Por Qué No Te Callas [12]

Aquilo que o I Online expõe, via entrevista do jurássico Soares pela eternamente dócil Ana Sá Lopes (que consegue dizer apenas cinco vezes “senhor doutor”), não é a canalhice de um eterno canalha; não é a falta de vergonha de alguém que nunca possuiu um vestígio de consciência; não é, sequer, o sentimento de impunidade assumido por quem constantemente viu as suas enormes falhas de carácter, contradições de discurso e actos à margem da lei e da ética serem negligenciados – quando não absolvidos – por jornais e jornalistas, sempre desejosos de se sentarem à mesa com o grande dinossauro.

 

Não. Aquilo que se vê, nesta lamentável entrevista ao lamentável Soares, é a decadência de alguém cuja falta de saúde física e mental mereceria cuidados acrescidos – não esta exposição e humilhação públicas nas capas dos jornais, quiçá incentivadas por uma família negligente cujo estilo de vida sempre dependeu da ficção criada pelo próprio.

 

É só isto o que me apraz dizer em relação à última entrevista perpetrada pelo antigo Soares. Se não é o delírio de um senil, então é um acto criminoso certamente punível pela lei.

Por Qué No Te Callas [11]

Num sermão quase inteiramente dedicado a babar o seu despeito por Margaret Thatcher, o ancião Soares, falho de ética, invoca os bons exemplos que vêm (como está tão incutido no anedotário mundial) da América Latina para afirmar a sua tese:

 

(…) quando não há dinheiro, não se paga (…)

 

A minha primeira reacção foi de revolta. Mas, quanto mais penso, mais se me entranha a soárica ideia. O decano Soares não está completamente fora de razão. Proponho até que se comece por aplicar a sua teoria em si próprio:

 

não há dinheiro, não se paga – a sua Fundação manhosa;

não há dinheiro, não se paga – as sua multas;

não há dinheiro, não se paga – a sua subvenção;

não há dinheiro, não se paga – o seu uso de automóvel de Estado, o condutor e o combustível;

não há dinheiro, não se paga – o seu gabinete, o seu secretariado e as ajudas de custo;

não há dinheiro, não se paga – a sua comitiva de segurança;

etc.

A manta curta

Ao contrário do trabalhador de uma empresa privada, o funcionário público tem a possibilidade de, em datas predeterminadas, votar pelo despedimento do patrão que não o satisfaça. Mas isto, curiosamente, nunca entra nas contas do tal “princípio da igualdade”.

 

O “princípio da igualdade” encalhado na Constituição e tão galhardamente defendido agora pelos senhores juízes do TC é, conforme as conveniências, uma manta curta.

Falta de vergonha

António José Seguro, acima fotografado em todo o seu magnetismo enérgico, diz que Passos Coelho quer fugir às suas responsabilidades. Seguro, recorde-se, lidera o partido que arrombou os cofres do Estado, provocou a hecatombe que obrigou ao resgate financeiro, liderou as negociações com a troika – e depois fugiu, afirmando-se agora contra tudo o que assinou e, cobarde, não teve coragem de aplicar.

Vila Franca do Campo, Açores

 

Em Vila Franca do Campo, Açores, a Câmara Municipal (do Partido Socialista) adjudicou em 2011 obras de vários milhares de euros à empresa do marido da vice-presidente, Elga Costa.

 

Além disso, o presidente da Câmara, enquanto presidente do conselho de administração da Fundação Escola Profissional de Vila Franca do Campo, contratou a mesma empresa para fazer obras – e lá foram mais 75.000 euros.

 

Além disso, o presidente da Câmara tem um cunhado, de nome José Braga, chefe da divisão financeira da autarquia – e que também trabalhava em empresas que eram contratadas para realizar alguns trabalhos no município.

 

Estes factos parecem sugerir uma autarquia socialista dominada pela corrupção e nepotismo. Deve ser para limpar essa imagem que o Partido Socialista, nas próximas eleições autárquicas, vai apresentar um candidato com reputação acima de qualquer suspeita: Ricardo Rodrigues!

Igualdade, mas pouca

 

Os juízes do Tribunal Constitucional, que formam o aparente conselho de sábios que utilizou o princípio da igualdade para chumbar algumas das normas do OE 2013, nomeadamente as respeitantes aos funcionários públicos e pensionistas, são os mesmos que se podem reformar aos 40 anos com apenas 10 de serviço. Pertencem, também, à classe que ficou de fora da actualização da idade da reforma na Função Pública, mantendo-se esta, no caso dos juízes, nos 61 anos.

 

Quem decide sobre a igualdade dos outros não pode, obviamente, ser igual aos outros.

Vandalismos

A coberto da noite, alguém rasgou uns painéis da Fundação José Saramago. De pronto, esta veio insurgir-se – e, não se contendo, fez uma associação extremamente forçada entre estes actos de vandalismo e outros “actos de vandalismo” que afirma estarem sendo praticados contra “a soberania e os direitos” de Portugal. Uma coisa é evidente: o espírito gratuito de José Saramago sobrevive na fundação com o seu nome.

 

Como eu não gosto de vandalismos, não tenho problema algum em também condenar esta reinterpretação gráfica que alguém fez aos ditos painéis. Mas, pela mesma razão, acho muitíssimo mais danoso o acto de vandalismo que António Costa perpetrou contra a Casa dos Bicos – ao dá-la para guarida da Fundação José Saramago.