O que não percebo é porque raio a sra. Elisa Ferreira está mais preocupada com os nacionalistas franceses que podem eventualmente chegar ao poder – do que com os nacionalistas gregos que já estão de facto no poder coligados com o Syriza.
António Costa considera “dramática” a situação do emprego em Portugal. O desemprego em Abril/2015, governo PSD/PP e após um doloroso ajustamento, desceu para 13%; em Abril/2011, governo PS pré-bancarrota e após esbanjamentos eleitoralistas, estava em 12,4%. Gostaria que algum jornalista lhe perguntasse o porquê de estes 0,6% de diferença fazerem, para António Costa, a separação entre “herança de que se orgulha” e “situação dramática”.
Se ganhar as próximas eleições legislativas, o Partido Socialista vai querer reabrir negociações com o vencedor da privatização da TAP. E forçá-lo a baixar a participação comprada de 61% para 49%, de modo a manter o controlo da transportadora aérea em mãos do Estado. [in Expresso]
Quando governava, o PS fez um acordo com entidades que emprestaram dinheiro ao Estado. Passou à oposição e negou imediatamente os acordos que assinara meses antes, chegando a dizer, pela boca de Pedro Nuno Santos e quejandos, “não pagamos e os joelhos deles até tremem”. Agora, o PS ameaça “reabrir negociações” com quem quer que compre a TAP ao Estado, “forçando-os” a baixar a participação comprada.
Torna-se evidente que o PS não dá particular importância à palavra do Estado. Honra lhe seja feita, não se mostra preconceituoso: quer seja dada por si, quer seja dada por adversários, a palavra do Estado não é coisa para ser levada a sério. Repudia aquilo que deixou como herança – e repudia aquilo que herda.
Isto já seria mau, mas piora quando leio expressões como “querer reabrir negociações” e “forçá-lo a baixar a participação comprada”. “Forçar”, segundo o dicionário Priberam, pode significar:
– Exercer força contra;
– Entrar à força em;
– Obrigar, constranger;
– Violentar.
O que acontece se o outro lado não quiser “negociar” com o PS, uma vez que as condições do acordo de venda serão já definidas? Que armas pretende usar o PS para “forçar” uma entidade que adquiriu uma transportadora a abdicar de parte da sua participação e, mais importante, do controlo daquilo em que investiu muito dinheiro? O PS ameaçará represálias usando o seu peso de controlador do Estado? Sugerirá que não acatar o “pedido” implicará “dificuldades acrescidas” em futuros negócios? Ou irá comprar parte da participação, dessa forma enterrando mais dinheiro do contribuinte nas suas ideias estapafúrdias daquilo que é o papel do Estado?
Esta gente é perigosa, muito perigosa, e comporta-se como mafiosos.
Suponho que Costa, com a sua carinha de sapo de La Fontaine, se refere ao facto de o Governo estar prestes a cumprir quatro anos de legislatura (foi eleito em 5 de Junho). Acontece que eu gostaria que algum jornalista, não me interessa saído de onde, lhe perguntasse:
Dr. António Costa, não teria ainda mais razão para protestar em 2009, dado que o governo de Sócrates havia sido eleito em Fevereiro de 2005?
Algumas pessoas questionam-se o porquê de o PS ter avançado, ainda por cima em fase tão precoce, com um desconhecido como Sampaio da Nóvoa para a presidência. Eu tenho uma teoria.
Na década de 90, Mansell foi campeão de Fórmula 1 na Williams – e saiu no final desse ano. Prost foi campeão na Williams – e saiu no final desse ano. Damon Hill foi campeão na Williams – e saiu no final desse ano. Comentava-se que isto era a forma de a Williams, na altura uma força dominante na Fórmula 1, mostrar que podia fazer qualquer um campeão – e por isso nem se preocupar em segurar aqueles que o foram.
A candidatura de Sampaio da Nóvoa parece ser algo semelhante. Isto é apenas o PS, na sua habitual arrogância, a considerar a Presidência da República como propriedade sua – e a mostrar que conseguirá lá colocar qualquer palerma que se preste a ser útil.
Sampaio da Nóvoa diz candidatar–se para combater “grupos de pressão”. Será que inclui nestes o grupo de pressão sobre jornalistas constituído pelos dirigentes socialistas – pretéritos e actual?
Sampaio da Nóvoa avança para Belém “inspirado em Soares e Sampaio”. O proto-candidato vê neles “um legado de liberdade e uma herança que temos a obrigação de honrar e de renovar”. Sim: Soares, o cavalheiro que passou um mandato a fazer campanha contra o Governo de Cavaco Silva (“o gajo”) e não descansou enquanto não viu o seu PS no governo; Sampaio, o cavalheiro que geriu a sua agenda e arranjou uns pretextos manhosos para deitar abaixo um governo maioritário, só descansando quando viu o seu PS no governo. Soares deu-nos Guterres; Sampaio deu-nos Sócrates; Sampaio da Nóvoa quer-nos dar António Costa.
Talvez seja a isto que se costuma chamar “pesadas heranças”.
Quando um partido que deixa o país na bancarrota e se coloca, a si próprio, na bancarrota, tem quase 40% das intenções de voto – só podemos deduzir que este país não tem emenda.
Um partido que já tinha no seu historial dois apelos ao FMI. Um partido que deixou, em 2011, o país em pré-falência. Um partido que está, ele próprio, na bancarrota, devendo 11 milhões de euros à banca e limitado a soluções de recurso para fazer face às despesas correntes (numa curiosa reedição, à sua micro-escala, daquilo que fez em macro-escala no país).
Um partido com este historial entregou-se, no Domingo, a uma celebração masturbatória com o beneplácito de uma comunicação social que lhe prestou vassalagem com vastos directos – mas sem que eu tenha notado um especial escrutínio ao que se via.
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