A grande pequena petição

Tenho acompanhado, por osmose informativa inevitável, a histeria de certos sectores da nossa sociedade com o número de assinaturas da petição criada na sequência do manifesto assinado por 74 dos patetas que nos enfiaram no buraco em que estamos.

 

– 6000 assinaturas no domingo

 

– ultrapassa as 16.900 assinaturas, ontem

 

Parecendo elevados, estes números são tão pequenos como os signatários do manifesto. Senão vejamos:

 

– Petição Contra o Abate do Pitbull Zico, 79.836 assinaturas

 

– Petição Desperdício Alimentar, 74.087 assinaturas

 

– Petição Katinka Simonse tortura e mata animais em nome da “arte”, 62.665 assinaturas

 

E uma das minhas preferidas:

 

– Petição Recusamos a presença de José Sócrates como comentador da RTP, 139.296 assinaturas

Uma conspiração de estúpidos

Chamem-me romântico, sentimental, ingénuo, o que quiserem. Sou o primeiro a aceitar que eu seja uma ilha de anacronismo nestes tempos moderninhos e sofisticados. Digam o que quiserem, façam o que vos apetecer. Eu ficarei cá na minha de achar que o jogo, qualquer jogo, deve ter um mínimo de regras e que devemos um módico de respeito por quem o joga connosco. E estes cavalheiros que fazem a política que vamos tendo, implícita ou explícita, seja a “grande” que se mostra nas televisões ou a “micro” que se pratica nos blogues, das duas uma: ou são idiotas; ou acham-me, pelo argumentário que exibem, um completo néscio. Acontece que eu não gosto que, apenas pelo meu razoável anonimato, me assumam parvo. Não gosto. Como diria o saudoso Pinheiro de Azevedo, não gosto, é uma coisa que me chateia – pá!

Olhemos para os sorteios de automóveis que o Fisco irá fazer. Seria de esperar que alguém receber algo em troca de quase nada fosse considerado desejável. Afinal, andamos há décadas a preencher totobolas, totolotos e bingos; a comprar lotarias, rifas e raspadinhas; a coleccionar caricas de refrigerantes e a fazer chamadas de valor acrescentado para programas de entretenimento de valor reduzido. E no entanto…

… e no entanto, políticos, jornais e blogues acotovelam-se para encontrar a iniquidade.

Não tenho problemas em conceder que talvez houvesse outras formas de fazer isto. Por exemplo, pergunto-me se, em vez de adquirir automóveis para sortear, o Estado não deveria recorrer àqueles que já possui sem deles retirar qualquer mais-valia para o interesse público – como o Mercedes Benz S350, pertença da Direcção Geral das Finanças e do Tesouro, cedido a Sua Excelência Dinossoárica. Também acho interessante que, de entre aqueles que vêm papagueando sobre o tema, muito poucos chamem a atenção para o contribuinte português ter que ser aliciado com o prospecto de automóveis para fazer aquilo que é a sua obrigação.

Mas não.

O Bastonário dos TOC, pessoa que pelo seu passado de 12 anos como deputado socialista, devia ver as suas declarações serem cuidadosamente relativizadas, mostra-se compungido pelos coitados dos sorteados que não têm meios para sustentar o Audi atribuído. Não fosse isto suficiente, ainda acusa a medida de ser publicidade encapotada à Audi – assim uma espécie de Renault Roadshow F1, com menos Zé-que-não-fez-falta e incómodos para o trânsito. Curiosamente, ou talvez não, não me recordo de ouvir o bastonário dos TOC dizer que o Estado dar netbooks manhosos a criancinhas, com honras de Telejornal e tempo de antena, fosse publicidade encapotada à JP Sá Couto.

Bloguers, cobertos de manha, dizem que isto é incentivar o consumismo – como se o Pingo Doce tivesse sido invadido por multidões que acumulam, na despensa, caixas de esfregões Bravo só para terem mais hipóteses de receber o carro.

E o Expresso, o nosso querido Expresso dirigido por Ricardo Costa e por Nicolau-que-não-sabe-usar-o-Google-Santos, num rigoroso exercício de canalhice, expõe, com recurso a umas contas marteladíssimas, as despesas a que um automóvel deste género obriga o dono.

Quase dá vontade de recusar o prémio. O Estado, a RTP, a ACAPO, todas estas pérfidas entidades vêm tentando o pobre e ingénuo Zé Povo com frutos proibidos que lhe trarão azar e pestilência. Aguardo, com impaciência, a emissão do Preço Certo em que uma Ti Alzira recusará as chaves do carro que o gordo Mendes lhe quer entregar com um consciencioso “não, obrigado, não cederei à tua tentação, pérfida serpente, o meu orçamento familiar não permite sustentar esta carrinha 4×4 e não sei que mais posso fazer com isto a não ser usá-lo”.

Ora quem ouça, leia ou veja estas personalidades, bloguers, jornalistas e paineleiros, fica a pensar:

– que o contribuinte, ao receber o carro, assinará um contrato de fidelização;

– que o contribuinte, se não quiser o carro, será automaticamente inspeccionado pelas Finanças;

– que o contribuinte é idiota e tem que ser guiado, pela mão, por estes iluminados.

Quem diz, com o lábio trémulo de raiva, que é um insulto para o pobre desempregado receber um carro de 35000 euros – quer fazer esquecer o facto de que o desempregado pode vender o Audi que lhe caiu nas mãos e pagar dívidas ou equilibrar um orçamento periclitante. Quem esbraceja com a falta de respeito que é sortear um Audi A4 a um reformado ou a uma família que sobrevive com sacrifícios – não consegue imaginá-los a desfazerem-se da máquina para folgar as contas do mês, ou até para garantir as propinas da Universidade dos filhos. Estes iluminados, com problemas de matemática, recusam-se a ver que vender um destes Audi, mesmo que seja a metade do seu valor, permitiria a muitas casas MAIS DO QUE DOBRAR o seu orçamento anual.

Mas não. Para estes iluminados, o povo é fraco de cabeça e de moral. Será arrogância – ou atribuir aos outros os seus próprios vícios? Afinal, é esta gente que quer ficar, a todo o custo, com os quadros de Miró que não trazem vantagens e empresas públicas que sangram milhões de euros.

Conversas em família

… e, de repente, os defensores de Sócrates acham que, numa sessão de comentário, um jornalista está ali só para lançar os temas ao comentadeiro e controlar o tempo. Seria assim como um teleponto glorificado, facilmente substituível por um papagaio bem treinado – ou uma buzina e umas folhas de papel seguras com um calhau.

Pérolas de sabedoria

Dois amigalhaços almoçavam ruidosamente na mesa ao lado da minha. No meio da animada conversa, um deles sai-se com esta pérola de sabedoria:

 

– Sabes, o bom de um homem não ter cheta é saber que se uma mulher está com ele, é mesmo pela sua personalidade. O mau de um homem não ter cheta é saber que as mulheres nunca querem estar com ele apenas pela sua personalidade.

Sócrates e a dissociação da consciência

 

Analisemos as seguintes declarações:

“O primeiro-ministro criticou a proposta (…) de reestruturar a dívida portuguesa, dado que isso significa um “calote aos credores e significaria que Portugal passaria a fazer parte da lista negra”. (…) reestruturar uma dívida significa pagar um preço em miséria, desemprego e falências e, pior do que isso, significa pôr em causa o projecto europeu e a moeda única.”

E agora analisemos estas:

“Teria assinado o manifesto (que defende a reestruturação da dívida), porque estou de acordo com ele”

As primeiras pertencem a Sócrates, em 2011, quando ainda era primeiro-ministro. As segundas também (!), tendo sido proferidas no seu magazine domingueiro, em pleno 2014. Sócrates, o bandoleiro, está a perder qualidades: já demora 3 anos a dizer uma coisa e o seu contrário.

 

Podia, mas não era a mesma coisa

Eu às vezes acho que somos um pouco injustos para com António José Seguro. Dizemos que o homem é aborrecido e sonso, mas ele até é um pândego, sempre pronto a alegrar o ambiente com uma piada:

 

António José Seguro garante que o PS também sabe governar com rigor, disciplina orçamental e pôr as contas públicas em ordem.

 

Se o PS podia governar com rigor e disciplina orçamental? Podia, mas não era a mesma coisa.