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Como uma criança

Os jornais foram ontem, como cachorrinhos amestrados, ouvir Mário Soares expor a sua solução para a crise: “Actual crise seria resolvida se Europa fabricasse moeda. (…) E a partir daí os problemas estão resolvidos“.

 

Devo começar por dizer que, para mim, ouvir Mário Soares falar de economia ou finanças é um pouco como ouvir o palhaço Batatinha falar de moda masculina.

 

Mas a frase de Soares traduz todo o seu pensamento(?) económico. Soares é o homem providencial das soluções fáceis, óbvias e indolores – tal como uma criança. E claro, Merkel é a culpada dos problemas que temos, Merkel que o nosso Soares acusa de “não ter visão nenhuma do mundo“.

 

Ora acontece que é facílimo ter-se “visão do mundo” quando se possui uma fundação manhosa sustentada em grande parte pelo erário público para empregar a família. Tal como é fácil ter-se “visão do mundo” quando se pode dizer aos polícias que “o Estado é que vai pagar as multas”. Para Soares, tal como para as crianças, é tudo fácil: basta fabricar dinheiro. Transpondo a teoria económica de Soares para uma família, se o ordenado é demasiado baixo para trocar o Corsa velho por um BMW novo, liga-se o computador e imprimem-se notas. E a partir daí os problemas estão resolvidos.

Memória de elefante

Soares, na sua homilia semanal do DN, continua a dar largas à sua demagogia. 

 

Lá para o final do artigo, Soares escreve:

 

François Hollande não perdeu tempo desde que ganhou as eleições presidenciais. Falou com a Senhora Merkel, no próprio dia da sua investidura, e não teve papas na língua.

 

Sempre gostei desta forma de estar hipócrita da auto-chamada Esquerda. É bom recordar que foi Hollande quem viajou até à Alemanha no dia da sua posse, o que é um bom indicador de quem detinha a posição de força. Aliás, Hollande estava tão ansioso que teve problemas no avião, regressou à França e, mesmo assim, voltou a encetar caminho.

 

Tivesse isto acontecido com um governante de Direita, o velho Soares não se coibiria de espetar o dedinho bem nutrido e acusá-lo de ir, subalterno, apresentar rapidamente os seus respeitos “à dona”. Como Hollande se apresenta de Esquerda, já é alguém “sem papas na língua”.

 

Mas o princípio do sermão de Soares também é interessante:

 

Um ano depois de o actual Governo ter entrado em funções, todos os portugueses sentem – e o próprio Governo reconhece – que tudo está muito pior do que antes. A culpa não é só das políticas do Governo. É, fundamentalmente, da crise global que aflige a União Europeia no seu conjunto. Como sempre escrevi, nestas crónicas, mesmo no tempo do anterior Governo e que o PSD então não gostava de ouvir.

 

Talvez desmemoriado – é uma das vantagens que a velhice traz, o permitir-se esquecimentos convenientes -, o velho Soares quer passar em claro que o problema de Portugal, nessa altura, não foi apenas como ele afirma “fundamentalmente da crise global que afligiu a União Europeia no seu conjunto”. Foi disso, sim, mas também imenso de um primeiro-ministro chamado Sócrates que não se coibiu de, nessas condições, gerir o Estado de forma ruinosa; aumentar, em tempo de eleições e apesar da crise, os funcionários públicos; e ser alguém tão indigno de confiança que um editor do Financial Times, Wolfgang Munchen, escreveu:

 

“You cannot run a monetary union with the likes of Mr. Sócrates.”

 

Eu sei que Mário Soares é um poliglota brilhante, com um inglês tão perfeito como o de Sir John Gielgud, mas permito-me (re)chamar a atenção para isto: um editor do Financial Times disse que não podia existir uma União Monetária com gente da laia do sr. Sócrates.

 

Repito: gente da laia.

Mais ridículo

Mas já que estamos numa de Globos de Ouro ridículos, porque não recordar a cerimónia de (penso) 97, em que Francisco Pinto Balsemão entregou o prémio Carreira a esse grande artista de vaudeville chamado Mário Soares? E em que, para apresentar o galardoado, Balsemão convidou Frank Carlucci? E em que, contou-me quem viu, este último afirmou (sem sequer corar) que Mário Soares era “Património da Humanidade”?

 

Que imagem: Balsemão, Soares e Carlucci juntos no palco. Ou como me disse alguém – pareciam a Sataníssima Trindade.

Por qué no te callas? [2]

Eu andava com a ideia de sugerir ao António que atribuíssemos um prémio “Por Qué No Te Callas?”. Receio, contudo, que se tornasse um prémio “Mário Soares” – com atribuição diária.

 

Infernizando-nos semanalmente com a publicação no DN de uma coluna de opinião/desfaçatez, o velho Soares bolçou hoje (entre outras pequenas maravilhas):

 

O Governo não comunica com os portugueses o que agrava o descontentamento e a incompreensão de uma situação que só tende a agravar-se. Não admira assim que os suicídios cresçam, como nunca antes sucedera, (…)

 

É atribuída a Einstein uma frase em que afirmava, de entre o Universo e a estupidez humana, só ter a certeza da infinitude da segunda. É óbvio que Einstein não conhecia a falta de escrúpulos do velho Soares.

Por qué no te callas?

Já chega. Façam-no parar. A sério! Açaimem-no. Os jornais insistem em colocar o microfone à frente do velho Soares para que ele, com moralidade inexistente, exercite a sua cara-de-pau sem qualquer escrutínio. Ana Sá Lopes, neste triste episódio, parece uma sopeira: “o sr. dr. isto”, “o sr. dr. aquilo”, “o sr. dr. acha”…

 

Sempre que Soares fala, eu sinto-me insultado.

 

Ao querer afastar-se da troika, e culpar o actual governo pelas dificuldades que alguns sentem, o escorregadio Soares parece aquelas pessoas que passaram décadas a fumar seis maços diários – e depois culpam o médico por perderem o cabelo na quimioterapia.

Envelhecer com dignidade

Quando se é jovem e ainda se acredita nos dias, têm-se visões de grandeza: Amor, Glória, Fortuna. Mas o Tempo é um bom professor. Hoje, limito-me a ambicionar que o envelhecimento me seja mais digno do que foi o de Soares e Alegre.

 

Egomaníacos, ainda os veremos a fazer ski-aquático para captar umas páginas de jornal. Por agora, basta-lhes solidarizarem-se com os “militares de Abril” que se recusam a participar nas sessões solenes de amanhã porque

 

“O poder político que a(c)tualmente governa Portugal configura um outro ciclo político que está contra o 25 de Abril, os seus ideais e os seus valores.”

 

Pelo que se infere dos seus discursos recentes, “os ideais e os valores” que guiaram gente como Otelo e Vasco Lourenço a fazer o 25 de Abril prefiguram um conceito algo maleável de Democracia. É irónico que estes senhores, que derrubaram o Estado Novo para – supostamente – vivermos em democracia, parecem incapazes de aceitar uma das suas consequências: que sejam outros, com posições ideológicas diferentes, a conquistar mais votos em eleições livres. Eleições livres, para Otelo e Lourenço, parecem só ter como resultado possível aquele que lhes convém.

 

Do nefelibata Alegre, tudo é expectável – portanto nada pode surpreender. De Soares, e do seu ego com gravidade jupiteriana, também não se pode esperar nada. Há muito que se tornou óbvia a verdadeira motivação para que se opusesse a uma putativa ditadura comunista no pós-25 de Abril: maior palco de influência para a sua augusta pessoa e o seu grupo. Que tal fosse menos maligno para o país – tal foi um simples acaso menos infeliz.

 

Já de Sampaio, confesso, esperava melhor. Por muito inútil que sempre o tenha achado, pensava-o com alguma genuinidade. Mas fazer depender a presença da “sua agenda internacional” parece mostrar que, também para ele, este dia tem um simbolismo muito relativizável.

 

E assim temos que aqueles que se preparam para celebrar o 25 de Abril na Assembleia da República, são precisamente aqueles que estão “contra os seus ideais e valores” – nas palavras dos que o fizeram, supostamente em nome desses “ideais e valores”, mas se recusam agora celebrá-los na “casa da democracia”.

 

Speedy Gonzalez

Soares, o tal que alguns afirmam ser “o pai da nossa Democracia”, falou. De novo. E de novo quando devia ter estado calado.

 

Soares, incontinente… verbal, diz que as decisões do Governo não atingem os mais favorecidos. Critica também “o despesismo do Estado e das empresas públicas”, afirmando que ao contrário do “corte nas gorduras do Estado” prometido em campanha, “até parece que tem vindo a engordar”.

 

É um facto que o Governo pode atingir alguns “favorecidos”, cortar algumas “gorduras” e reduzir despesas. Pode, por exemplo, eliminar a presença no Orçamento de Estado de fundações manhosas como uma tal “Fundação Mário Soares”, cuja utilidade ainda ninguém me conseguiu explicar (a não ser como local de recepção para líderes carismáticos como Chávez). Pode reduzir ou eliminar a mesada que lhe sustenta um escritório. Pode reduzir ou eliminar a guarda pretoriana que lhe dá um ar “ex-presidencial”. Pode manter na garagem da Direcção Geral das Finanças e do Tesouro o Mercedes Benz S350 a bordo do qual o nosso Speedy-Gonzalez-Soares anda a brincar à apanhada com os radares da GNR de Leiria a 199Km/h. E o Estado pode começar por conter os seus gastos não pagando a respectiva multa de 300 euros, pois o nosso Soares-Rex entende, na sua generosidade, que:

 

“o Estado é que vai pagar a multa”.

 

E não deixa de ser irónico que o velho Soares acuse o Governo de atingir os mais desfavorecidos com as decisões que vem tomando. Pois quando os oficiais da GNR lhe deram a escolher entre pagar imediatamente os 300 euros ou ver a carta do motorista ser apreendida, Soares tomou a decisão – que atingiu o mais desfavorecido:

 

“disse que o Estado é que ia pagar a multa, pelo que a carta do condutor ficou apreendida”.

 

Alguém devia estudar o genoma deste Soares pai-do-filho e tio-do-sobrinho. De certeza que algures faltam genes: os genes responsáveis pela vergonha. Talvez tenham sido substituídos pelos genes da falta-de-educação:

 

Quando os guardas se aproximaram, o ex-presidente terá sido “bastante mal-educado”

O nosso Messias

Ontem, enquanto apresentava na Figueira da Foz o seu livro “Um Político Assume-se”, Mário Soares deixou escapar que apenas depois de ter tido uma gravíssima discussão com Sócrates é que este acabou por ceder à evidência de ter de pedir ajuda externa.

 

Este Mário Soares é um encanto. As línguas viperinas do costume dirão ser mais um exemplo da egomania soarista, da sua ânsia infrene em ser falado e mostrar-se providencial. Nada disso: Soares É DE FACTO providencial, magistral, gravitacional. Espero com ansiedade as próximas apresentações do seu livro para ser tornado público que:

 

discussão gravíssima com Soares levou Mourinho a adoptar o losango;

 

discussão gravíssima com Soares levou Roosevelt a juntar-se aos aliados contra Hitler;

 

discussão gravíssima com Soares levou Newton a desenvolver o cálculo integral;

 

discussão gravíssima com Soares levou Shakespeare a escrever Romeu e Julieta;

 

discussão gravíssima com Soares levou Viriato a revoltar-se contra Roma.