
O decano Soares afirmou ontem na Sic Notícias que Pacheco Pereira representa dois terços do PSD. Eu já sabia que a Matemática nunca foi o forte de Soares, mas isto é confrangedor…

O decano Soares afirmou ontem na Sic Notícias que Pacheco Pereira representa dois terços do PSD. Eu já sabia que a Matemática nunca foi o forte de Soares, mas isto é confrangedor…

Pouco mais de um mês depois, aí está de novo o ancestral Soares num longo exercício de pulhice. Ana Sá Lopes, de espinha sempre aduladora perante o jurássico (três vezes “doutor”, seis vezes “senhor doutor”), já não é uma jornalista a conduzir entrevistas: tornou-se uma espírita que regularmente é chamada para fazer séances.
Parece óbvio que este homem, que pagou uma conta no supermercado com uma nota de 30(!) euros, está a aplicar a teoria económica de Mário Soares: se não há dinheiro, fabrique-se – e os problemas ficam resolvidos.
… ao disponibilizar o sermão do velho Soares apenas a assinantes.
Soares, falho de ética e de vergonha, prossegue debitando as suas atoardas, de alguma forma apoiado na reconfortante ideia de estar protegido de reacções pela sua muitíssimo provecta idade.
João, já não é de Aricept que este cavalheiro precisa, mas antes de Haldol:
O haldol é o haloperidol, um neuroléptico do grupo das butirofenonas. Além da indicação para tratamento dos sintomas psicóticos: pode ser usado também para evitar enjôos e vômitos de qualquer origem, para controlar agitação, agressividade devido a outras perturbações mentais, ou ainda para tratar o distúrbio de Gilles La Tourette.
Aquilo que o I Online expõe, via entrevista do jurássico Soares pela eternamente dócil Ana Sá Lopes (que consegue dizer apenas cinco vezes “senhor doutor”), não é a canalhice de um eterno canalha; não é a falta de vergonha de alguém que nunca possuiu um vestígio de consciência; não é, sequer, o sentimento de impunidade assumido por quem constantemente viu as suas enormes falhas de carácter, contradições de discurso e actos à margem da lei e da ética serem negligenciados – quando não absolvidos – por jornais e jornalistas, sempre desejosos de se sentarem à mesa com o grande dinossauro.
Não. Aquilo que se vê, nesta lamentável entrevista ao lamentável Soares, é a decadência de alguém cuja falta de saúde física e mental mereceria cuidados acrescidos – não esta exposição e humilhação públicas nas capas dos jornais, quiçá incentivadas por uma família negligente cujo estilo de vida sempre dependeu da ficção criada pelo próprio.
É só isto o que me apraz dizer em relação à última entrevista perpetrada pelo antigo Soares. Se não é o delírio de um senil, então é um acto criminoso certamente punível pela lei.
Num sermão quase inteiramente dedicado a babar o seu despeito por Margaret Thatcher, o ancião Soares, falho de ética, invoca os bons exemplos que vêm (como está tão incutido no anedotário mundial) da América Latina para afirmar a sua tese:
(…) quando não há dinheiro, não se paga (…)
A minha primeira reacção foi de revolta. Mas, quanto mais penso, mais se me entranha a soárica ideia. O decano Soares não está completamente fora de razão. Proponho até que se comece por aplicar a sua teoria em si próprio:
não há dinheiro, não se paga – a sua Fundação manhosa;
não há dinheiro, não se paga – as sua multas;
não há dinheiro, não se paga – a sua subvenção;
não há dinheiro, não se paga – o seu uso de automóvel de Estado, o condutor e o combustível;
não há dinheiro, não se paga – o seu gabinete, o seu secretariado e as ajudas de custo;
não há dinheiro, não se paga – a sua comitiva de segurança;
etc.

As declarações já têm dias, mas o tempo não lhes amenizou o fedor. O velhíssimo Soares reincide – nas “críticas ao Governo”, na língua de pau, na abjecção do argumentário:
“Aqueles que ainda não emigraram e os que não se suicidaram, o que começa a suceder com frequência (…)”
O jurássico Soares é um verme.
O grave Soares sente urgência, e a urgência nunca foi boa conselheira. Compara as manifs de agora com aquelas que precederam o final da Monarquia, e quer que Coelho se demita ainda antes das decisões do Tribunal Constitucional. Soares é um grande democrata – quando é o seu lado que vence.
O velho Soares, com estes apelos, faz lembrar as crianças que atiram o tabuleiro de jogo ao chão quando percebem que perderam. O decano Soares sonha com um novo 5 de Outubro, certamente para poder reviver essas excitações da sua adolescência. Juntando as declarações de hoje com o que escreveu no passado recente:

fica a ideia de que Soares não desdenharia a reedição do regicídio adaptado a este nosso regime. E não deixa de ter a sua piada: o pesado Soares invoca o final da monarquia – logo ele que se imagina com uma coroa na cabeça.
O gasto Soares quer a troika fora daqui – e eu pergunto-me quantos dos fundos que a sua fundação manhosa recebe são graças à troika, ou quantos dos postos que sustentam o seu clã ainda existem graças aos dinheiros que chegam da troika.
Soares é um vermículo – tal como vermículos são aqueles que lhe dão tempo de antena. O antiquíssimo Soares não tem soluções nem tem solução.
Segundo o Expresso, o DCIAP está a investigar o PGR de Angola por suspeitas de fraude fiscal e branqueamento de capitais. Quem saltou (anquilosadamente) em defesa de uma das principais figuras do Estado angolano, esse oásis de idoneidade? O ancestral Soares:
“(…) equívocos eventualmente existentes devem ser desfeitos com boa vontade recíproca”.
Com uma flexibilidade moral eternamente jovem, o geronte Soares afirma que devemos respeitar “acrescidamente” o posto do PGR angolano – mesmo que o próprio, nas suas acções, não o esteja a fazer. Da mesma forma, diz que “a polémica desencadeada pela notícia não é positiva para ninguém”; imagino então que, por oposição, a existência de corrupção impune nos principais actores do Estado angolano seja positiva para todos (para alguns terá sido, certamente).
O remoto Soares tem uma exigência de valores para com os seus amigos bastante relativa, agora como no passado. Hoje, não se importa se Portugal for visto como um cúmplice, por inacção, da cleptocracia angolana. Continua, afinal, o mesmo homem que, enquanto Presidente da República, visitou o seu amigo Bettino Craxi, fugido à justiça italiana por corrupção.
Como diria Arménio Carlos, os amigos são para as ocasiões. E Soares tem-se sempre desvelado, com o coração palpitante, por paixão a Angola e ao povo angolano. Enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, garantiu “em nome de Portugal o direito inalienável dos povos colonizados à independência” (aquilo que alguns cantam como a “descolonização exemplar”). Depois, esforçou-se por manter boas relações com o MPLA e Savimbi (como a palavra “Negócios”, do seu pretérito ministério, pareceu clarividente). As suas declarações de hoje não são mais do que a continuidade desta luta de sempre pelos laços fraternos luso-angolanos.