Ah, a manifestação é na rua? Então não vou…

A enorme manifestação anti-Relvas, que nasceu nas redes sociais e que, pelos vistos, por lá se ficou, juntou apenas 500 revolucionários. Dos mais de 3 mil que haviam confirmado a sua presença via Facebook, cerca de 2500 não chegou a perceber que o ajuntamento iria ocorrer fora do mundo virtual. 

 

Este mega-movimento, gerado por quem não tem nada que fazer e alimentado por interesses jornalísticos com quem Relvas ousou meter-se, foi uma montanha que pariu um rato. Fico satisfeito, não por nutrir particular simpatia por Miguel Relvas, mas por verificar que a estratégia dos media de tentar derrubar uma figura, seja ela qual for, através do enxovalho barato e à custa desse enorme guarda-chuva chamado jornalismo de investigação, não pega por estas bandas. Gostava que me esclarecessem: quem faz isto é melhor do que Relvas?

 

A manifestação convocada por Miguel Gonçalves Mendes (o realizador do documentário acerca de Saramago e da mulher que lhe escrevia os livros, Pilar), claramente apartidária, pois claro, foi tratada pelo comum dos mortais com a vénia do desprezo. Esteve lá, no entanto, Manuela Moura Guedes, seguramente saudosa dos tempos de liberdade de expressão do sultanato socrático.

Os diabinhos negros e os bispos vermelhos

D. Januário Torgal Ferreira foi ontem à TVI24 cantar uma missa. Uma missa conhecida, daquelas a que nos habituaram outro tipo de intérpretes. D. Januário veio falar de “diabinhos negros” no Governo, ao mesmo tempo que reforçava o seu estatuto de bispo vermelho. Esta é uma daquelas situações em que, para o senhor bispo das Forças Armadas, a separação entre a política e a religião deve ficar fechada na gaveta.

 

Afirmou este bispo, entre outras pérolas da retórica da cassete, que os membros do anterior Governo, quando comparados com o actual Executivo, eram autênticos anjos. Ora, comparar José Sócrates a um anjo é um exercício deveras interessante. Como se sabe, no fulgor desenfreado das suas trafulhices, Sócrates operou autênticos milagres, tendo no final desaparecido, deixando para trás uma imagem difusa e espectral, envolta em névoa.

 

Já temos, na nossa ilustre praça, muitos hipócritas, canalhas, salafrários, vendilhões do templo, mentirosos e terroristas de pacotilha. Não precisamos de bispos que também o sejam.

Os castelos de Lego

Isto torna-se cansativo, ter que estar sempre a repetir o óbvio. O problema é que as Esquerdas são como as crianças, nunca se fartam de brincar com uma caixa de fósforos da qual fantasiam um castelo (e pensam que o dinheiro acaba sempre por aparecer). Portanto, aqui vai – de novo:

 

Não, este governo não está a levar o país à bancarrota. O país já estava na bancarrota. Ou a troika instalou-se cá pelas praias e Sócrates pôs-se a jeito para fugir por o país ser o paraíso?

 

Este Governo não está a levar o país à bancarrota; este Governo está a tentar retirar o país da bancarrota. Se vai ou não conseguir, é outro assunto. Aliás, eu iria mesmo mais longe: se é ou não possível… pois os estragos podem já ter sido demasiados. Nas séries sobre médicos que parecem pulular em qualquer canal de televisão, este seria o momento em que o cirurgião se dirige com ar solene à família: “conseguimos estabilizá-lo mas perdeu imenso sangue, o cérebro não foi oxigenado durante muito tempo, os órgãos foram submetidos a um enorme esforço, corre o risco de infecções e, por enquanto, só consegue sobreviver ligado às máquinas. Só o tempo dirá se ele vai ou não acordar.“

Ainda os médicos

Ah, mas isto é genial. Isto é o retrato do sindicalismo com freio nos dentes. O título expõe na perfeição todo o conceito de negociação, e do papel da greve, que vai atravessando as mentes sindicalistas:

 

Médicos consideram que se negoceia melhor depois da greve.

 

Como se não fosse suficiente, os senhores do sindicato lançam um apelo:

 

A paralisação também é em defesa dos doentes, diz Roque da Cunha, que não quer ver os doentes usados contra os médicos nos dias da greve. Por isso, apela a que os portugueses, nesses dias, não recorram aos serviços de saúde, “para não serem aproveitadas as suas doenças contra os médicos”. 

 

Roque da Cunha, secretário geral do SIM (Sindicato Independente dos Médicos), não quer ver os doentes usados contra os médicos nos dias da greve. Isso não irá acontecer – porque os doentes já estarão sendo usados contra o Ministério nos dias da greve. Não sendo os doentes partículas subatómicas, não podem estar em dois locais ao mesmo tempo.

 

Acho magnífico que o SG do SIM também apele aos doentes para, no dia da greve… não estarem doentes. Infelizmente, e eu pensava que qualquer médico teria disto conhecimento, é um pouco complicado planear antecipadamente – um boicote à doença.

Liguem para a APAV

Os sindicatos de médicos vão avançar para a greve (que surpresa!) e culpabilizaram o Ministério da Saúde pelas consequências que a greve venha a ter nos utentes.

 

Maravilhoso. Os médicos fazem a greve – mas o culpado pelas consequências dessa greve é o Ministério. Isto faz-me recordar os marialvas que dão uns valentes sopapos na mulher – e depois dizem-lhe: “A culpa disto é tua”.

Uma das profissões mais velhas do mundo

carpideira, subst.fem. – mulher mercenária que pranteava os mortos durante os funerais.

 

Atentemos um pouco na famosa “manifestação popular” da Covilhã em que a presa foi Álvaro Santos Pereira. As televisões, os jornais, os websites de notícias, os blogues, todos publicaram e republicaram gulosamente fotografias e vídeos do personagem que se estirou sobre o capô da viatura oficial do ministro. Alguns mencionaram de passagem que a figura tem por nome Luis Garra e por ocupação sindicalista (logo aqui, campainhas deviam soar). Nenhum, que eu tenha dado por isso, reportou o interessante detalhe de Luis Garra ser funcionário sindical pelo menos desde 1978 (tinha na altura 21 anos!), de ter aderido em 1974 ao Movimento da Juventude Trabalhadora (com 17 anos!), de ser membro do CC do PCP e de não ter tido, em quase toda a sua vida adulta, outro tipo de actividade que não política, sindicalista, manifestante e do contra.

 

Ao longo de uma carreira com quase quatro décadas, é de crer que Luis Garra já se tenha lançado sobre os capôs das viaturas de Sá Carneiro, Pinto Balsemão, Mário Soares, Cavaco Silva, Guterres e mais não sei quantos outros Primeiro-Ministros, Presidentes da República, presidentes de Junta, banqueiros, treinadores de futebol e vendedores de gelados. Luis Garra, o tal da manifestação popular, é um sindicalista de carreira e de teoria feita que até já se internacionalizou. Como este Luis Garra, há muitos por aí. Há imensos Luises Garra pelo país fora, desejosos de servir como rastilho, ansiosos pela tragédia porque se alimentam, vicejam nela como vampiros.

 

Estes manifestantes de carreira são, no fundo, a versão moderna das carpideiras.

Excursões Costa

Agora, parece que o passatempo nacional é fazer esperas e vaias aos membros do Governo e ao Presidente da República. E a verdade é que isto, por muito que não gostemos e preferíssemos uma honestidade mínima em todas as partes, faz parte do jogo político e quem pretende jogá-lo, tem que estar pronto para este lado sujo.

 

Tal como há dois partidos que se alternam no exercício do poder, há outros partidos ou intervenientes no espaço público (como os sindicatos) que fazem questão de não fazer nunca parte da solução e oporem-se sistematicamente ao Governo da altura, quer este institua o branco ou o azul. Infelizmente, esta postura leva a que em Portugal os sindicatos, mais do que não serem parte da solução, mais até do que serem parte do problema – torna-os amiúde UM problema.

 

Mas… e se esta gente, em vez de ir chamar ladrão aos ministros ou a Cavaco Silva, se metesse num autocarro e fizesse uma excursão até Paris, para acampar à porta de quem, de facto, passou seis anos a meter o país neste buraco?