

 

Na verdade, lá para o final da notícia, é tudo mais bem explicado:

 

A carta do InIR ao Tribunal de Contas, que também surge publicada num anexo da auditoria ao modelo de gestão, financiamento e regulação do sector rodoviário divulgada em Maio pelo TC, salienta ainda alguns dos “factos relevantes omitidos por força das orientações da tutela”, citando mesmo emails do gabinete do então secretário de Estado das Obras Públicas para o InIR a solicitar “que previamente ao envio das respostas para o TC seja dado conhecimento prévio a este gabinete” ou “que logo que possível faça chegar o ‘draft’ de que falámos”, referindo-se neste caso ao contraditório a entregar pelo InIR. Um outro email do gabinete de Paulo Campos vai mais longe e avança com respostas alternativas: “A resposta deverá ser: ‘O InIR não dispõe de dados para responder a esta questão.’” Ou ordens: “Devem ser retiradas as referências à forma como a EP envia os contratos e ao prazo em que o InIR tem verificado os mesmos.”

 

Ah, mas isto não são, nas sages palavras de Paulo Campos, “orientações ou determinações”. Serão, quando muito, “comentários”, “troca de impressões entre técnicos”. Posso também sugerir “conselhos fraternos”?

 

Alguém quer apostar comigo que, daqui a uns tempos, quando a coisa estiver ainda mais clara, Paulo Campos vai recorrer ao argumento dos espertalhões “as ordens podem ter partido do meu gabinete, mas não fui EU que as enviei”?

 

Que molusco…