Tordo

Começo por uma declaração de desinteresses: eu não conheço Fernando Tordo. Vi-o um punhado de vezes no Colombo, e antipatizei com o seu ar. Estarei enganado, ou a ser injusto? É bem possível que sim. Afinal, como já disse, não o conheço e, assim, não posso formar uma opinião baseada em factos – ao contrário de pessoa minha amiga, que o conhece pessoal e profissionalmente, e o achou “um vaidoso insuportável”. Mas tenho seguido com alguma curiosidade esta telenovela que o cantor Tordo gerou com a sua “emigração”. Por isso, fiz o sacrifício de ler com algum cuidado a sua entrevista ao Público.

 

O título da peça é “O país está irrespirável para uma pessoa que faz música”. Eu questiono: admito que esteja mal para quem faz música – mas e então, para ele, também está?

 

O próprio começa por se admitir surpreso pela polémica à volta da sua saída:

 

Eu não percebo por que é que a saída de um único cidadão, é músico mas podia ser engenheiro ou trolha, pode causar tanta confusão e tanta polémica. É por eu ser uma figura pública? O que eu leio e o que as pessoas escrevem é que o tipo está velho, já não interessa… então por quê tanta preocupação?

 

Quero, desde já, descansá-lo: eu não estou preocupado pelo cantor Tordo emigrar. Preocupado estou por ainda termos cá Miguel Ângelo, João Pedro Pais, Represas e alguns outros que não me importaria que fossem com ele – mas não estou preocupado por nos termos livrado do bardo Tordo. E só a sua extrema modéstia, da qual sabemos possuir oceanos, pode explicar a surpresa com a “confusão” e “polémica” pela sua ida para o Brasil. Imagino que não passe pela sua cabecinha que a “polémica” esteja relacionada com a encenação mediática das “cartas” trocadas – de forma bastante pública e publicitada na comunicação social e redes sociais – entre ele e o filho João.

 

Não: só a ingenuidade do artista Tordo pode explicar esta surpresa. Se não fosse ingenuidade, teria que assumir ser hipocrisia – e disto, sabemos que Tordo é incapaz.

 

Também é interessante que Tordo afirmou sair sem amargura ou tristeza – mas demora-se vários parágrafos em queixas sobre falta de trabalho, de que as autarquias não têm dinheiro, de que não é um “artista na crista da onda”, de que “não aceita esta gente que está a fazer mal ao país” que apelida mesmo “alarves”. [Não me recordo de o ouvir dizer de Sócrates, enquanto este delapidava as finanças públicas, que “fazia mal ao país” – talvez porque, lá está, as autarquias nessa altura tinham carte blanche para se endividarem e contratarem artistas consagrados como Fernando Tordo para educarem o povo.]

 

(…) as autarquias, que são o grande empregador dos artistas em Portugal, (…)

 

E Tordo não consegue compreender que, com estas palavras, expôs muito do que está mal no mercado artístico nacional.

 

Foram os portugueses que os escolheram [Governo].
Foi a escolha de muitos portugueses, que eu respeito, mas foi a escolha deles e eles é que têm de os aturar. Eu não.

 

Este conceito de democracia é suficiente para percebermos a filosofia de Fernando Tordo: se quem vence eleições legítimas não é do seu canto, então não tem que aceitar que esteve em minoria – e sai. É uma ideia muito cara a gente de um certo lado do nosso espectro político.

 

Acha que a política cultural, ou a sua ausência, que está a determinar o contexto que faz com que artistas como o Fernando Tordo tenham problemas em encontrar trabalho?
Claro, porque Portugal é um dos únicos países do mundo em que artistas com 50 anos de carreira são tratados como se fossem cães. Claro que sim. São tratados como se fossem lixo, claro que sim. Vamos a Espanha, vemos artistas consagrados com 40 ou 50 anos de carreira e há um respeito pela vida inteira de uma pessoa dedicada a uma determinada matéria, seja a música, a arquitectura, seja a medicina, seja o que for. Respeito.

 

O poeta Tordo diz que artistas com 40 ou 50 anos de carreira, em Portugal, são tratados como lixo e noutros países são respeitados. Tordo cai no erro de pensar que “longevidade” implica “qualidade” – e o entrevistador não pareceu interessado em chamar a atenção para este facto.

 

Portugal está a varrer para o esquecimento as pessoas que têm esse passado?
Se é o objectivo deles, comigo resultou perfeitamente.

 

Não, não resultou perfeitamente – infelizmente.

 

Mas há artistas da sua geração que continuam a ter públicos, a fazer concertos. Por exemplo Sérgio Godinho. Teria o Fernando Tordo ficado ancorado nos seus dias de glória, sem ser capaz de se modernizar?
Eu sou o único português que gravou com uma orquestra de jazz que é uma das melhores do mundo, sou o único português que cantou 12 poetas prémio Nobel da Literatura em cinco línguas. Eu não sei ao que se está a referir. Acredito que não saiba. As coisas estão feitas, só não as ouve quem não quer, a culpa não é minha. Conhece mais algum português que tenha feito um disco em português com a melhor orquestra de jazz da Europa, a National Youth Jazz Orchestra? Gravámos em Abbey Road, nos célebres estúdios dos Beatles. As pessoas não sabem? Ficam a saber. Actualizar-me mais?

 

O entrevistador faz algo interessante: dá o exemplo de Sérgio Godinho como alguém que continua com público e concertos. Fernando Tordo, sempre modesto, lista depois um rol de exemplos da sua “criatividade” e “dinamismo”. Falha, contudo, ao não retirar a conclusão que me parece, dadas as circunstâncias, óbvia: ele não tem a actividade e a visibilidade de Sérgio Godinho porque este é um artista infinitamente mais interessante do que o vate Tordo.

 

Vejamos: perguntem-me de repente e eu, sem consultar a Internet, consigo indicar dois (dois!) temas de Fernando Tordo. De Sérgio Godinho, Vitorino, António Pinho Vargas ou Jorge Palma, poderia debitar uma boa dúzia deles. Raios: até Mário Mata deixou uma maior pegada na minha memória audiófila do que Fernando Tordo.

 

A questão, como eu a vejo, é que Fernando Tordo não tem o mesmo tipo de aclamação de que outros artistas gozam – porque não a merece. Tordo teve o seu lugar ao Sol porque pertencia a uma certa casta política e relacionava-se com as pessoas certas – mas isso, hoje, parece não bastar.

 

Se virmos bem, Fernando Tordo até tem razões para se orgulhar: conseguiu a proeza de alicerçar uma carreira de meio século – no facto de ter sido amigo de Ary dos Santos.

A lei de Godwin

Pinto Monteiro, que eu por momentos confundi com Marinho Pinto – não sei se por esta alarvidade digna do segundo, se pela ternura que ambos dispensavam ao nosso ex-Querido-Líder Pinto de Sousa – é o mais recente exemplo da lei de Godwin:

 

Pinto Monteiro acusa o Governo de estar a imitar o regime nazi ao criar guetos no interior do país. (fonte: TSF)

 

O maior problema é que Pinto Monteiro não é um qualquer pré-adolescente mental que, no anonimato da Internet, discute com outros pré-adolescentes mentais sobre a superioridade moral do open-source ou exibe o seu amor pela Santa Google ou por São Torvalds. Pinto Monteiro foi o Procurador-Geral da República e, não só pelo cargo que desempenhou, como principalmente pela forma como o desempenhou – mais parecendo um Escondedor-Geral da República -, devia manter uma reserva e decoro acrescidos nas suas posições públicas.

 

Por isto, eu proponho Pinto Monteiro para o prémio “Por Qué No Te Callas” da semana.

O Chico dos lingotes

 

Francisco Assis, acima lembrado por uns gloriosos supapos que levou em Felgueiras, alinhou com o cinzento Seguro na construção de uma narrativa (que bela palavra: narrativa). Agora, a um mês e meio da comemoração dos 40 anos do 25/4, compara-se o actual governo ao Estado Novo, os seus líderes a Salazar e qualquer dia vem a conversa da PIDE (talvez hoje tenhamos esse privilégio, depois da manifestação dos polícias).

 

A determinada altura, Assis faz o paralelo entre o discurso do Governo que, em suma, defende que o país está melhor mas as pessoas ainda não sentem a diferença, com a postura do Estado Novo: povo pobre e cofres cheios de lingotes de ouro. Aqui, não o desminto. Se há alguém que percebe muito acerca dos lingotes de ouro nos cofres portugueses são os socialistas. Afinal, andaram a esbanjá-los durante mais de uma década.

O sorriso da Gioconda

George Clooney defendeu há dias, durante uma apresentação do seu filme mais recente, que o friso de colunas do Partenon, contrabandeado em 1803 e actualmente exposto no Museu Britânico, deveria ser devolvido à Grécia. Estas palavras geraram tanta gratidão na Grécia que até levaram a um convite, feito pelo seu ministro da Cultura, para que Clooney fosse uns dias “ver uma infinidade de antiguidades gregas conservadas sob o sol mediterrâneo”. 

 

Eu não tenho muitos problemas com o que Clooney disse. É fofinho e seria simpático que os ingleses o fizessem, pois já puderam brincar dois séculos com os mármores. Mas estas celebridades razoavelmente inteligentes têm um problema: entusiasmam-se e nunca sabem parar enquanto estão a ganhar. Poucos dias depois, George Clooney afirmou que a Mona Lisa devia ser devolvida aos italianos.

 

Acontece que há uma grande diferença entre o friso de Partenon e a Mona Lisa: o primeiro está em Inglaterra como resultado de um acto legalmente dúbio; a pintura está em França porque foi vendida num negócio – em aparência – perfeitamente legítimo.

 

Argumentará Clooney que as obras de arte devem ficar no seu país de origem? Defenderá Clooney, então, que Portugal devolva os Mirós a Espanha – e Espanha, os deuses nos acudam, devolva-nos Kátia Aveiro?

 

Há quem justifique esta ideia de Clooney com a teoria de que a venda do quadro teria sido decidida por um Leonardo da Vinci já pouco esclarecido, ou um seu herdeiro sem noção do real valor daquilo que estava a negociar. Mas a questão é que defender a anulação de um negócio de arte por ter sido mau para uma das partes, ou porque uma das partes estaria mal informada, seria um erro. Se George Clooney seguir esta linha, vai abrir uma Caixa de Pandora com consequências imprevisíveis. No limite, tornaria legítimo que pedíssemos a Clooney a devolução do que pagámos – pelos bilhetes de Batman & Robin.

Vítor Gaspar, o Consensual

 

O lançamento do livro “Vítor Gaspar por Maria João Avillez” causou uma enchente no Centro Cultural de Belém. Gente de todos os espectros políticos, à excepção dos fanáticos de extrema esquerda que devem andar entretidos a escavar trincheiras algures em Serpa, fez questão de estar presente no evento, mostrando o seu apreço por este homem. De João Proença a Vítor Bento, de António Vitorino (que apresentou o livro) a Pires de Lima, todos deram um sinal de que as pontuais discordâncias não põem em causa o valor de Vítor Gaspar.

 

Fiquei surpreendido.

 

Sempre disse que Vítor Gaspar seria lembrado com saudade, mas não pensei que o reconhecimento do seu trabalho chegasse tão rapidamente. Provavelmente, até ele estará surpreendido.

 

Sei que vivo num país onde um papalvo bem falante, enfiado à calçadeira num fato caro, é muito mais apreciado do que um homem honesto que diz aquilo que nem todos querem ouvir. Sei que o português gosta do homúnculo medíocre alavancado a cargos de chefia pelo seu dom da oratória. Gosta que vença o pequenino, que ganhe o mole, pois assim a vitória está dissociada do trabalho e do valor. É mais democrática.

 

Fica a minha vénia, também por isto, a Vítor Gaspar.