Soares anda no paraíso. Os jornalistas acorreram a colocar-lhe o microfone à sua frente e, como um velho comediante decadente sempre pronto a mais uma pilhéria, Soares não nos desiludiu: diagnostica o Governo como estando moribundo e quer que Cavaco Silva nomeie um governo sem recurso a eleições antecipadas. Estas últimas são curiosas palavras vindas de quem sempre tem afirmado que o voto popular é soberano.
A verdade é que não vou censurar a performance do velho Soares. Soares é como é e como sempre foi; há coisas que são como são, está na sua natureza. Esperar que o jurássico Mário Soares não seja um canalha é tão irrealista como esperar que uma vaca se torne, de súbito, caçadora.
Não; o que coloco em análise é a quase inexistência do nosso jornalismo. E apresento apenas dois (de vários possíveis) argumentos.
Primeiro, cada vez mais as notícias são meras retransmissões da mesma fonte. Isso é particularmente óbvio na presença online dos jornais: é um título chamativo para caçar cliques e subir no ranking da Google; é a colocação de uma história sem qualquer confirmação da mesma; é a mera colagem de um texto que já veio preparado de algures.
Neste caso, é evidente. Público, I, Sol, Expresso (e certamente mais alguns, mas não tive tempo para ser exaustivo), todos eles transcreveram online a mesma história mastigada pela Lusa – ipsis verbis:
Sol: Mário Soares quer substituição de Governo ‘moribundo’ sem eleições antecipadas
Expresso: Mário Soares diz que Governo está “moribundo” e deve demitir-se
I Online: Mário Soares sugere nomeação de novo governo sem recurso a eleições antecipadas
Público: Soares diz que Governo está “moribundo” e deve ser substituído
Segundo, já quase não há jornalistas. Atente-se nesta notícia: Soares diz o que bem entende, como o entende dizer e sem qualquer contraditório. Soares, ao invés de ser interrogado, deixa ele perguntas aos jornalistas. Parece que ninguém nas redacções ensina a estes novos “jornalistas” que o seu papel, quando se justifica, é escrutinar o que lhes é dito; é pedir explicações sobre as contradições de quem está à sua frente; é ter a coragem de não se deixar amedrontar ou impressionar com o entrevistado.
Estes jornalistas, quiçá uns miúdos estagiários que tentam ganhar uns trocos, olham para o senescente Soares com o temor reverencial que é inspirado por um enorme celacanto falante – e bloqueiam. Ou talvez, simplesmente, não possuam qualquer conhecimento da História recente.
Como, pergunto eu, como é possível que um qualquer jornalista que se ache merecedor de tal título tenha ouvido de Soares, como justificação para a substituição do Governo:
“A crise está instalada. Querem maior crise do que o país a gritar ‘vão-se embora’ e a chamar ‘gatunos’ aos membros do Governo? Foi o que aconteceu no sábado”
sem lhe perguntar imediatamente:
Mas então, em que é que isto é diferente de 83-85, era o senhor Primeiro-Ministro, o FMI estava cá, as manifestações sucediam-se, as greves seguiam em fila indiana, o povo pichava nas paredes “Governo Soares/Mota Pinto rua!” e “FMI fora de Portugal” – e o senhor permaneceu no poder sem sentir a sua legitimidade minimamente beliscada?