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Sobre Sócrates no Expresso [3]

“Ele (Lula da Silva) foi a Sciences Po receber o título honoris causa quando comecei a estudar lá, por coincidência. Chegou a Lisboa e quis falar comigo e ninguém lhe dava o meu número de telefone, já eu estava em Paris. Ele fez uma fita, quero falar com o Sócrates! Não tinha o telefone de Paris. Quando chegámos à fala, disse-lhe que íamos estar juntos, depois jantámos na Embaixada do Brasil, antes da sessão. Um jantar divertidíssimo, até às duas da manhã. No dia seguinte, estavam lá os catedráticos todos, no doutoramento, e o Lula disse-lhes que eles tinham ali aquele gajo como étudiant – eu fui e ainda sou estudante de Sciences Po – e pediu-me para lhes mostrar o meu cartão de aluno. Mostra, Sócrates! Mostra!”


Mostra o cartão, Sócrates! Mostra!


Tudo isto é pobrezinho, foleiro, labrego, dedinho espetado a segurar a bica. Nada mais é do que o deslumbramento de um bando de parolos quando vê os neons da cidade. É o pato-bravo que, de fato de treino, atravessa a rua para beber a bica – mas leva no dedo, à laia de aliança, o porta-chaves do Mercedes. É a dona Vitalina que exibe às amigas da aldeia o filho, caloiro da faculdade, vestido com a batina e exulta que o menino “está a estudar para doutor”.

Sobre Sócrates no Expresso [2]

Aos bochechos, como se fossem teasers de um qualquer blockbuster de Hollywood, vão saindo fragmentos da entrevista que Sócrates deu a Clara Ferreira Alves (quem mais?). Sócrates diz, com a inocência das crianças, que nacionalizou o BPN porque “não sabia o que aquilo era”. Pelos vistos, não sabia ele; não sabia Teixeira dos Santos, ministro do sector; não sabia o inepto Constâncio, governador (pago imperialmente) que, com um encolher de ombros, afirmava não fazer a mais pequena ideia do que se passava no sector que devia supervisionar; nem o sabiam as centenas de funcionários do Banco de Portugal, pagos regiamente, mas cuja utilidade ninguém me conseguiu nunca explicar.

Portanto, Sócrates e este bando estão ilibados. Se “não sabiam o que aquilo era”, porquê esperar que fossem à descoberta?

A tese

Então, vejamos se percebi.

 

Há tempos, Maria Henrique Espada, jornalista da Sábado, abordou José Sócrates para confirmar que a tese que este estaria(?) a preparar na Sciences Po era sobre tortura. Sócrates desmentiu categoricamente e até adiantou:

 

“Não. Peço-lhe aliás que não escreva isso porque estará a enganar os leitores da sua revista e estará a dar-lhes uma informação errada.” [Pergunto-me se serei o único com vontade de rir por ver Sócrates preocupado com a hipótese de “enganar” outras pessoas e “dar-lhes informação errada”.]

 

A jornalista, perante tal desmentido, ficou-se e não publicou nada.

 

Fast-forward de algumas semanas.

 

O Expresso publica uma notícia, com declarações do próprio José Sócrates, sobre a tese deste que tem como tema – A Tortura (e os regimes democráticos). Aliás, retiro o que disse: o Expresso não publicou uma notícia – o Expresso publicou uma celebração, como se daqui resultasse a reformulação dos equilíbrios geo-estratégicos, a solução para a Crise Mundial, e Sócrates se tivesse tornado automaticamente candidato ao Nobel da Paz E da Literatura.

 

Maria Henrique Espada e a revista Sábado, ao terem conhecimento da notícia do Expresso, decidiram confrontar Sócrates com o sucedido. Este, com a fleuma que lhe é habitual, respondeu:

 

“Não lhe admito isso, nem que me peça explicações.”

 

“(…) que interessante, um jornalista a pedir-me explicações, costuma ser ao contrário.” [Daqui ficamos a saber que, para Sócrates, e como Judite de Sousa bem o sabe, o normal é ser ele a mandar no jornalista.]

 

“Você disse que a minha tese era sobre tortura, e não é, a minha tese não é sobre tortura. É sobre tortura em determinadas circunstâncias, embora, é claro, eu não tenha na altura acrescentado esta informação.” [Daqui se vê que, quando tal lhe convém, Sócrates é muito cioso da verdade absoluta dos detalhes.]

 

“Isto é um assunto privado e não quis permitir que amigos meus, ainda que bem intencionados, usem informação que só a mim diz respeito para efeitos de quando deve vir a público. Eu é que decido a quem digo e como o digo.” [Aqui se vê que, para Sócrates, o homem que os jornalistas/hagiógrafos afirmam defender ferozmente a sua vida privada, esta é um valor absoluto e irrevogável – para ser exposto quando, onde e como for mais vantajoso.]

 

E assim percebemos, pela história da sua polémica tese na polémica Sciences Po, noticiada no polémico Expresso do polémico Balsemão e editoriado pelo polémico Ricardo Costa, e que será publicada com o apoio da polémica Fundação do polémico Soares, sendo prefaciada pelo polémico Lula da Silva – assim percebemos como o polémico José Sócrates, numa inversão de 180º, tomou o gosto à Verdade Absoluta e à Impecável Correcção Factual.

 

Ou será…?

 

É que basta ler esta investigação de António Balbino Caldeira sobre a notícia do Expresso, onde um esfuziante Ricardo Costa anuncia que:

 

“(…) Sócrates escolheu este tema para a sua mémoire (tese de mestrado), que defendeu em Julho na Sorbonne, em Paris (…)”

 

para se perceber que uma mémoire não é bem, bem, bem uma tese, tal como a Sciences Po não é bem, bem, bem a Sorbonne (esta, aliás, nem tinha nada a ver com a tese de Sócrates), tal como… enfim, em se tratando de Sócrates, receio virmos a descobrir que a sua Paris não era bem, bem, bem Paris – mas sim Casal do Marco.

 

Sócrates, o eterno empolador da sua própria realidade – ajudado por Ricardo Costa, aqui apenas ligeiramente melhor do que o seu colega Nicolau Santos.

 

Banalidades

Sérgio Azevedo, deputado do PSD, apresentou um relatório sobre as PPP em que as “opções” do governo Sócrates são arrasadas. Rui Paulo Figueiredo, o homem omnipresente, considera este relatório “uma banalidade confrangedora”.

Confesso que não é frequente, mas desta vez estou do lado do deputado socialista. Infelizmente para (quase todos) nós, as notícias de irregularidades nas decisões socráticas já se tornaram demasiado banais.

Ana Gomes, um Rottweiler com eles no sítio

 

Surge hoje a notícia de que a União Europeia vai investigar Passos Coelho, Relvas e a Tecnoforma, tudo motivado por uma queixa de Ana Gomes.

 

Ponto prévio: concordo com o apuramento de responsabilidades em processos menos claros, independentemente do quadrante político dos intervenientes.

 

Posto isto, parece-me irónico que a queixa tenha partido desta máscula eurodeputada. Ana Gomes esteve com a sua frondosa queixada bem presente enquanto o ex-querido líder, agora reduzido à condição de comentadeiro da estação pública, e respectivos apaniguados transformavam Portugal num tipo de faroeste sem lei. Apesar de fazer parte de um tipo de oposição interna ao sultanato de Sócrates no PS e de ter sido comparada a um “rottweiler à solta” por um dos elementos do seu gabinete, não consta que tenha sido levantada qualquer investigação a Sócrates por iniciativa da senhora.

 

Numa outra perspectiva, finalmente surge uma notícia acerca de Relvas após a sua saída do Governo. Todo este silêncio mediático poderia levar uma qualquer mente paranóica a assumir que houve uma acção concertada para o afastar. Longe de nós pensar que algo deste género se pode passar aqui no rectângulo.

 

Old habits die hard!

 

É mais forte do que ele. Depois de afirmar, no decorrer da sua tentativa de ressurreição mal amanhada, que só tinha uma conta, há mais de 25 anos, na CGD, o nosso filósofo ex-emigrante viu cheques seus serem encontrados numa escrivaninha abandonada numa quinta ribatejana. E das duas uma: ou os cheques da CGD sofreram um “restyling” radical ou o traiçoeiro do Alijó foi, uma vez mais, apanhado a mentir. Estou mais inclinado para esta última hipótese.

 

Ficámos, ainda, a saber que as modestas poupanças que foi arrecadando deram para, pouco depois de ter sido destronado, adquirir um Mercedes Classe S novo, pois claro, no valor de €95.000, e que o empréstimo que conseguiu obter, de forma miraculosa, sem garantias (algo que só está ao alcance de predestinados), deu para viver aqui. Magnifique!