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ADSE – a granada de fragmentação do PS

O tema ADSE estilhaçou a estratégia que o nosso amigo Tó Zé tinha delineado para o PS: capitalizar as medidas difíceis que este Governo tem de tomar e, sem propor uma única medida ou alternativa digna desse nome, ganhar eleições. Álvaro Beleza saiu da toca e desafinou a orquestra.

 

Desde então, têm-se feito ouvir vozes de notáveis e menos notáveis do PS bradando a sua indignação perante tão vil posição. Aqui, claro destaque para José Lello, com um brilhante “a maioria dos funcionários públicos são eleitores do PS”. Sintomático. Desde que descobriu o Facebook, José Lello não mais parou de debitar as suas doutas opiniões. Talvez tenha passado ao lado de uma outra grande carreira, onde talvez, apesar de tudo, fosse mais contido nos disparates.

 

A tudo isto assiste o patrono indiscutível da família socialista, o adoentado Soares, confortavelmente acomodado numa cama fofinha do Hospital da Luz que tem, curiosamente, protocolo com a ADSE. Adoro quando os meus textos saem assim redondinhos.

O kama-sutra (2)

Esta questão da ADSE vem mostrar como o PS funciona. Álvaro Beleza, responsável do PS para a área da Saúde, defende o fim da ADSE. Carlos Zorrinho diz que isso é a opinião pessoal do seu camarada, não a posição oficial do partido. E eu questiono-me: como é que posso acreditar num partido que me propõe medidas coordenadas por alguém cuja opinião pessoal é diametralmente oposta a elas?

Eles estão a chegar

 

O título da notícia está muito bem pensado e é precisamente o que eu diria:

 

Devagarinho, António Guterres regressa a Portugal

 

Os candidatos à presidência da República aí estão a posicionar-se. O Alto Refugiado das Nações Unidas nunca conseguiu esconder o seu desejo pelo cargo. Basta recordar a sua inacção enquanto Primeiro-Ministro para perceber que, já então, ele tinha apetências por cargos mais institucionais do que executivos. Aliás, não tomar nenhuma decisão parecia ser a ideia de paraíso para António Guterres.

Mecenato

Ana Paula Vitorino, secretária de Estado dos Transportes no consulado de Sócrates e Mário Lino, veio criticar a suspensão do TGV. Considera-a um “profundo retrocesso para a economia portuguesa”.

 

Interessante, a desfaçatez destas gentes. Mas ainda mais interessante é este argumentário:

 

“o projeto (…) poderia sustentar-se economicamente por si próprio, beneficiando de fundos comunitários entretanto perdidos por Portugal.”

 

O projecto, pelo que percebo, podia ser auto-sustentável – mas na condição de beneficiar de fundos comunitários. É um argumento genial: a sua auto-suficiência derivaria não da sua utilidade, graças aos pagamentos de quem dele usufrui, mas da sua simples existência – recebendo um subsídio por ter sido construído.

 

Continua a ser este, afinal, o conceito de sustentabilidade económica que as mentes socialistas abraçam. É como se fôssemos um país sustentado por mecenato.

É oficial

Há quem lhe chame a síndroma da segunda geração. Quando alguém atinge uma grande notoriedade na sua actividade e tem filhos que lhe sucedem, espalha sobre estes uma sombra da qual não se conseguem libertar. João Soares nunca o conseguiu – e nem precisou.

 

As declarações de Passos Coelho não são caso virgem. Já Cavaco Silva, quando era primeiro-ministro, reagiu assim perante os autarcas do PSD que reclamavam mais dinheiro. Cavaco Silva disse – e fê-lo à porta fechada – que nunca ninguém o veria colocar os interesses partidários à frente dos do país.

 

Como qualificar a frase de Passos Coelho “que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”? Um céptico chamaria “demagogia”, um optimista diria “integridade”, o Carlos Abreu Amorim “santidade”.

 

Um hipócrita chamar-lhe-ia “gaffe”. E é isso o que Soares-filho-do-pai mostrou ser: um hipócrita. Porque ao chamar a isto “gaffe”, ao medir os outros pelo metro da sua própria [a]moralidade, João Soares assumiu explicitamente aquilo que já se tornara implícito pelos actos: que para o Partido Socialista e as suas gentes, o objectivo único da actividade política é o jogo em si mesmo, não o serviço à comunidade ou ao país. Se estes calham a sair beneficiados dessa actividade, trata-se de um mero acaso.

 

O ex-jovem Soares-filho-do-pai mostrou ter herdado o carácter (ou a falta dele) do velho Soares-pai-do-filho.