Seguro vai apresentar moção de censura; Seguro não vai apresentar moção de censura; Seguro é desafiado a apresentar moção de censura; Seguro já pensa em apresentar moção de censura…

Seguro vai apresentar moção de censura; Seguro não vai apresentar moção de censura; Seguro é desafiado a apresentar moção de censura; Seguro já pensa em apresentar moção de censura…

Daniel Oliveira, um dos perpetradores semanais do “Eixo do Mal”, saiu do Bloco de Esquerda em ruptura com Louçã. Não é nada que não se visse no horizonte. Há muito que Daniel Oliveira me parecia interessado numa aproximação à ala esquerda do PS, imaginando para o Bloco um papel, à esquerda, semelhante ao do PP à direita.
Ficarei surpreendido se o vir atrelar-se ao PS, quiçá guiado pela mãozinha tratada a óleo de amêndoa de Joana Amaral Dias? De todo. Afinal, o nosso PS é uma enorme confederação, albergando desde as correntes católicas vindas do CDS até aos ideólogos chegados da esquerda radical. Vendo bem a coisa, há muito mais a separar as margens do PS do que aquilo que desune os extremos do BE. A diferença entre o PS e o BE, é que este último não possui a “força gravitacional” que mantém em aparente união partículas tão distantes – e essa “força” é a constante hipótese de acesso ao poder.
O pequeno e nada augusto César dos Açores veio dizer que:
Um dos rostos do grupo socialista que enterrou o país quer, agora, aproveitar-se do descontentamento que esse enterro gerou. É um pouco como o incendiário que ateia fogo a uma mata e depois se excita a vê-la arder. E é este César que alguns, aparentemente a sério, gostariam de ver assumir um papel importante no PS nacional.
Pudor, como é de ver, não tem nenhum; nesse aspecto, parece cumprir os requisitos para um grande futuro no gangue. Mas na minha opinião, se alguma vez os socialistas considerassem – seriamente – eleger este César para secretário-geral do partido, mais valia fecharem-se à chave na sede e mudarem-lhe o nome para Hospício do Rato.

O optimismo não é a minha qualidade mais evidente. Mesmo assim, eu gosto de acreditar que, se o PS não está a capitalizar mais do descontentamento dos portugueses, é porque estes ainda se vão lembrando de que, dos quinze anos que antecederam a chegada da Troika, 80% desse tempo foi sob governos socialistas.
Confesso que a grande novidade acerca da resposta de Lagarde a Seguro foi o facto de haver uma resposta de Lagarde a Seguro.
No contexto nacional, já quase toda a gente aprendeu a tratar Seguro com o carinhoso desdém que ele merece. O mesmo desdém adoptado, aliás, pelo Banco Central Europeu e pela Comissão Europeia.
Analisando um pouco do conteúdo, facilmente se verifica que Lagarde “chove no molhado”. Fala do díficil equilíbrio entre ajustamento orçamental e aposta em políticas de crescimento e de mais dois ou três lugares comuns. A posição do FMI sobre o assunto é clara (embora muitos queiram lançar o véu da dúvida) e só a ingenuidade pueril do líder a prazo do PS o levou a expor-se ao ridículo de balbuciar algumas coisas acerca de uma carta que tinha enviado. Sobre as eventuais respostas, nada!
Seguro, seguindo a linha socialista que nos conduziu à indigência, exigia a presença de responsáveis políticos na análise à situação económica do país. Os políticos, porventura os mesmos que, como ele, assistiram, impávidos e serenos, à viagem rumo à fossa onde hoje estamos atolados. Os políticos que, ao invés de estarem presentes nesta ou naquela avaliação, talvez devessem ser presentes à barra dos tribunais.
O jornal I apresenta-os como os “jovens turcos”, órfãos de António Costa e organizados entre si para se oporem à liderança de Seguro.
Eu até estou pronto a concordar com a maior parte da adjectivação, com a excepção da orfandade. Não acredito que António Costa fosse um pai espiritual para estes gangues organizados do PS. Costa seria, quando muito, um tio espiritual, um testa-de-ferro a consumir nesta travessia do deserto até que se reúnam as condições óptimas para o regresso do verdadeiro D. Sebastião destas gentes: José Sócrates. Basta ver os nomes apontados pelo I para o perceber: Pedro Nuno Santos, o rambo de Aveiro; João Tiago Silveira, antigo porta-voz socrático; Sérgio Sousa Pinto, que tem a infelicidade adicional de cada vez estar mais parecido com o ar mafioso de Armando Vara; João Galamba, o… repugnante. E todos os outros desta posse maldita, maioritariamente formada na JS e que já no passado se reuniu em “iniciativas” como o “Congresso Democrático das Alternativas”.
Na introdução à entrevista, a jornalista avisa o leitor para este se empenhar ao máximo, por forma a compreender as entrelinhas e entre-entrelinhas de Augusto Santos Silva, e poder apreciar todo o esplendor da sua “fina ironia”:
“As entrevistas a Augusto Santos Silva são para ser lidas nas linhas e nas entrelinhas e tendo em mente a fina ironia que caracteriza este ex-ministro”.
“Fina ironia”… falar da fina ironia do caceteiro Augusto Santos Silva é como tecer loas à elegância de Cicciolina.
Tal como era prevísivel, Costa está a jogar pelo Seguro.
Já avisou, no entanto, que o consenso tem um prazo de validade…
Será que Seguro já sente o frio da lâmina no pescoço?
Seguro está rodeado de predadores. A situação de Seguro no PS faz lembrar o argumento de alguns filmes de meados dos anos 90, de concepção algo descuidada, nos quais um anti-herói insuspeito era largado num bosque e, após duas horas de avanço generosamente concedidas, era alvo de uma perseguição incansável por parte de um grupo de vilões armados até aos dentes. Seguro foi largado no bosque (PS), foi-lhe dado algum tempo de avanço (o suficiente, esperam os caçadores, para que o desgoverno socrático caia no esquecimento) e agora os vilões saíram da cabana.
Este é o primeiro momento de clímax desta película. É aqui que começa o suspense. No entanto, ao contrário do que sucede nestes filmes, nos quais o mal amanhado protagonista, contra tudo e contra todos, acabava sempre por prevalecer, Seguro parece condenado a sucumbir às primeiras flechas, confirmando o seu papel desmaiado de líder transitório, caminhando para o túmulo poeirento da História no qual nada é recordado, armado com o ténue conforto de que ali, pelo menos, saberá com o que contar.
Resta uma importante questão: quem terá a “honra”, entre o assustador friso de vilões socialistas, de dar a Seguro a paz misericordiosa pela qual, com aquele olhar desorientado, o próprio parece implorar? Uma análise superficial atira António Costa para o topo das preferências (talvez não de Arménio Carlos, agora inclinado para interlocutores mais… arianos), mas imagine-se o seguinte: Costa abdica de Lisboa e o PS perde a Câmara para Seara. Numa altura em que as malogradas conferências de imprensa de Gaspar parecem, cada vez mais, fazer parte do passado, estará o anafado edil na disposição de correr um risco que, se correr mal, mas mesmo muito mal, lhe pode custar a carreira política?

O Calvin escrevia “Máquina do Tempo” numa caixa de cartão e esta tornava-se numa máquina do tempo; escrevia na caixa “Duplicador” e ela tornava-se num dispositivo de clonagem. É assim a imaginação das crianças – e é também assim a imaginação de António José Seguro.
Seguro passou eras “exigindo” crescimento ao Governo – por certamente pensar que bastava fazer um gráfico a subir para a realidade, por artes mágicas, o imitar. Depois “exigiu” emprego, como se bastasse imaginar empregos para estes aparecerem. Agora, pede uma maioria absoluta – como se apenas fosse necessário dizê-lo nos jornais para as pessoas deixarem de rir dele.
Seguro quer uma maioria absoluta para administrar o país. O problema para ele (espero eu!) é que, apesar de tudo, o português ainda se recorda do que foi o desgoverno socialista e do que é a completa falta de estratégia de Seguro – e não lhe dará nem uma maioria relativa para administrar o prédio.