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O homem omnipresente

No conto de Isaac Asimov Será Que Uma Abelha Se Importa?, o personagem Kane atravessa os séculos, anónimo e discreto, provocando saltos no pensamento científico com a sua presença. Ele não tem uma acção directa nos acontecimentos, nem sequer sabe muito bem o que faz, como o faz e para quê. É apenas uma espécie de catalisador, substância que potencia uma reacção sem ser alterada por ela:

 

“Kane lembrava-se que tinha sido sempre assim, especialmente com teóricos. Quando Lise Meitner decidira procurar bário entre os elementos do bombardeamento de neutrões, Kane estava lá, caminhando por um corredor do laboratório.

 

Em 1904, andava a apanhar folhas e lixo num parque, quando o jovem Einstein passou por ele, meditando. A passada de Einstein aumentara de velocidade com o impacto de uma ideia súbita. Kane sentiu-o como um choque eléctrico.

 

Recuou ainda mais no tempo. No dia em que o jovem Newton olhara para a Lua, no alvorecer de um certo pensamento, Kane estava lá. E mais atrás ainda.”

 

Isto veio-me à memória a propósito de Rui Paulo Figueiredo, deputado do PS e presidente da concelhia socialista de Lisboa. Vejamos estes três acontecimentos, na aparência afastados entre si: caso Presidência da República/espionagem de 2009; caso PPPs; caso Paulo Pereira Cristóvão. Há algum ponto de contacto entre eles? Sim, pelo menos um: a presença algures no processo de Rui Paulo Figueiredo.

 

1) Em 2009, Rui Paulo Figueiredo era, isto parece ser globalmente assumido, os olhos de Sócrates que a Presidência da República pensava estarem-lhe a fazer uma marcação estranhamente cerrada.

 

2) Rui Paulo Figueiredo é o homem que, qual Mandrake, fez aparecer do nada um putativo relatório minoritário de dentro do Tribunal de Contas que colocaria em xeque as conclusões deste sobre as PPPs. Figueiredo é o coordenador do Grupo Parlamentar do PS na comissão de inquérito às PPPs. Como em qualquer romance passado na Guerra-Fria, esse relatório minoritário chegou-lhe às mãos depositado, anonimamente, no cacifo de um deputado do PS também não identificado.

 

[A autenticidade de tal documento, entretanto cabalmente desmentido pela actuação do próprio TC, sempre pareceu altamente questionável. A ideia de alguém, anónimo e discreto, iludir a vigilância do Parlamento, entrar numa área reservada como imagino serem os cacifos da nossa deputação, depositar num deles o envelope, e sair de lá sem sequer uma abordagem, parece-me próxima da alucinação – mas incapaz, pelos vistos, de levantar um sobrolho do jornalismo de investigação.]

 

3) Rui Paulo Figueiredo é vogal do Conselho Directivo do Sporting, pertence à mesma direcção onde esteve até agora Paulo Pereira Cristóvão, e têm estado os dois entretidos numa luta intestina de poder e influência junto do presidente Godinho Lopes. Paulo Pereira Cristóvão vê-se envolvido num processo de corrupção desportiva – que pouca gente compreende para que serviu -, e mais uns desvios de dinheiro.

 

Eu sei que o país é pequeno, e que toda a gente corre o risco de conhecer toda a gente. Mas este nome, Rui Paulo Figueiredo, parece surgir com particular insistência quando são casos que envolvam recolha de informação, cuscuvilhice ou geração de desinformação. Não me surpreende, portanto, o facto de também pertencer à Maçonaria, entidade que parece surgir com igual frequência em qualquer assunto minimamente escandaloso. Não me admira também que tenha sido “irmão” de Jorge Silva Carvalho e agora estejam em Lojas rivais. Seria uma surpresa enorme se, no caso de um jornal agarrar este assunto, viesse a descobrir que Rui Paulo Figueiredo esteve de alguma forma envolvido nas fugas de (des)informação que têm alimentado o caso Relvas?

 

Ao contrário do inócuo Kane, este moço a quem Sócrates deu palco parece saber muito bem o que fazer, quando, a quem e com quem. Eu acredito em coincidências, mas também estou convencido de que quando estas ocorrem com constância e em sucessão, deixam de ser coincidência e passam a outra coisa: regra. Estarão, por uma vez, os paranóicos certos? Será, de facto, este pobre país um mero tabuleiro de xadrez onde gentinha reles se diverte nos seus joguinhos de poder, formando clubes com nomes como Mozart, Mercúrio, Brasília? Seremos nós, realmente, pasto de anões que brincam aos deuses?

Até parece que seria novidade…

As não-notícias aborrecem-me. Isto é uma não-notícia: segundo o Tribunal de Contas, Sócrates terá arruinado a Saúde. E depois? Onde está a novidade? Porque havia a Saúde de ser imune ao flagelo socrático? Notícia será quando alguém descobrir algo que Sócrates não tenha deixado num desastre. Por exemplo:

 

Sócrates não deixa desastre na J.P. Sá Couto.

 

Em paralelo, continuo a questionar o papel do Tribunal de Contas. Em princípio, tribunal é um local onde se julga, onde se administra justiça. Ora o nosso Tribunal de Contas apenas parece julgar… as contas. Mas não seria interessante se, ao descobrir contas aldrabadas por velhacada ou desastrosas por negligência, também julgasse os seus [ir]responsáveis? Se não tem poderes para tal, devia ter. Se possui poderes para isso – alguém que lho diga, pois não o parece saber.

O período de nojo

António José Seguro relembrou ontem ter apresentado uma proposta que obriga os espiões a fazerem um período de nojo de cinco anos entre a saída dos serviços e a entrada numa empresa privada.

 

Ok, eu compreendo onde ele quer chegar com isto. Mas a minha questão é: e o que fazem os ex-espiões durante esses cinco anos? São colocados em empresas públicas? São postos nos serviços do Fisco? Vão passar esses cinco anos numa ilha deserta do Pacífico, sustentados pelo erário público? Está Seguro a invocar clássicos da ficção-científica e planeia armazéns de espiões em “animação-suspensa”?

 

Como todo o político que nunca fez nada sem ser política ou a gravitar à volta da política, António José Seguro não tem noção do tempo que cinco anos representam…

Cruella de Vil

Já fui desafiado a comentar o início do julgamento de Ricardo Rodrigues. Não tenho muito que possa dizer: o léxico não possui palavras que me permitam descrever os sentimentos em mim inspirados por este repulsivo personagem. Basta ver a limpeza com que procedeu à sua “acção directa”:

para perceber que há ali todo um longo estudo das ancestrais artes do carteirismo.

 

Mas a sério: há alguma coisa a dizer em relação a um julgamento que começa dois anos depois do facto consumado – e gravado em flagrante? O que se pode dizer de uma bancada parlamentar que, em vez de exigir a sua demissão, ou pelo menos suspendê-lo, ainda o veio defender como vítima? O que dizer de um líder (Sócrates) que, depois desta magnífica actuação, o apresenta para reocupar o lugar na “casa da democracia”? E valerá a pena recordar o ridículo que foi Ricardo Rodrigues, este mesmo Ricardo Rodrigues que faz desaparecer gravadores com uma técnica digna do eléctrico 15, ser eleito para o Conselho Geral do Centro de Estudos Judiciários?

 

E quanta ironia o facto deste Ricardo Rodrigues, este mesmo Ricardo Rodrigues que furta gravadores a jornalistas na Assembleia da República, pertencer à Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação – precisamente três conceitos que ele devassou nestes breves segundos (e toda uma carreira antes e depois)?

Por qué no te callas?

Já chega. Façam-no parar. A sério! Açaimem-no. Os jornais insistem em colocar o microfone à frente do velho Soares para que ele, com moralidade inexistente, exercite a sua cara-de-pau sem qualquer escrutínio. Ana Sá Lopes, neste triste episódio, parece uma sopeira: “o sr. dr. isto”, “o sr. dr. aquilo”, “o sr. dr. acha”…

 

Sempre que Soares fala, eu sinto-me insultado.

 

Ao querer afastar-se da troika, e culpar o actual governo pelas dificuldades que alguns sentem, o escorregadio Soares parece aquelas pessoas que passaram décadas a fumar seis maços diários – e depois culpam o médico por perderem o cabelo na quimioterapia.

Retrato a cores e em alta resolução

Maria Filomena Mónica, em entrevista ao jornal I, quando questionada sobre o desempenho da oposição que vamos tendo, responde certeira e lapidar:

 

A oposição desapareceu. O PS não existe, nem sei o que é aquilo. O líder não tem carisma, não sabe o que há-de fazer, está condicionado pelo acordo com a troika. E sucede a um delinquente político chamado Sócrates, o pior exemplo que jamais, na História de Portugal, foi dado ao país: ir para Paris tirar um curso de “sciences po”, depois daquela malograda licenciatura – à qual não dou a menor importância, pois há muitos excelentes políticos que não são licenciados. O engenheiro Sócrates foi o pior que a política pode produzir. Depois de tantos processos em que mentiu, aldrabou, não depôs, ninguém percebeu o que se passou com o Freeport, os portugueses perguntam-se onde foi ele buscar dinheiro para estar em Paris. Quem é que lhe paga as despesas e o curso? A esquerda socialista tem ali este belo exemplar a viver no 16ème, e um sucessor que não inspira ninguém. O PCP vive num mundo antes da queda do Muro de Berlim, e o Bloco de Esquerda habita em Marte.

 

Só discordo em parte minúscula da formulação: Sócrates foi um delinquente político – mas também foi um político delinquente.

… e ainda me perguntam porque raramente vejo televisão?

Liguei a televisão pela hora de jantar. Comecei a fazer zapping pelos vários canais. Na Sic Notícias, estava a doidinha Isabel Moreira a ser entrevistada. Na RTP-Informação, ou lá como se chama agora a defunta RTP-N, estava o palerma Galamba. Nem me atrevi a passar pela TVI24, não fosse deparar-me com o esgar do viscoso Silva Pereira. Em suma, o exemplo perfeito de telelixo. E eu continuo a questionar-me sobre o porquê de se dar tanto tempo de antena a este gangue manhoso.