Arquivo da Categoria: mário soares

Desconheço esse conceito…

Mário Soares, definitivamente, sofre de incontinência verbal. Segundo esta não-notícia, terá dito a jornalistas: “Quem assinou o primeiro PEC e pediu dinheiro emprestado foi o anterior governo do PS. Seria mau o novo líder socialista não se abster. Foi um acto de simpatia e respeito para com o antigo líder”.

 

Eu gosto de pensar que Soares está equivocado. Eu espero que esta abstenção não tenha sido meramente um acto de simpatia e respeito para com Sócrates. Eu espero, sim, que tenha sido uma manifestação de “vergonha na cara” – algo que Soares, certamente, não reconheceu por lhe ser completamente estranho.

Um homem frontal, polémico e dinâmico

Na véspera da ansiada greve geral, que teve o condão de unir duas das mais jurássicas centrais intersindicais da Europa, Mário Soares decidiu apelar à mobilização do povo de esquerda contra as políticas de austeridade. O mesmo Mário Soares que colocou o país de cócoras perante o FMI já lá vão uns anitos. Mário Soares é assim: um homem frontal, polémico e dinâmico, que muda opinião, posição, ideias e alianças com a facilidade que lhe é recomendada pela conveniência do momento.

 

Patrono da mais importante família da loja do rato, vai movendo influências, minando lideranças dentro do seu próprio partido, garantindo um posto eterno entre as fileiras da referida instituição. João Sousa define-o como ele é, para desencanto de quem gosta de o ver como um velho dinossauro marcado pelas cicatrizes das intensas lutas que travou pela liberdade. Ironia das ironias, no seu manifesto de duas páginas, ou naquele do qual é primeiro subscritor, Mário Soares cita a Igreja Católica. Porque Mário Soares é assim, um homem frontal, polémico e dinâmico…

Ah, o cavalheirismo de antanho…

António José Teixeira chamar-lhe-ia, entre duas entrevistas-monólogo na Sic-Notícias, uma velha raposa, enquanto o olhava com ar enlevado. Clara Ferreira Alves, a putativa-romancista, chamar-lhe-ia um velho leão, enquanto saltitava ao seu lado com olhinhos de uma fã do Elvis.

 

Eu prefiro chamar-lhe um velho. Um velho ressentido e com uma excessiva opinião de si próprio. Um velho que se sente injustiçado porque o Mundo não se vem espojar perante a sua enorme grandeza de pensamento. Ressentido com a “dona de casa” (Nicole Fontaine) que teve a veleidade de se lhe opor à presidência do parlamento europeu, cadeira na qual ele já se imaginava, que na sua cabeça lhe estava destinada pelo simples peso do seu… peso. Que diz que a “Europa deixou de ter líderes” – e ele aqui, ignorado, cheio de soluções, agora como no passado. Que diz que a Grécia “foi o berço da nossa civilização” – como se um passado de há séculos justificasse os desmandos actuais (ou Fundações). Que chama Merkel uma senhora “atrevida, uma senhora que vem da Alemanha do Leste e de um país que provocou duas guerras mundiais”.

 

Um velho chato, egocêntrico, deselegante, intimamente misógino, ressentido, pedante, que enche a boca com o “projecto europeu” mas o nega com declarações destas. Declarações às quais, francamente, se devia dar a importância de uma nota de rodapé. Ou do resmungo de um velho num banco de autocarro.