O espelho

Este caso Relvas também contribui para perceber (se alguém ainda tinha dúvidas…) a moral que rege a Esquerda que se movimenta no arco do Poder. Os socratistas não se chocam com a hipotética pulhice de Relvas; apenas se deliciam por os seus adversários, afinal, poderem ser tão pulhas como eles próprios. Ou seja, aquela gente não tenta invocar ou aparentar um comportamento acima de suspeitas; satisfaz-se apenas em apontar que os adversários também não conseguem evitar meter a mão no pote das bolachas.

 

Isto é o grau zero dos intérpretes da política, e mostra como não se pode esperar nada da Oposição.

O canudo

Quem me conhece, sabe qual a minha opinião sobre Miguel Relvas. Até já a expressei aqui: nunca senti particular simpatia pela pessoa. Há uns meses, escrevi “que me recorda demasiado esse personagem daninho do socratismo chamado Pedro Silva Pereira”. Com esta história da licenciatura-do-dia, pode haver quem me queira acusar de imprecisão: que seria Sócrates o modelo na chico-espertice, não o seu Marechal-de-Campo Silva Pereira. A esses, eu respondo: e não são Sócrates e Silva Pereira almas gémeas e indistinguíveis?

 

Nesta algo sórdida história da licenciatura-Novas-Oportunidades, percebe-se um sistema que parece nortear o percurso desta nova geração de políticos formados nas juventudes partidárias: primeiro a carreira política, depois os amiguismos, só depois uma formação académica martelada graças a quem se foi conhecendo. Formação académica, ressalte-se o pormenor, obtida por norma numa faculdade privada.

 

Pode-se argumentar que há algumas ligeiras diferenças entre os canudos de Sócrates e Relvas. No primeiro caso, talvez existam potenciais aleijões à Lei, com faxes, carimbos, assinaturas rasuradas, datas que não correspondem, telefones que ainda não existiam, papéis passados ao Domingo. No segundo, por pouco ético que seja, parece apenas tratar-se da utilização ao extremo de uma ideia original e legislação que se prestam aos abusos. E parece mesmo que Relvas fez alguns exames, o que significa que alguém o deve ter visto por lá.

 

A questão fulcral é esta: são pormenores. A obtenção de equivalências graças a “experiência profissional”, se já custa a engolir no Ensino normal com as fársicas Novas Oportunidades, parece-me particularmente indigesta numa licenciatura ou mestrado.

 

Por isso, eu questiono-me: os tais “catedráticos” que, segundo o DN (sem link), se insurgem contra estas “licenciaturas como a de Miguel Relvas”, também se insurgiram contra as “licenciaturas como a de José Sócrates”. E quando Bolonha apareceu, também se insurgiram? É que se não o fizeram então – não me parece terem grande moral para o fazerem agora.

Pode esperar sentado!

Ponto prévio: muito provavelmente, Soares já não entende as implicações do que diz, escreve ou pensa. Está tonto, vazio da intencionalidade maldosa que o caracterizou nos seus anos mais activos, longe do fulgor cego com que ajudou a desbaratar este País numa das épocas mais frágeis da sua história.

 

Ainda assim, o jurássico barão socialista devia pautar as suas espectrais aparições por algum pudor, ou, em alternativa, alguém que o rodeie e que ainda esteja na plena posse das suas capacidades intelectuais deveria contribuir para que isso acontecesse. De facto, falar da situação económica e social do país, falar dos números do desemprego e atribuir esta espiral descendente a um Governo que tem um ano de actuação é de uma falta de vergonha inaceitável.

 

Soares está triste. Assumiu que a sua pesada figura política ainda poderia ter um último fôlego com a emergência de uma mini-revolução. Enganou-se. Está, pelo menos, a demorar muito. A demorar tempo demais para aquele que o ancião do reino tem disponível.

O nome das coisas

Diz o jornal I que socialistas juntam-se a Carvalho da Silva e a bloquistas em defesa da denúncia do Memorando e da reestruturação da dívida pública. Procurei na notícia quais estes deputados socialistas: entre outros, Pedro Nuno Santos, Isabel Moreira, Sérgio Sousa Pinto e João Galamba. 

 

Extraordinário.

 

Estes são os senhores que querem “Resgatar Portugal para um futuro decente” – quando foi precisamente para isso que se realizaram as legislativas do ano passado. Estes cavalheiros, elementos da tropa de elite de José Sócrates, não querem “o país amarrado à troika” – quando foi precisamente José Sócrates quem a chamou e nos amarrou a ela graças aos desmandos do seu consulado. Mas mais grave ainda, esta gente indefectível de Sócrates, verdadeira congregação de culto socrático, diz querer denunciar o memorando da troika – memorando esse negociado, assinado e elogiado precisamente pelo seu líder José Sócrates.

 

Isto não é hipocrisia, não é esquizofrenia, nem sequer é demagogia. Isto é pura sacanice, a típica sacanice socrática, sempre pronta a negar aquilo a que se comprometeu. Sócrates e esta gente não são de confiança nem sequer para lhes emprestarmos 10 cêntimos.

Por Qué No Te Callas [5]

Se não é na homilia semanal do DN, é na SIC-Notícias, ou numa inauguração, ou numa apresentação, ou numa comemoração:

 

(…) Mário Soares considerou que o país está actualmente pior do que há um ano atrás (…)

 

O que o nosso velho de estimação parece querer omitir é que se tivéssemos continuado com Sócrates, estaríamos muito pior do que agora. E a demagogia de Soares quer ocultar que as dificuldades são por estarmos a corrigir os recentes desvarios socialistas: aeroportos que (felizmente) nunca chegaram a existir; aeroportos que (infelizmente) existem; Parque Escolar; TGVs que nunca saíram do papel mas já custaram milhões em estudos e arriscam custar mais em indemnizações; PPPs; ajustes directos; Magalhães; SCUTs;  Allgarves; energias alternativas que ficam bem na lapela mas têm de ser subsidiadas pelo contribuinte; etc, etc. 

 

Ao dar a entender que o país está pior por causa do Governo, Soares é como aquelas pessoas que beberam dois litros diários de aguardente – e depois queixam-se do médico por os tratamentos serem dolorosos.

Por Qué No Te Callas [4]

Soares faz lembrar aquelas (também muito velhas) anedotas que já ouvimos múltiplas vezes – mas que nos fazem sempre sorrir quando as ouvimos de novo.

 

Soares, sempre ele, escreve esta semana de Passos Coelho:

 

(…), tem visitado, como primeiro-ministro, mas mais parece como comerciante, alguns Estados ibero-americanos, para que lhe comprem ações de empresas do Estado português.

 

Façamos, como brincadeira, uma pequena substituição:

 

(…), tem visitado, como primeiro-ministro, mas mais parece como comerciante, alguns Estados ibero-americanos, para que lhe comprem netbooks Magalhães.

 

Soares, pelos vistos, censura agora uma postura que exaltava antes. Soares, recordemos, que não se coibiu de funcionar como anfitrião de Chávez na sua Fundação (sua – mas sustentada em grande parte por todos os outros). Soares, como sempre, sem qualquer vergonha na cara.

Helena que não de Tróia

O Público/José António Cerejo chamam-lhe “uma história a precisar de ser esclarecida”. Nada contra. Não só JAC tem a suportá-lo um historial de escrutínio aos desmandos do poder socrático, o que lhe confere pelo menos uma sugestão de independência; como Miguel Relvas nunca foi santo de minha devoção.

 

Acontece, contudo, que há aqui uma segunda história que importa esclarecer: a razão para Helena Roseta ter deixado este assunto a macerar durante perto de dez anos. Quando alguém revela factos que são, no mínimo, desconfortáveis para o[s] sujeito[s] desses factos, é típico questionar o timing da revelação. Eu, pelo contrário, com frequência acho mais interessante o timing da espera.

 

Helena Roseta, que se gosta de mostrar paladina do contrapoder e da moral, amiga de Alegre e do Zé-que-fazia-falta, soube há dez anos em primeira-mão que uma pessoa A, titular de um cargo político, usaria esse posto para promover negócios com o(s) seu(s) amigo(s). A inabalável Helena Roseta esbracejou, perdigotou, expôs a utilização abusiva de um cargo político? Não: amochou, relativizou, “não valorizou o caso”.

 

Isto dá a entender que o conceito de “ética”, para a impoluta Helena Roseta, evoluiu bastante ao longo do tempo: o que era “relativo” em 2002, é ameaçador em 2012. Mas também pode dar a entender algo muito diferente e mais sombrio: que Helena Roseta sabia “o tipo de pessoa que era Miguel Relvas” e, em vez de o desmascarar na hora, preferiu deixá-lo continuar no espaço público durante 10(!) anos até que a informação lhe causasse o máximo de danos políticos.

 

Ora importa esclarecer qual destas é a segunda parte da história. Porque se é a primeira hipótese, então isso diz bastante sobre os princípios de Helena Roseta; se é a segunda hipótese, diz ainda mais sobre o cinismo de Helena Roseta.

Por Qué No Te Callas [3]

Isto pode parecer um contra-senso, mas não o é: agora que andamos a retirar feriados, proponho que passemos a celebrar o 20 de Junho de 2012. Afinal, penso ser justíssimo celebrar um dia em que Mário Soares não diz uma idiotice e…

 

… esqueçam. Falei cedo demais:

 

(…) o que a troika faz é ganhar o seu dinheirinho

 

“Vento democrático” sopra desde eleição de Holande

 

(…) está na hora de ela [Merkel] regressar à Alemanha de Leste, onde nasceu.

Foi bonita a festa

Vieram a público mais informações sobre as obras da Parque Escolar. Em particular, nas escolas Passos Manuel e D. João de Castro.

 

A empreitada no Passos Manuel custou mais de 23 milhões de euros, quando o estimado inicialmente era de cerca de 16 milhões. Faço as contas de cabeça e dá-me um deslize de cerca de 50%. O trivial, portanto.

 

Mais excertos: “trabalhos a mais sem justificação, que fizeram disparar o custo em mais 13,2% do que o previsto inicialmente”; “inúmeras desconformidades entre o que foi contratado com a empresa HCI Construções e aquilo que foi efectivamente executado”; “violação do regime legal de fiscalização prévia já que os contratos não foram sido submetidos à aprovação do Tribunal de Contas”. É um léxico que se repete: desconformidades, violação, ilegalidade, indevido.

 

O TC refere também que a Parque Escolar pagou cerca de 640 mil euros à empresa construtora “a título de ‘margem’ de 25% sobre os orçamentos dos empreiteiros/fornecedores”. A Parque Escolar pagou 640 mil euros “a título de margem de 25%”? Isto quer dizer que a Parque Escolar achou por bem oferecer uma margem de 25% sobre os orçamentos dos empreiteiros, que obviamente (para mim, mas eu não sou seguramente nenhum génio) já deviam ter a sua própria margem de lucro?

 

Se formos ao site da empresa HCI Construções, que é referida na notícia, vemos que ela se anuncia nestes termos:

 

A HCI Construções, S.A. orgulha-se de ser uma das empresas mais estáveis e prósperas do sector de Construção, nomeadamente, na Reabilitação e Remodelação de Edifícios.

 

Rentável e próspera? Pudera…

 

Ao longo do nosso percurso fomos crescendo sempre atentos à realidade que nos envolve, com interesse pela evolução do mercado e empenho na construção do futuro… sempre que possível, antecipando-o. Assim alcançámos a posição que hoje ocupamos.

 

“Atentos à realidade”, “com interesse pela evolução do mercado”, “sempre que possível, antecipando”. Parece evidente que sim, a empresa tem estado com imensa atenção “à realidade” e que “antecipa” bastante bem “a evolução do mercado” – com lobbying.

 

Mas acho particular piada a este parágrafo da notícia:

 

Para a climatização foram pagos mais de dois milhões de euros, mas conforme a auditoria apurou os equipamentos estão desligados “dadas as dificuldades orçamentais da escola face ao aumento das despesas de funcionamento, o que contribuiu também para a falta de qualidade do ar nas salas de aulas, por inexistência de ventilação natural”.

 

Tem-se um ar condicionado caríssimo, mas quando não há dinheiro para ele – também não há ventilação natural porque esta tem de ser afectada para que aquele seja instalado. Isto é todo um retrato do homo-socraticus: preocupação com as aparências, se necessário a expensas de tudo o resto. É como comprar um plasma de 50 polegadas para ver televisão – e depois não ter dinheiro para o serviço da Zon.

 

Maria de Lurdes Rodrigues disse que a Parque Escolar foi uma festa. Mais do que uma festa, eu diria que foi uma farra. Aliás, mais do que uma farra, eu chamaria a isto um autêntico bacanal. E como em qualquer bacanal que se preze, há aqueles que fodem e aqueles que são fodidos.