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Um aroma

O PS está devedor de 11 milhões de euros à banca. O PS, para sustentar a campanha eleitoral que se aproxima, pretende financiar-se na banca em mais 1,5 milhões de euros.

 

O PS, por outro lado, já veio prometer pela voz do seu presidente que, em sendo eleito, tapará o buraco cavado no BES, tal como no passado recente fez aqueloutro cavado no BPN. Este é o mesmo PS que, à frente da autarquia de Lisboa, tomou múltiplas decisões que beneficiaram directa e indirectamente o supracitado BES. Este é o mesmo PS que sempre se apresta a amparar com mãozinha carinhosa e amiga (e bem recheada de dinheiro do contribuinte) qualquer trafulhice banqueira.

 

Há toda uma pestilência de promiscuidade a envolver isto sem que a ninguém pareça importar.

Incómodos

(excerto do Plano Inclinado de 12.02.2011, imediatamente “repensado” pela direcção)

 

Para mim, não há melhor atestado às qualidades de um homem – do que vê-lo a ser atacado por este PS.

 

O que diz o PS da sua candidatura à Presidência da República? O alcaide Costa tenta ignorar com um “não tenho nenhum comentário a fazer” – seguindo a velha tradição socialista de varrer os problemas para debaixo do tapete na esperança de ninguém dar por eles. José Lello, o baladeiro José Lello, o sempre elegante José Lello, chama-lhe o “Beppe Grillo português”. Augusto Santos Silva, o da fina ironia, afirma-o um anónimo que apenas “deseja aproveitar quinze minutinhos de fama”. Um ex-governante de Sócrates desconfia “logo dessas pessoas que dizem que vêm dos bons costumes” – é muito apropriado ver um socratista desconfiar “dos bons costumes”.

 

Ora quem é Henrique Neto para causar tal reboliço no PS? Desde logo, é um empresário que não precisa da política para viver – e o PS sempre olha com desconfiança e, mesmo, desdém, para aqueles que não necessitam dos jogos de cadeiras para fazerem a sua vidinha. Depois, Henrique Neto é um socialista que não se coíbe de acusar os podres do seu partido – e isto, para o PS, é imperdoável, pois um canalha dos seus é um bom canalha. Henrique Neto criticou a clique soárica; foi um crítico da flacidez do guterrismo; foi também uma voz crítica do protofascismo socrático e da imensa promiscuidade política/negócios que foi apanágio desse regime. Henrique Neto apoiou António José Seguro – ninguém é perfeito! -, mas demos-lhe um desconto: fê-lo com a esperança de que Seguro limpasse o PS de todo o lixo humano incrustado no partido desde o socratismo.

 

Santos Silva, o Augusto (não confundir com o Carlos), diz que Henrique Neto pretende ter quinze minutinhos de fama. Lamentável exercício de desconversa! Henrique Neto, ao contrário do coiso que opinou, é um empresário que se fez e cuja opinião é muitas vezes procurada por ser respeitada – não por ser eternamente parte dos corsos partidários. Não precisa de “quinze minutinhos” de fama porque já teve muitas vezes isso no passado e continuará, esperemos, a tê-los no futuro. A não ser, claro, que a imprensa marcadamente alinhada com Costa o passe a ignorar. Nada que me surpreenda, pois após a sua presença no programa “Plano Inclinado” da Sic-Notícias, durante o qual se dedicou a expor as ligações umbilicais entre os políticos (no geral e do PS em particular) e a maçonaria, a Sic-Notícias de Balsemão e dirigida pelo soarista António José Teixeira imediatamente suspendeu o programa e anunciou o seu “repensamento”.

 

Sim, Henrique Neto deixou o PS desconfortável com a sua candidatura à Presidência da República. Aliás, também ME está a deixar desconfortável, pois dada a concorrência que se perfila, pondero assim o – até hoje – inédito: votar num socialista.

Um homem à parte

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As pessoas podem começar a pensar que eu tenho um qualquer problema particular com o PS. Posso dizer, com absoluta sinceridade, que tal é muito distante da verdade: eu começo é a ter um problema com a generalidade do PS.

Vera Jardim, um dos eternos actores do nosso regime, veio dizer que o ex-Querido-Líder tem o direito de violar a lei para “se defender”. Isto é o assumir sem rodeios por parte do Partido Socialista que a legalidade é um conceito apenas aplicável aos outros, enquanto ele próprio, mercê do seu nascimento ou predestinação, está isentado dessas chatices.

Mas a questão é, também, outra. Para se defender das investigações no caso Freeport, Sócrates já fizera avançar Lopes da Mota com ameaças de represálias caso os inquéritos não fossem encerrados com rapidez – e, imagino eu, “resultados satisfatórios”. [Lopes da Mota, convém lembrar, não é virgem na manipulação de casos judiciais envolvendo figuras gradas do PS.] Mais tarde, para se defender do escrutínio de Manuela Moura Guedes, Sócrates e sus muchachos conspiraram para a compra da TVI por um grupo que lhe desse garantias de respeitinho.

Ou seja: de há muito que José Sócrates recorre à ilegalidade para se defender . Aliás, cada vez mais parece evidente que, para Sócrates, a ilegalidade é um estilo de vida.

O Segredo

Andam agora os defensores de Sócrates muito preocupados com a violação dessa coisa chamada “segredo de justiça”. Eu gostava de saber, em particular, o que diz sobre o tema o líder parlamentar socialista Ferro Rodrigues, que há uns anos foi gravado a dizer precisamente estar-se cagando para o segredo de justiça.

Circo

Em Janeiro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, opunha-se ferozmente à lei da Convergência de Pensões proposta pelo governo afirmando-a “ferida de morte” de inconstitucionalidades.

 

Em Novembro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva antecipe as eleições legislativas do próximo ano – apesar de a lei (aprovada em 1999) afirmar, preto no branco, que devem ser marcadas para o período entre 14 de Setembro e 14 de Outubro. Ou seja, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva faça algo – “ferido de morte” de ilegalidades.

 

Se Vieira da Silva, apoiante de Guterres para a Presidência e de António Costa para Primeiro-Ministro, tiver alguma dúvida sobre esta lei, pode pedir esclarecimentos a… António Costa, na altura da aprovação Ministro dos Assuntos Parlamentares e que negociou a lei – ou a António Guterres, na altura Primeiro-Ministro.

 

Tem a sua piada. Em 1999, o PS no governo não se preocupou minimamente com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado. Em 2014, curiosamente, o PS na oposição mostra-se preocupadíssimo com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado.

 

Mais curiosamente ainda, o mesmíssimo PS de António Costa que na oposição se mostra preocupado com os calendários eleitorais poderem dificultar a elaboração do Orçamento de Estado – já está uma semana atrasado na apresentação do orçamento municipal no município onde governa há sete anos, e isto apesar de as eleições respectivas  terem sido no ano passado.

 

Como é que esta gente pode querer ser levada a sério?

Há males que vêm por bem

Há um ano, António Costa dizia que ser presidente da Câmara de Lisboa era incompatível com ser líder do PS. E agora, continua a ser ou, como disse em Julho, “as circunstância mudaram”? (Muito gosta esta gente do PS de justificar as suas piruetas com a “mudança de circunstâncias”).

 

Eu até diria que, se ele sair da Câmara, o país perde de certeza – mas Lisboa talvez ganhe.