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Relvas sai pela porta pequena

Relvas saiu do Governo. Não faz falta. Foi, desde o início, um espinho cravado na credibilidade que se exige a um Governo em funções numa fase tão delicada da história do País. Faltou-lhe, também, a coragem de lidar com alguns dossiers com a dureza que era necessária. O monstro chamado RTP e os caciques municipais são disto óptimos exemplos. Acobardou-se e sai pela porta pequena.

 

Também sai, ao que parece, sem a licenciatura. Será que o mesmo vai suceder ao novo comentador-estrela da RTP, ou facto de ter ordenado o encerramento da Universidade vai trazer os seus dividendos?

O monólogo

Não vi o monólogo de Sócrates – prezo demais a minha higiene. Segundo parece, Sócrates está cá “para fazer oposição à narrativa única“. Não deixa de ser irónico, pois o ex-Querido-Líder mantém intacta a sua própria narrativa única: nunca tive culpa, nunca cometi erros, os outros é que nos desviaram do caminho do progresso.

 

A verdade, verdadinha, é que teria sido bem mais económico, e com igual resultado, pouparem-nos a mais de uma hora de suplício. A entrevista de Sócrates, no fim de tudo espremido, pode resumir-se a isto:

 

O louco de Paris

Assistimos, hoje, a um espectáculo deplorável. Sócrates provou que vive numa bolha, alheio a tudo o que os factos acabaram por provar. O desplante do homem roça a sociopatia. Só alguém desligado da realidade fala das PPP’s com a leviandade com que Sócrates o faz. Só um psicótico aborda a evolução da dívida com a cara de pau mentirosa apresentada pelo exilado de Paris.

 

Sempre achei que Sócrates era falso, trapaceiro, perigoso e intimamente desonesto. Agora, acho que é louco.

Sócrates visto por alguns

Henrique Neto: “É evidente que as intervenções do engenheiro Sócrates, conhecendo como se conhece a sua maneira de fazer política vão introduzir no debate político ainda mais agressividade, mais mentira e mais oportunismo.”


Maria Filomena Mónica: “Este regresso de um delinquente político só vem mais uma vez mostrar que quando se entra na carreira do crime é difícil sair. Custa-me que isto seja  na RTP e pago pelo meu dinheiro – apesar de ele ter dito que vem em regime pro-bono – e por isso vou mandar desligar o contador da luz para deixar de pagar a taxa audiovisual. Vou comprar velas.”

 

Excertos daqui.

Sobre a suposta entrevista

A esperança, pelos vistos, é a última a morrer – pelo menos, no jornal I.

 

O jornal I anuncia “o regresso do animal feroz” (eu teria simplesmente dito “o regresso do animal”) e lista uma série de “perguntas essenciais” às quais urge obter resposta. Contudo, parece que o DN publicou, na sua edição em papel, que a entrevista abordará todos os temas que o ex-primeiro-ministro considera importante serem esclarecidos a propósito dos seis anos da sua governação. Ou seja, nada muda – é o jogador que continua a estabelecer as regras.

A associação de moradores

A uma Associação de Moradores pede-se que seja um veículo das preocupações dos moradores de um determinado bairro junto de quem de direito. Uma voz colectiva, necessariamente mais forte do que as vozes individuais que a compõem, que pugne por melhorias na qualidade de vida de uma determinada população.

 

Descobri, numa desventura cibernáutica que correu mal, isto. Um colectivo de imbecis, que decidiu auto-intitular-se Associação de Moradores de Monte do Tadeu / Santo Isidro – Bonfim, Porto, faz da internet e das redes sociais um campo de batalha político que, nos últimos tempos, se tem desfeito em loas ao regresso do refugiado de Paris. Esta “associação”, impulsionada por homenzinhos como este, produto das estufas da juventude socialista, fã de Sam the Kid e Shakira, dono de um invejável CV político (passou por todas as tasquinhas do politiqueiro profissional), não passa de uma pequena célula de uma organização de terrorismo político ao serviço daqueles que puseram Portugal de joelhos. 

 

É este o tipo de política e político de que o país precisa?

O regresso do ex-Grande-Timoneiro [2]

Quererá Sócrates ser primeiro-ministro ou presidente da República? O tempo aconselharia o segundo, mas tem pouco poder para a sua obsessão totalitária e é demasiado institucional para o seu temperamento. A não ser, claro, que usasse esse posto para promover um governo de iniciativa presidencial à sua imagem: Galamba seria ministro das Finanças; José Lello ministro dos Negócios Estrangeiros; Maria de Lurdes Rodrigues regressaria à Educação e Paulo Campos seria ministro das Obras Públicas; Isabel Moreira teria o ministério da Cultura; Ricardo Rodrigues ficaria com a pasta da Justiça e Armando Vara seria nomeado Procurador Geral da República.

O regresso do ex-Grande-Timoneiro

O António mostrou-se aqui incrédulo com o regresso do ex-Querido-Líder à vida política – regresso explícito, diria eu, pois tem sido óbvio que nunca desmobilizou o seu exército de fiéis.

 

Eu nunca duvidei disso.

 

Quem me conhece, sabe que eu nunca duvidei disso. Afirmei-o repetidamente em conversas privadas e, mesmo aqui no blogue, aflorei a questão diversas vezes. Porquê esta minha certeza? Sócrates sempre foi um funcionário da política: como esperar que se adaptasse a uma vida no sector privado? E, depois, como tiranete que é, todo este episódio-Paris foi múltiplas vezes visto na História – e revisitado na ficção: há um ditador que é deposto; exila-se no estrangeiro; controla, a partir daí, a quadrilha que ficou no terreno com a missão de sabotar o percurso do seu sucessor; quando o momento parece oportuno, regressa com a aura de salvador – sabendo que as multidões têm memória curta.

 

Para muita gente, não é Sócrates a origem do nosso estado actual mas sim o governo de Passos Coelho, e já dizem abertamente que, se as eleições fossem agora, votariam Sócrates. E é tão surpreendente assim? O que a populaça viu foi o ex-Querido-Líder, ao apresentar o plano de resgate, afirmar que, “ao contrário do que tinha sido especulado nos jornais”, não haveria descida de salários, redução de reformas, perda de subsídios e decréscimo do investimento – até ficava a impressão de que éramos nós quem fazia um favor à troika. É isso que as pessoas recordam, não a cara fechada de Teixeira dos Santos por discordar daquele discurso, pois preferia preparar a população para o facto de que, pelo contrário, este processo iria doer e muito. Nós gostamos de achar que o eleitorado é todo informado e lógico – mas esse é uma minoria, que lê jornais e separa a realidade daquilo que os canais de informação debitam. O resto, ouve as diatribes do “professor Marcelo” e aceita-as como letra de lei.

 

A recente entrevista de Maria de Lurdes Rodrigues, tentando limpar à esponja o que foi o seu consulado, não pode ser coincidência. O recente recrudescer da actividade faladora de Santos Silva não pode ter sido coincidência. A vinda de Sócrates não é, estou convicto, um plano maquiavélico de Relvas para fragilizar António José Seguro (como se ser António José Seguro não fosse fragilizante o suficiente). Se assim é, então temo que Relvas, mais do que incompetente, seja um perfeito idiota. Alguém imagina que neste momento, quando a Troika atribui responsabilidades a este Governo, Sócrates seria bem-comportado e se limitaria a apontar a inconsequência de Seguro? Claro que não. Relvas chamar Sócrates para esse trabalho é como ter uma cascavel como animal de estimação. Acredito mais que seja uma batalha da guerra política que se vem travando na RTP. E em se confirmando que Sócrates não receberá (dinheiro) pelo seu trabalho, torna-se óbvio que, para ele, é o ter este palco aquilo que o move.

 

Acho este regresso preocupante? Sem dúvida. Como todos os sociopatas, Sócrates consegue parecer convincente nas suas artimanhas; como todos os sociopatas, Sócrates é incapaz de aceitar um contraditório sério. E como todos os sociopatas-tiranetes que se julgam vítimas de uma injustiça, Sócrates regressará ainda mais descontrolado e perigoso do que antes.