O António mostrou-se aqui incrédulo com o regresso do ex-Querido-Líder à vida política – regresso explícito, diria eu, pois tem sido óbvio que nunca desmobilizou o seu exército de fiéis.
Eu nunca duvidei disso.
Quem me conhece, sabe que eu nunca duvidei disso. Afirmei-o repetidamente em conversas privadas e, mesmo aqui no blogue, aflorei a questão diversas vezes. Porquê esta minha certeza? Sócrates sempre foi um funcionário da política: como esperar que se adaptasse a uma vida no sector privado? E, depois, como tiranete que é, todo este episódio-Paris foi múltiplas vezes visto na História – e revisitado na ficção: há um ditador que é deposto; exila-se no estrangeiro; controla, a partir daí, a quadrilha que ficou no terreno com a missão de sabotar o percurso do seu sucessor; quando o momento parece oportuno, regressa com a aura de salvador – sabendo que as multidões têm memória curta.
Para muita gente, não é Sócrates a origem do nosso estado actual mas sim o governo de Passos Coelho, e já dizem abertamente que, se as eleições fossem agora, votariam Sócrates. E é tão surpreendente assim? O que a populaça viu foi o ex-Querido-Líder, ao apresentar o plano de resgate, afirmar que, “ao contrário do que tinha sido especulado nos jornais”, não haveria descida de salários, redução de reformas, perda de subsídios e decréscimo do investimento – até ficava a impressão de que éramos nós quem fazia um favor à troika. É isso que as pessoas recordam, não a cara fechada de Teixeira dos Santos por discordar daquele discurso, pois preferia preparar a população para o facto de que, pelo contrário, este processo iria doer e muito. Nós gostamos de achar que o eleitorado é todo informado e lógico – mas esse é uma minoria, que lê jornais e separa a realidade daquilo que os canais de informação debitam. O resto, ouve as diatribes do “professor Marcelo” e aceita-as como letra de lei.
A recente entrevista de Maria de Lurdes Rodrigues, tentando limpar à esponja o que foi o seu consulado, não pode ser coincidência. O recente recrudescer da actividade faladora de Santos Silva não pode ter sido coincidência. A vinda de Sócrates não é, estou convicto, um plano maquiavélico de Relvas para fragilizar António José Seguro (como se ser António José Seguro não fosse fragilizante o suficiente). Se assim é, então temo que Relvas, mais do que incompetente, seja um perfeito idiota. Alguém imagina que neste momento, quando a Troika atribui responsabilidades a este Governo, Sócrates seria bem-comportado e se limitaria a apontar a inconsequência de Seguro? Claro que não. Relvas chamar Sócrates para esse trabalho é como ter uma cascavel como animal de estimação. Acredito mais que seja uma batalha da guerra política que se vem travando na RTP. E em se confirmando que Sócrates não receberá (dinheiro) pelo seu trabalho, torna-se óbvio que, para ele, é o ter este palco aquilo que o move.
Acho este regresso preocupante? Sem dúvida. Como todos os sociopatas, Sócrates consegue parecer convincente nas suas artimanhas; como todos os sociopatas, Sócrates é incapaz de aceitar um contraditório sério. E como todos os sociopatas-tiranetes que se julgam vítimas de uma injustiça, Sócrates regressará ainda mais descontrolado e perigoso do que antes.