É oficial

Há quem lhe chame a síndroma da segunda geração. Quando alguém atinge uma grande notoriedade na sua actividade e tem filhos que lhe sucedem, espalha sobre estes uma sombra da qual não se conseguem libertar. João Soares nunca o conseguiu – e nem precisou.

 

As declarações de Passos Coelho não são caso virgem. Já Cavaco Silva, quando era primeiro-ministro, reagiu assim perante os autarcas do PSD que reclamavam mais dinheiro. Cavaco Silva disse – e fê-lo à porta fechada – que nunca ninguém o veria colocar os interesses partidários à frente dos do país.

 

Como qualificar a frase de Passos Coelho “que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”? Um céptico chamaria “demagogia”, um optimista diria “integridade”, o Carlos Abreu Amorim “santidade”.

 

Um hipócrita chamar-lhe-ia “gaffe”. E é isso o que Soares-filho-do-pai mostrou ser: um hipócrita. Porque ao chamar a isto “gaffe”, ao medir os outros pelo metro da sua própria [a]moralidade, João Soares assumiu explicitamente aquilo que já se tornara implícito pelos actos: que para o Partido Socialista e as suas gentes, o objectivo único da actividade política é o jogo em si mesmo, não o serviço à comunidade ou ao país. Se estes calham a sair beneficiados dessa actividade, trata-se de um mero acaso.

 

O ex-jovem Soares-filho-do-pai mostrou ter herdado o carácter (ou a falta dele) do velho Soares-pai-do-filho.

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