O bardo

Segundo o Expresso, o bardo Manuel Alegre terá dito em Pádua que “nos tempos que correm, cada poema, independentemente do seu conteúdo, é um a[c]to de resistência.”

 

Eu ainda vou mais longe. Sempre que leio um poema de Manuel Alegre, parece-me um acto de resistência… ao próprio conceito de poesia.

Mais ridículo

Mas já que estamos numa de Globos de Ouro ridículos, porque não recordar a cerimónia de (penso) 97, em que Francisco Pinto Balsemão entregou o prémio Carreira a esse grande artista de vaudeville chamado Mário Soares? E em que, para apresentar o galardoado, Balsemão convidou Frank Carlucci? E em que, contou-me quem viu, este último afirmou (sem sequer corar) que Mário Soares era “Património da Humanidade”?

 

Que imagem: Balsemão, Soares e Carlucci juntos no palco. Ou como me disse alguém – pareciam a Sataníssima Trindade.

O ridículo

Tenho lido por aí que houve Globos de Ouro na Sic. Quando não há pudor, estas celebrações masturbatórias comuns nos nossos canais de televisão descambam no ridículo. E foi o que aconteceu neste Domingo.

 

Nos prémios da Sic, que pertence a Francisco Pinto Balsemão, e para onde Francisco Pinto Balsemão é frequentemente convidado a comentar assuntos dos quais se deveria manter afastado por óbvio conflito de interesses, quem foi o vencedor do prémio “Mérito e Excelência”? Francisco Pinto Balsemão.

 

Se o ridículo pagasse imposto, este ano teríamos superavit…

O Público e os recortes de Rui Rio

Confesso não perceber a relação de Belmiro de Azevedo, e porque não dizer da própria Sonae, com o jornal Público.

 

Pelo que vou sabendo, o jornal não se sustenta por si. No entanto, o grupo continua a suportar os défices do Público. Sendo certo que a Internet e os serviços “gratuitos” vêm destruindo o espaço de manobra dos jornais, impedindo que em mercados pequenos como o nosso seja rentável fazer jornalismo de grande qualidade, seria de esperar que Belmiro de Azevedo apenas acedesse a enterrar dinheiro no Público se este mantivesse uma grande qualidade editorial.

 

Não é isto o que acontece. Por razões que a razão desconhece, a Sonae continua a sustentar uma sombra do jornal de referência que o Público já foi. Palco de intestinas lutas políticas, como se viu no pretérito episódio que antecedeu a saída de José Manuel Fernandes, o Público mantém desde há tempos uma opção por notícias e cabeçalhos claramente caça-cliques, na melhor das hipóteses, ou de demagogia política, na pior.

 

Vem-me isto a propósito desta notícia: Câmara do Porto gasta 106 mil euros em três anos na recolha e análise de notícias. Todo o texto tem uma nítida tendência: “custar aos cofres da autarquia mais de 100 mil euros”; “A autarquia portuense é aquela que paga a factura mais elevada num grupo de municípios que facultaram esses dados ao PÚBLICO” (gostaria de saber se a de Lisboa, por exemplo, o fez).

 

Ora quando se fazem as contas, conclui-se que 106.000€ em três anos dá 3000€ mensais. É muito? É pouco? Comparando com os valores que o jornalista apresenta para outras câmaras de menor dimensão, parece aceitável. E se a Câmara do Porto não tem funcionários disponíveis para executar este trabalho, sairia mais barato contratá-los e pagar as assinaturas online dos jornais? O jornalista não o explicou, não fez as contas, não escrutinou. Limitou-se a lançar palavras com intenção evidente: “custar aos cofres”, “factura mais elevada”.

 

E eu, aqui, a tentar imaginar quando pagava Sócrates ao “Luis, fica melhor assim ou assim”…

Os arquivos

Quando colocamos alguma coisa na Internet, quando vertemos aqui algo que nos represente, deixamos de ter controlo sobre esse algo. Motores de busca, agregadores, múltiplos serviços impedem que sejamos esquecidos.

 

Contudo, se as pessoas tivessem uma real noção da tecnologia, saberiam também que não vale a pena “fingirem-se” esquecidas. É por isso que me divirto tanto a ler o arquivo de alguns blogues. Há quem agora peça, com espuma aos cantos da boca e a jugular palpitante, a demissão imediata de Miguel Relvas, alguns até a de Passos Coelho, a propósito das (supostas) pressões sobre jornalistas. Mas recuemos dois anos, três anos, quatro, cinco ou seis anos, e é ler esses mesmos paladinos da liberdade de imprensa escrever, em resposta a situações próximas ou bastante mais graves, coisas como “um jornalista à séria nunca reconheceria pressões por nem sequer contemplar a possibilidade de alguém pensar que resultariam”.

Cruella de Vil

Já fui desafiado a comentar o início do julgamento de Ricardo Rodrigues. Não tenho muito que possa dizer: o léxico não possui palavras que me permitam descrever os sentimentos em mim inspirados por este repulsivo personagem. Basta ver a limpeza com que procedeu à sua “acção directa”:

para perceber que há ali todo um longo estudo das ancestrais artes do carteirismo.

 

Mas a sério: há alguma coisa a dizer em relação a um julgamento que começa dois anos depois do facto consumado – e gravado em flagrante? O que se pode dizer de uma bancada parlamentar que, em vez de exigir a sua demissão, ou pelo menos suspendê-lo, ainda o veio defender como vítima? O que dizer de um líder (Sócrates) que, depois desta magnífica actuação, o apresenta para reocupar o lugar na “casa da democracia”? E valerá a pena recordar o ridículo que foi Ricardo Rodrigues, este mesmo Ricardo Rodrigues que faz desaparecer gravadores com uma técnica digna do eléctrico 15, ser eleito para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários?

 

E quanta ironia o facto deste Ricardo Rodrigues, este mesmo Ricardo Rodrigues que furta gravadores a jornalistas na Assembleia da República, pertencer à Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação – precisamente três conceitos que ele devassou nestes breves segundos (e toda uma carreira antes e depois)?

Contas em dia

Rui Rio tem pautado a sua prestação à frente da Câmara do Porto por uma férrea sensatez orçamental. Os resultados foram anunciados: dívida zero das empresas municipais; dívida de apenas 3,5 milhões a fornecedores; redução da dívida à banca para 108 milhões.

 

Felizmente, agora que Rui Rio atingiu o seu limite de mandatos, Luís Filipe Menezes e Fernando Gomes já se vão perfilando para voltar a pôr a coisa “nos eixos”.