O emplastro [2]

Parece que a ASAE está a fazer menos recolhas de amostras alimentares (como se não houvesse outras entidades com competências para tal, como a DGAV). De pronto, José António Seguro, com o seu ar de puto birrento, veio exigir coisas. Exige esclarecimentos ao Primeiro-Ministro sobre o caso. Admite exigir esclarecimentos à ministra da Agricultura. Consta que já exigiu esclarecimentos à porteira do prédio. Seguro é peremptório: “Neste momento, o que é necessário é rapidamente tranquilizar os portugueses”.

 

E é verdade que reina uma grande intranquilidade nas ruas sobre este problema. Ao longo das praias, milhares de portugueses retorcem-se de preocupação. Ainda há pouco, quando fui à mercearia aqui do bairro, vi dois almeidas debaterem com consternação as possíveis consequências para a indústria dos enchidos.

 

Eu estou como Seguro: preocupado. Não se deve brincar com a comida – é um dos meus lemas. Eu estou intranquilo com a forma como este Governo tem gerido a actividade da ASAE e pretendo – não, exijo! – explicações do Primeiro-Ministro. E ele pode começar por esclarecer o que raio impediu o fecho imediato da ASAE, o desmantelamento da sua estrutura paramilitar e o desterro do lamentável António-Torquemada-Nunes para uma qualquer aldeia remota, onde se possa entregar alegremente à missão terrena de medir o tamanho dos caracóis servidos na tasca e a temperatura da água com que lavam os copos.

É oficial

Há quem lhe chame a síndroma da segunda geração. Quando alguém atinge uma grande notoriedade na sua actividade e tem filhos que lhe sucedem, espalha sobre estes uma sombra da qual não se conseguem libertar. João Soares nunca o conseguiu – e nem precisou.

 

As declarações de Passos Coelho não são caso virgem. Já Cavaco Silva, quando era primeiro-ministro, reagiu assim perante os autarcas do PSD que reclamavam mais dinheiro. Cavaco Silva disse – e fê-lo à porta fechada – que nunca ninguém o veria colocar os interesses partidários à frente dos do país.

 

Como qualificar a frase de Passos Coelho “que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”? Um céptico chamaria “demagogia”, um optimista diria “integridade”, o Carlos Abreu Amorim “santidade”.

 

Um hipócrita chamar-lhe-ia “gaffe”. E é isso o que Soares-filho-do-pai mostrou ser: um hipócrita. Porque ao chamar a isto “gaffe”, ao medir os outros pelo metro da sua própria [a]moralidade, João Soares assumiu explicitamente aquilo que já se tornara implícito pelos actos: que para o Partido Socialista e as suas gentes, o objectivo único da actividade política é o jogo em si mesmo, não o serviço à comunidade ou ao país. Se estes calham a sair beneficiados dessa actividade, trata-se de um mero acaso.

 

O ex-jovem Soares-filho-do-pai mostrou ter herdado o carácter (ou a falta dele) do velho Soares-pai-do-filho.

Difamação

Miguel Sousa Tavares (um dos mais proeminentes intérpretes do revisionismo socrático) foi, segundo o DN de hoje, ilibado da acusação de difamar Armando Vara. Tratando-se de Armando Vara, eu interrogo-me: o que seria preciso dizer para que se considerasse difamação?

O duo dinâmico

Mário “Ramsés” Soares voltou a atacar.

 

Desta vez para dizer que a licenciatura de Miguel Relvas não era concebível para uma pessoa de bem. Soares, porventura esquecido da licenciatura dominical do anjo Sócrates e do silêncio cúmplice ao qual se remeteu quando o caso foi ventilado, vem agora falar como se o passado nunca tivesse existido. Ah… como seria bom para o cidadão Soares que as suas acrobacias (também elas angelicais?) fossem esquecidas no fundo baú do tempo!

 

A hipocrisia e a soberba dos velhos de esquerda inundou, esta semana, os holofotes dos media, com dois protagonistas improváveis a actuar, lado a lado: Soares e Januário. Vieram falar de corrupção e diabruras.

 

Cada um com a sua especialidade.

O defenestrado

Um trabalho da Sábado acerca dos erros cometidos pelos alunos nas provas das diferentes disciplinas aponta como exemplo um aluno que, no exame de História, afirmou que em 1640, em vez de Miguel de Vasconcelos, foi defenestrado Vasco Gonçalves.

 

Não se trata de um erro, mas de wishful thinking…

Por Qué No Te Callas [6]

Digam lá se não estavam cheios de saudades dele.

 

O velho Soares diz, na sua melhor personificação Laurinda Alves, que a Europa pode sair da crise com a condição de crer em si mesma. Tudo muito New-Age, muito Zen. Provavelmente foi buscar inspiração a’O Segredo. A Soares, na velhice, deu-lhe para incorporar o esoterismo no seu arsenal de politiqueiro.

 

O antigo Soares também diz que o povo clama e reclama por outro e melhor Governo. Aparentemente, para Soares, umas poucas dúzias de maduros desocupados que se entretêm nos seus jogos políticos subsistindo à custa dos seus sindicalizados, têm precedência sobre essa coisa chamada eleições. Para Soares e as suas claques (mais ou menos) organizadas, estas coisas chamadas “eleições” e “legitimidade democrática” só são vinculativas quando é o seu lado que ganha – caso contrário, tornam-se empecilhos. Deve ser por isso que não me recordo de ver Soares, nos idos de 80, acorrer às solicitações de “Governo Soares/Mota Pinto rua!” pichadas nas paredes.

 

O sáurio Soares também se indigna: “Como é que é possível? Um cidadão diz-se licenciado numa universidade, e depois verifica-se que não foi lá, que pagou, e ainda por cima depois vangloria-se. Para mim não é possível.” Só não percebi de quem falava: se de Relvas, se de Sócrates.

Bem aventurados os pobres de espírito

A Esquerda tem destas coisas: não quer que o clero tenha qualquer posição política – excepto quando é para atacar a maléfica Direita. Aí, é vê-la a salivar, qual cão de Pavlov.

 

D. Januário é um caso interessante. Ainda há umas semanas, quando vieram a público detalhes sobre a sua reforma, ele garantia que 2500 euros “depois de décadas de trabalho” não é nenhuma fortuna, e queixava-se do que lhe era retirado em impostos. Num país em que múltiplas famílias se sustentam com uma fracção desse valor, não deixam de ser palavras inesperadas na boca de um sacerdote (que supostamente devia mostrar desprendimento pelas cousas materiais).

 

Ora este D. Januário parece-me retratar na perfeição quatro dos pecados mortais: avareza, ira, (imensa) soberba – e a julgar pelas bochechas, gula.

 

Sobre a avareza, estamos falados. A imensa vaidade, é evidente de cada vez que lhe é colocado um microfone à frente. A ira? Fosse D. Januário transportado para as Cruzadas, e era vê-lo na linha da frente, de dente rilhado, a decapitar infiéis – e deixá-los empalados para servirem de exemplo. Fosse D. Januário presente ao tempo da Inquisição, e seria o primeiro a chegar o fósforo às piras.

 

Felizmente para ele, a sua alma está salva pela óbvia pobreza de espírito. Pois só a sandice, só um profundo esgotamento mental, explica que alguém que se considera “sério” diga que “os anteriores, que foram tão atacados, eram uns anjos ao pé destes diabinhos negros que acabam de aparecer”, e que este Governo é “profundamente corrupto”.

 

Quanto à corrupção, da qual estou certo que D. Januário já apresentou provas no Ministério Público ou à PGR, gostaria que explicasse o que já foi feito neste Governo que tenha superado as negociações ruinosas das PPPs; as múltilplas trafulhices que rodearam as SCUT, e as negociações das SCUT, e os contratos das SCUT, e os chips das SCUT; a imensa festa que foi a Parque Escolar; a farsa Magalhães; o cinzentíssimo processo da OTA; o opaco processo do TGV… só estas bastam, embora fosse possível continuar.

 

E anjos? Estes são os anjos de D. Januário: José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Paulo Campos, Maria de Lurdes Rodrigues, Augusto Santos Silva, Ricardo-Três-Dedos-Rodrigues, Armando Vara, Rui Pedro Soares… e tantos, tantos outros “anjos” que eu nem menciono por saber que me esqueceria de outros tantos.

 

Eu quase lamento a alínea dos “pobres de espírito”. É que entrar no Céu à conta da idiotice (inata ou adquirida) parece-me chico-espertice – ao nível de uma licenciatura com 30 equivalências ou exames por fax e certificados dominicais (o dia do Senhor, ainda por cima). É safar-se por uma “technicality”.

 

D. Januário devia ser triplamente cauteloso nas suas tomadas de posição públicas: por ser sacerdote da Igreja, entidade que se quer o mais isenta possível; por, dentro desta, ocupar uma posição hierárquica de óbvia importância; e por ser bispo das Forças Armadas, entidade que também se pretende à margem do combate político.

 

Infelizmente, estas declarações de D. Januário não surpreendem quem lhe tem acompanhado a já longa carreira artística. Qual pavão enfunado perante as câmaras, ele mostra-se como aquilo que é: um rufia.