Aquivos por Autor: António Pinto

Vítor Gaspar, o Consensual

 

O lançamento do livro “Vítor Gaspar por Maria João Avillez” causou uma enchente no Centro Cultural de Belém. Gente de todos os espectros políticos, à excepção dos fanáticos de extrema esquerda que devem andar entretidos a escavar trincheiras algures em Serpa, fez questão de estar presente no evento, mostrando o seu apreço por este homem. De João Proença a Vítor Bento, de António Vitorino (que apresentou o livro) a Pires de Lima, todos deram um sinal de que as pontuais discordâncias não põem em causa o valor de Vítor Gaspar.

 

Fiquei surpreendido.

 

Sempre disse que Vítor Gaspar seria lembrado com saudade, mas não pensei que o reconhecimento do seu trabalho chegasse tão rapidamente. Provavelmente, até ele estará surpreendido.

 

Sei que vivo num país onde um papalvo bem falante, enfiado à calçadeira num fato caro, é muito mais apreciado do que um homem honesto que diz aquilo que nem todos querem ouvir. Sei que o português gosta do homúnculo medíocre alavancado a cargos de chefia pelo seu dom da oratória. Gosta que vença o pequenino, que ganhe o mole, pois assim a vitória está dissociada do trabalho e do valor. É mais democrática.

 

Fica a minha vénia, também por isto, a Vítor Gaspar.

Soares para o Panteão… mas já!

 

Aquando da morte de Eusébio, o paleolítico Soares regorgitou, entre outros disparates, que o ex-jogador não era um homem de cultura.

 

Será, porventura, verdade. Tão verdade, provavelmente, como dizer que o lamentável Soares será uma nódoa a jogar futebol.

 

A diferença central entre os dois não tem, no entanto, a ver com cultura, mas sim com o tamanho do ego. Será a diferença entre um homem simples e humilde que sempre lutou para ter o que tinha e um outro, privilegiado, de berço, arrogante e desagradável, que se gaba surda e absurdamente da sua bagagem intelectual.

 

É, entre outras razões, por isto que parece tão mal que na página da Fundação Mário Soares, generosamente financiada por todos nós, os idiotas que pagam impostos, se chame a Sherlock Holmes um pseudónimo de Conan Doyle.

 

Sabemos que o douto geronte nunca deixou que factos atrapalhassem a sua oratória, mas isto é capaz de ser um exagero.

Meco, o estigma da desresponsabilização

 

A tragédia do Meco, tal como tudo o que tem sido dito após a mesma, traz à luz muito do que está errado na sociedade. É normal que, num momento de luto e dor, os familiares mais próximos dos que morreram tropecem, às cegas, em busca de culpados. O que é indigno é o aproveitamento desse impulso para montar em torno do caso um lamentável alarido de caça às bruxas.

 

Não pretendo, com isto, fazer qualquer juízo de culpa ou inocência em relação ao sobrevivente (ao contrário de muitos, confesso a minha ignorância), nem tão-pouco validar os rituais de praxe que, tal como são conduzidos em Portugal, não passam de manifestações jurássicas de domínio sobre cinzentas criaturas, que a tudo se submetem para que lhes seja dada a oportunidade de fazer parte de alguma coisa. Para mim, uma instituição que promove ascensão hierárquica através da capacidade de emborcar cerveja aos litros não merece qualquer tipo de respeito. Ao invés, destacam-se duas coisas:

 

– durante todo este circo, ouvimos jovens dizer que as praxes as preparavam para a vida e que uma das estudantes que faleceu nesse dia “vivia para a comissão de praxe”. Algo está muito errado quando mulheres adultas consideram que rastejar na lama em busca de objectos ou simular práticas sexuais perante um auditório lotado de grunhos é preparação para a vida. Também me parece sinistro que uma jovem, aparentemente ajustada, dedique a sua vida a uma organização dotada de uma rigidez estrutural que representa tudo menos o carácter dos seus constituintes;

 

– conheço razoavelmente bem a maravilhosa Praia do Meco. Conheço, por isso, a violência inenarrável do seu mar, mesmo nalguns dias de Verão. Em 7 pessoas, 6 acharam que seria boa ideia aproximarem-se daquele mar, numa madrugada de inverno, enrolados numa capa, quando as ondas batiam nos 7 metros. Podemos levantar muitas dúvidas acerca dos detalhes que envolveram a tragédia, mas não devemos, a título algum, alimentar a cultura de desresponsabilização individual em que tantos parecem sentir-se confortáveis.

Eusébio e coisas menores [2]

Portugal venceu a Coreia do Norte por 5-3, naquela que terá sido uma das mais memoráveis exibições de Eusébio com a camisola das quinas, no Mundial de 66. Com 3 golos de vantagem, os coreanos não conseguiram suster o ímpeto luso e escreveu-se uma das páginas mais douradas do futebol português.

 

Este jogo é, mais importante que tudo, a memória mais marcante que Sócrates tem de Eusébio. Com uma lágrima no canto do olho, o socialista lembra-se como hoje de ir a caminho da escola e, aqui e ali, ouvir os populares festejarem os golos da reviravolta. Sócrates chegou à escola, nessa gloriosa tarde de sábado, 23 de Julho de 1966, certo da vitória de Portugal.

 

Ficámos a conhecer, desta forma, onde começou a inclinação de Sócrates para estudar ao fim-de-semana.

Eusébio e coisas menores

Morreu Eusébio.

 

Ao contrário do que alguns insistem em sublinhar, não desapareceu apenas um ex-jogador de futebol, mas um símbolo do País. Alguém que levou o nome de Portugal aos quatro cantos do Mundo fazendo muito bem aquilo que sabia fazer. Sem artifícios, sem rodeios, com a simplicidade que enchia a vida de um atleta profissional na década de 60. Eusébio teve o mérito de nunca se envolver em disputas políticas ou sociais, apesar de aliciado. Nunca se pôs em bicos de pés, reclamando a atenção e o carinho que a sociedade portuguesa lhe dedicava de forma espontânea. A sua simplicidade, que admiro e respeito, é uma das características que o tornaram numa figura unânime, independente de preferências clubísticas, e a razão pela qual, de uma forma mais ou menos intensa, todos choramos a sua morte.

 

O mesmo não sucederá aquando da morte do nojento Soares. Por cuspir coisas destas, por exemplo.

Feios, porcos e maus

 

Depois de tudo o que tem acontecido, a última coisa que os portugueses merecem é conviver com a invasão mediática, na mesma semana, de sombrias personagens como Otelo, Vasco Lourenço e Mário Soares debitando os seus disparates.

 

Levados, quiçá, pelo dissipar da virilidade própria de outras idades, falam de violência, murros e tiros como quem navega na sua própria realidade. As suas afirmações são, no entanto, para levar mais a sério. Seria, concordo com o João, benevolente justificar estes apelos primitivos com o irremediável declínio mental que se apodera destas personalidades.

 

Estão, porém, desfasados da realidade. Não vivem já no país tumultuoso que um dia conheceram e tudo lhes permitiu. São olhados com complacência, da mesma forma que se encaram dois velhos aldeões disputando, à bengalada, um qualquer metro de terra.

A falta de ambição do Tribunal Constitucional

Agora que o Tribunal Constitucional “virou o bico ao prego”, lá se vai a legitimidade pela janela fora.

 

“CGTP diz que cabe a trabalhadores lutar pela redução do horário de trabalho”

 

“PCP vai propor no parlamento reposição das 35 horas semanais na Função Pública”


Ao validar o regime das 40 horas de trabalho para a Função Pública, o TC não foi ambicioso. Ao invés, deveria ter proposto o seu alargamento para 44, como em Cuba, ou o início do dia de trabalho com reuniões políticas de uma hora e o seu encerramento com sessões de auto-crítica, como sucede na Coreia do Norte, esses bastiões da democracia de esquerda.