O PS, por outro lado, já veio prometer pela voz do seu presidente que, em sendo eleito, tapará o buraco cavado no BES, tal como no passado recente fez aqueloutro cavado no BPN. Este é o mesmo PS que, à frente da autarquia de Lisboa, tomou múltiplas decisões que beneficiaram directa e indirectamente o supracitado BES. Este é o mesmo PS que sempre se apresta a amparar com mãozinha carinhosa e amiga (e bem recheada de dinheiro do contribuinte) qualquer trafulhice banqueira.
Há toda uma pestilência de promiscuidade a envolver isto sem que a ninguém pareça importar.
O que diz o PS da sua candidatura à Presidência da República? O alcaide Costa tenta ignorar com um “não tenho nenhum comentário a fazer” – seguindo a velha tradição socialista de varrer os problemas para debaixo do tapete na esperança de ninguém dar por eles. José Lello, o baladeiro José Lello, o sempre elegante José Lello, chama-lhe o “Beppe Grillo português”. Augusto Santos Silva, o da fina ironia, afirma-o um anónimo que apenas “deseja aproveitar quinze minutinhos de fama”. Um ex-governante de Sócrates desconfia “logo dessas pessoas que dizem que vêm dos bons costumes” – é muito apropriado ver um socratista desconfiar “dos bons costumes”.
Ora quem é Henrique Neto para causar tal reboliço no PS? Desde logo, é um empresário que não precisa da política para viver – e o PS sempre olha com desconfiança e, mesmo, desdém, para aqueles que não necessitam dos jogos de cadeiras para fazerem a sua vidinha. Depois, Henrique Neto é um socialista que não se coíbe de acusar os podres do seu partido – e isto, para o PS, é imperdoável, pois um canalha dos seus é um bom canalha. Henrique Neto criticou a clique soárica; foi um crítico da flacidez do guterrismo; foi também uma voz crítica do protofascismo socrático e da imensa promiscuidade política/negócios que foi apanágio desse regime. Henrique Neto apoiou António José Seguro – ninguém é perfeito! -, mas demos-lhe um desconto: fê-lo com a esperança de que Seguro limpasse o PS de todo o lixo humano incrustado no partido desde o socratismo.
Santos Silva, o Augusto (não confundir com o Carlos), diz que Henrique Neto pretende ter quinze minutinhos de fama. Lamentável exercício de desconversa! Henrique Neto, ao contrário do coiso que opinou, é um empresário que se fez e cuja opinião é muitas vezes procurada por ser respeitada – não por ser eternamente parte dos corsos partidários. Não precisa de “quinze minutinhos” de fama porque já teve muitas vezes isso no passado e continuará, esperemos, a tê-los no futuro. A não ser, claro, que a imprensa marcadamente alinhada com Costa o passe a ignorar. Nada que me surpreenda, pois após a sua presença no programa “Plano Inclinado” da Sic-Notícias, durante o qual se dedicou a expor as ligações umbilicais entre os políticos (no geral e do PS em particular) e a maçonaria, a Sic-Notícias de Balsemão e dirigida pelo soarista António José Teixeira imediatamente suspendeu o programa e anunciou o seu “repensamento”.
Sim, Henrique Neto deixou o PS desconfortável com a sua candidatura à Presidência da República. Aliás, também ME está a deixar desconfortável, pois dada a concorrência que se perfila, pondero assim o – até hoje – inédito: votar num socialista.
O pequeno soba dos Açores Carlos César já anuncia: se o PS for governo, vai pagar o dinheiro do BES. A caça ao voto aí está em toda a sua pujança. Este PS começa a parecer obsessivo-compulsivo, sempre com a compulsão de limpar os cofres.
As pessoas podem começar a pensar que eu tenho um qualquer problema particular com o PS. Posso dizer, com absoluta sinceridade, que tal é muito distante da verdade: eu começo é a ter um problema com a generalidade do PS.
Vera Jardim, um dos eternos actores do nosso regime, veio dizer que o ex-Querido-Líder tem o direito de violar a lei para “se defender”. Isto é o assumir sem rodeios por parte do Partido Socialista que a legalidade é um conceito apenas aplicável aos outros, enquanto ele próprio, mercê do seu nascimento ou predestinação, está isentado dessas chatices.
Ou seja: de há muito que José Sócrates recorre à ilegalidade para se defender . Aliás, cada vez mais parece evidente que, para Sócrates, a ilegalidade é um estilo de vida.
Andam agora os defensores de Sócrates muito preocupados com a violação dessa coisa chamada “segredo de justiça”. Eu gostava de saber, em particular, o que diz sobre o tema o líder parlamentar socialista Ferro Rodrigues, que há uns anos foi gravado a dizer precisamente estar-se cagando para o segredo de justiça.
Em Janeiro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, opunha-se ferozmente à lei da Convergência de Pensões proposta pelo governo afirmando-a “ferida de morte” de inconstitucionalidades.
Em Novembro deste ano, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva antecipe as eleições legislativas do próximo ano – apesar de a lei (aprovada em 1999) afirmar, preto no branco, que devem ser marcadas para o período entre 14 de Setembro e 14 de Outubro. Ou seja, Vieira da Silva, paladino da Lei e da Constituição, quer que Cavaco Silva faça algo – “ferido de morte” de ilegalidades.
Se Vieira da Silva, apoiante de Guterres para a Presidência e de António Costa para Primeiro-Ministro, tiver alguma dúvida sobre esta lei, pode pedir esclarecimentos a… António Costa, na altura da aprovação Ministro dos Assuntos Parlamentares e que negociou a lei – ou a António Guterres, na altura Primeiro-Ministro.
Tem a sua piada. Em 1999, o PS no governo não se preocupou minimamente com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado. Em 2014, curiosamente, o PS na oposição mostra-se preocupadíssimo com os calendários eleitorais dificultarem a elaboração do Orçamento de Estado.
Li algures que António Costa, no discurso de vitória, terá dito que “Estas eleições primárias só têm um vencedor: o PS“. Concordo em absoluto – e deve ser a primeira vez que concordo com António Costa.
Há um ano, António Costa dizia que ser presidente da Câmara de Lisboa era incompatível com ser líder do PS. E agora, continua a ser ou, como disse em Julho, “as circunstância mudaram”? (Muito gosta esta gente do PS de justificar as suas piruetas com a “mudança de circunstâncias”).
Eu até diria que, se ele sair da Câmara, o país perde de certeza – mas Lisboa talvez ganhe.
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